Cannibal Ferox (1981)

3.2
(6)

Cannibal Ferox
Original:Cannibal Ferox
Ano:1981•País:Itália
Direção:Umberto Lenzi
Roteiro:Umberto Lenzi
Produção:Mino Loy, Luciano Martino
Elenco:Giovanni Lombardo Radice, Lorraine De Selle, Danilo Mattei, Zora Kerova, Walter Lucchini, Fiamma Maglione, Robert Kerman, John Bartha, Venantino Venantini, 'El Indio' Rincon

Considerada uma das produções mais violentas de todos os tempos, exibindo com honra na capa sobre o filme ter sido banido em 31 países (exagero para atrair olhares), Cannibal Ferox é, na verdade, apenas uma sombra de Cannibal Holocaust. Não quer dizer que não tenha uma importância cinematográfica dentro do ciclo italiano de horror, além de cenas grotescas de repulsa, como as que envolvem crueldade com animais, mas trata-se de um filme pouco inspirado, que basicamente repete muito do que fora visto no longa de Ruggero Deodato, até mesmo na reflexão sobre “quem são os verdadeiros selvagens” e que tem um roteiro bastante óbvio, construindo sua fama pelos exageros.

Há quem diga que Cannibal Ferox seria um Cannibal Holocaust elevado à máxima potência pela exposição da “arte sangrenta de efeitos especiais de Gianetto de Rossi“. O longa de Deodato é muito superior em todos os quesitos, seja pela importância histórica, pela violência gráfica (os rituais de aborto e o de punição já são angustiantes o suficiente), pelo contexto, pela construção de um cenário claustrofóbico e até pelas horríveis mortes de animais (a da tartaruga sempre traz pesadelos), além de ter direção e montagem muito afinadas, distante do esforço de Umberto Lenzi, de outros trabalhos mais significativos na direção e roteiro. Mesmo assim, trata-se de um bom filme representativo do período.

Conhecido nos EUA também com o título Make Them Die Slowly, enquanto na Austrália foi lançado como Woman from Deep River (como referência ao longa anterior do diretor, Mundo Canibal, lançado por lá como Man from Deep River), Cannibal Ferox repete tomadas de Cannibal Holocaust, como as que mostram a Amazônia por cima e muitas das cenas com macacos agitados. E tal qual o anterior, começa na cidade grande e envolve o desaparecimento de pessoas que teriam partido numa expedição à mata, seja para comprar drogas, caçar esmeraldas ou por uma razão acadêmica.

Depois que um homem é morto por dois traficantes – um deles é interpretado por Perry Pirkanen, de Cannibal Holocaust, e outro pelo experiente John Bartha, em seu trabalho final -, a polícia identifica a moradia como pertencente a Mike Logan (Giovanni Lombardo Radice, de Pavor na Cidade dos Zumbis, 1980) e sua namorada Myrna Stenn (Fiamma Maglione). Na cidade de Paraguaya, os demais personagens são apresentados: os irmãos Rudy (Danilo Mattei, de Almas Perdidas, 1977) e Gloria (Lorraine De Selle, que esteve em Emmanuelle na América e The House at the Edge of the Park), além da acompanhante Pat (Zora Kerova, de A Casa das Janelas Sorridentes e Antropophagous).

Gloria pretende desenvolver sua tese de doutorado com a afirmação de que “o canibalismo, como prática de uma sociedade organizada, não existe.” Para ela, trata-se de “uma invenção do colonialismo racista que tinha o interesse de criar o mito do selvagem feroz e sub-humano como justificativa do extermínio.” Em outras palavras dita pela própria personagem: “A lenda do Cannibal Ferox era apenas um pretexto para justificar a ganância e a crueldade do conquistador.” Um trabalho de pesquisa que começou a se desenvolver depois que Glória leu um artigo publicado em 1976 que falava sobre relatos recentes nas proximidades do Rio Cuenca sobre três incidentes de canibalismo testemunhados por pessoas de fora, em uma vila conhecida como Manioca.

Depois de saírem da cidade e atravessarem um trecho de barco, eles partem de jipe pela mata, ignorando o aparecimento de uma borboleta “rainha da noite“, um símbolo do mau agouro, necessitando, de acordo com o guia, que você a coma. Como não o fazem, o veículo tem dois problemas no caminho até seu motor pifar de vez. Eles levam um quati para evitar que sejam surpreendidos por alguma cobra; infelizmente o animal encontra seu destino pouco depois quando é surpreendido exatamente por uma anaconda. Na verdade, nota-se que a produção encurralou o bichinho para que a filmagem pudesse mostrar a ação do réptil, em uma representação da crueldade de seus realizadores.

No percurso pela mata, encontram dois homens precisando de ajuda: Mike e seu parceiro ferido Joe (Walter Lucchini). Contam uma história sobre a razão de estarem ali, algo que será desmentido posteriormente por Joe, e seguem na jornada, embora Gloria já comece a desconfiar que sua tese não terá a comprovação que busca. Logo Mike mostra a que veio, representando em uma pessoa só os quatro cinegrafistas de Cannibal Holocaust ao causar o terror contra os nativos, seja matando uma mulher e até torturando um outro para saber onde estariam as esmeraldas. A maldade é tamanha que o rapaz chega a arrancar os olhos e a castrar o guia que o ajudou a chegar ao local, além de assassinar a sangue frio um javali (o ator se recusou a fazer isso e foi substituído por um dublê. Curiosamente Lenzi chegou a questionar a ele o que Robert De Niro faria nessa cena; e o consciente Radice disse que “chutaria o seu traseiro de volta à Roma“).

Como se espera – e o mesmo acontece em Cannibal Holocaust -, os nativos irão reagir à violência, mas ampliarão aos demais. Contudo, diferente do filme de Deodato, eles serão mantidos presos durante um tempo, e tentarão arrumar meios de escapar da selva. A filmagem óbvia de Lenzi inclui alguns “pensamentos flashbacks” de Gloria, mostrando que a personagem agora sabe que o canibalismo realmente é uma prática comum, e tendo a chance de questionar sobre os verdadeiros selvagens, devido às ações de um tresloucado Mike.

Além de copiar algumas ideias de Cannibal Holocaust, a sequência final de Cannibal Ferox lembra bastante Emanuelle e os Últimos Canibais, incluindo a própria solução, ainda que não tenha a tentativa de enganar os nativos como fizera a protagonista no filme de Joe D’Amato. Mas o filme de Lenzi é somente isso. Os personagens terão seus destinos traçados em sequências violentas que incluem desmembramentos, castração e a famosa cena de Pat pendurada em ganchos pelos peitos, em um grafismo bastante incômodo. Há outros momentos que tornaram a produção conhecida, como o ataque das piranhas, com a câmera subaquática que Deodato não tinha em Cannibal Holocaust.

E há a tradicional e desnecessária violência contra animais. Aqui nem mesmo os insetos escapam da morte, seja para alimentar um nativo em uma cena gratuita ou na que envolve a borboleta. Corpos abertos, vísceras servindo a tribo e a exposição de cadáveres completam a má fama de Cannibal Ferox. Fama esta que acompanhou a trajetória do cineasta Umberto Lenzi de maneira que mais o incomodou do que trouxe holofotes. Ele queria ser conhecido pelos seus trabalhos mais significativos do que os que pertenceram ao ciclo italiano de canibalismo. Contudo, ao construir uma das produções mais intensas do período, seria natural que seu nome estivesse associado a este filme, além de Mundo Canibal e Vivos Serão Devorados.

Mesmo com suas falhas e tentativas de ser Cannibal Holocaust, Cannibal Ferox tem seus méritos pela contribuição ao subgênero. Fortaleceria o período ao lado de outras obras como Cannibal Apocalypse e Antropophagous, adquirindo um status de cult e produção importante para quem quer conhecer essa época dos filmes sensacionalistas e exagerados que compuseram o cinema exploitation.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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