Poltergeist III: O Capítulo Final (1988)

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Poltergeist III: O Capítulo Final
Original:Poltergeist III
Ano:1988•País:EUA
Direção:Gary Sherman
Roteiro:Gary Sherman, Brian Taggert, Steve Feke
Produção:Barry Bernardi
Elenco:Heather O'Rourke, Tom Skerritt, Nancy Allen, Zelda Rubinstein, Lara Flynn Boyle, Kipley Wentz, Nathan Davis, Joey Garfield, Meg Thalken, Catherine Gatz

Não seria o último filme da franquia. A própria protagonista mirim, Heather O’Rourke, que interpreta Carol Anne, chegou a dizer que estaria em um provável Poltergeist IV, mas sua morte prematura, em fevereiro de 1988, quatro meses antes do lançamento nos cinemas, somado ao fracasso de público e crítica, impediram que uma nova produção fosse desenvolvida. Os produtores não sabiam como lidar com a tragédia, sendo cogitada a possibilidade até de adiamento sem previsão, mas optaram por honrar a pequena e seus familiares, como uma homenagem por seus esforços. Contudo, alimentou teorias de que várias cenas foram regravadas em fevereiro e março, sem que tenha um final adequado – e é essa realmente a impressão transmitida; é bem provável que uma dublê da atriz tenha sido utilizada na última cena, justificando até mesmo o corte abrupto antes dos créditos finais. A maldição de Poltergeist tinha feito sua principal vítima.

Nos anos 90, voltaram a falar sobre um novo filme. Desta vez, seria uma prequel, contando a trajetória do vilão das continuações, o reverendo Henry Kane, e suas ações, que levaram seus seguidores a cometer suicídio no local onde a família Freeling iria morar. Houve também a sugestão de um roteiro escrito por Martin Casella, que interpretou Marty no original (o rapaz que arranca o rosto no espelho), principalmente depois dele ter se iniciado na função com Estranhos na Noite (1995). Porém, esse filme foi tão mal recebido que não somente descartaram essa ideia como praticamente impediram que Casella voltasse a escrever novos roteiros. Por fim, Poltergeist IV voltaria a ser cogitado em outubro de 2005, a partir de um roteiro escrito por Clint Morris, ignorando os eventos do terceiro filme. Poltergeist: Kayeri traria de volta Craig T. Nelson, o pai da família Freeling, estabelecendo o elo com os dois primeiros filmes. Com a MGM sendo adquirida pela Sony, o projeto acabou sendo deixado de lado.

Não se sabe o porquê desse interesse absoluto da MGM pelo fenômeno, mesmo sabendo que nenhuma das continuações seria capaz de repetir o sucesso do original. Em 1989, o estúdio teve interesse em produzir uma série de TV, com 90 episódios, com o valor de US$ 60 milhões. A ideia seria resgatar atores dos três filmes, mostrando que as assombrações não iriam deixá-los em paz ainda que estivessem distantes. Apesar dos intentos, o máximo que a MGM conseguiria dar luz verde seria uma série que apenas usaria o nome, mas sem relação alguma com os longas. Poltergeist: O Legado teve quatro temporadas, entre 1996 e 1999, com 88 episódios.

Observando os problemas de Poltergeist II e III, fica difícil entender essa vontade de dar continuidade à mitologia. O terceiro filme é quase uma produção independente, ainda que tenha a participação de O’Rourke e Zelda Rubinstein, mais uma vez interpretando Tangina. Mas é incrível como a própria sensitiva praticamente foi introduzida no roteiro apenas como um reconhecimento de personagem, já que ela mais uma vez não tem quase nenhuma importância que não seja falar sobre o amor familiar, transmitir informações pela mente (algo como a conversa entre Dick Hallorann e Danny Torrance em O Iluminado) e dar um colar poderoso que recebera do nativo Taylor (Will Sampson, falecido após o segundo filme). Ela ainda teve papel reduzido pelo falecimento da mãe durante as filmagens, o que obrigou o diretor Gary Sherman a filmar todas as suas cenas de uma vez.

Poltegeist III abandona as casas de subúrbio para se ambientar no luxuoso edifício John Hancock Center, em Chicago. Carol Anne (O’Rourke) foi passar uns tempos com a irmã de Diane (JoBeth Williams), Patrícia (Nancy Allen, da franquia Robocop), seu marido Bruce (Tom Skerritt, de Alien, o Oitavo Passageiro), e a prima Donna (Lara Flynn Boyle, de Twin Peaks). Segundo o roteiro de Sherman e Brian Taggert, Carol Anne estaria residindo ali pela proximidade de uma escola para superdotados, enquanto Patrícia acredita que a família apenas queria se livrar da pequena, sem ter conhecimento do passado de fenômenos sobrenaturais. Na verdade, é apenas uma desculpa para compensar a ausência dos atores que não quiseram retornar para seus papéis, o que ocasiona uma falha de conceito, uma vez que Tangina havia dito que a união familiar era importante para afastar o Mal absoluto.

Acompanhada por um psicólogo, Dr. Seaton (Richard Fire), que acredita que tudo o que aconteceu foi devido ao poder de convencimento da pequena – algo como um delírio hipnótico -, Carol Anne logo começa a perceber que Kane (Nathan Davis substituindo o falecido Julian Beck) a encontrou, aparecendo em reflexos dos vidros e espelhos, tanto os dos corredores quanto do elevador. Kane tenta utilizar o recurso para atrair a garotinha, ajudada mentalmente por Tangina (“quebre o espelho“, leia com a voz de Zelda), enquanto reproduz nos reflexos ações independentes de suas contrapartes, em efeitos interessantes. Donna é convencida por Carol a se encontrar com os amigos para curtir a piscina do hotel, mas testemunha pelos monitores de vídeo a pequena sendo atraída para o estacionamento.

É ali, em uma poça, que Carol Anne será puxada por mãos demoníacas para o Outro Lado, juntamente com Donna e seu namorado Scott (Kipley Wentz), enquanto Tangina irá de voo até o local para tentar impedir mais uma vez as ações da entidade. Sabe-se lá como ela conseguirá chegar ao apartamento, sem precisar se identificar na portaria. A partir dos reflexos é que se percebe o quanto o enredo se espelhou (sem trocadilhos) na obra “Alice Através do Espelho“, de Lewis Carroll, ao mostrar o ambiente como uma dimensão paralela. Donna e Scott retornam de sua experiência como entidades malignas, ocasionando, inclusive, a morte de um personagem importante. Aliás, esse é o primeiro filme da franquia onde personagens morrem devido às assombrações; no segundo filme, apenas a avó falece de causas naturais.

Sem esqueletos reais desta vez, as curiosidades que envolvem a produção se baseiam em versões alternativas e na pós-produção. No começo de 1988, os realizadores resolveram refilmar algumas sequências que não estavam muito boas, incluindo uma alteração no final. Segundo as trívias, a morte de Heather O’Rourke impediu que a ideia fosse realizada – e, convenhamos, seria muito melhor do que a que foi disponibilizada. Nele, Patrícia entraria “no outro lado” e encontraria Carol Anne, Donna, Scott, Bruce e Tangina congelados. Ela começaria a ficar também, enquanto Kane apareceria para pegar o colar. Declarando seu amor à família, o que contraria boa parte de suas ações no filme, ela libertaria Tangina, que iria propor ao vilão sua condução à Luz. Ao tocar no colar, Kane iria ter o rosto rachado e explodiria, libertando todos e matando Tangina, enquanto provoca uma forte tempestade no edifício. Na cena final, Carol Anne veria o reflexo de Tangina sorridente no espelho, acenaria e derramaria uma lágrima.

O final que foi gravado não agradou ao público. Com uma bilheteria pouco acima dos U$14 milhões, para um filme que custou dez, Poltergeist III foi detonado pela crítica. Seus envolvidos nem sequer podiam dar entrevistas para comentar o lançamento pois acabariam esbarrando em perguntas sobre Heather O’Rourke. Assim, não houve um grande investimento na divulgação, como acontecera com os outros, para não transmitir uma ideia oportunista. Contudo, o tal interesse em fazer mais um rondou o estúdio por décadas até o lançamento da refilmagem em 2015, dirigida por Gil Kenan. Também não conquistou os méritos do original, mostrando mais uma vez a força da maldição Poltergeist.

É difícil realmente defender O Capítulo Final. Talvez poderia funcionar como uma assumida produção independente, sem referências ao universo desenvolvido em 1982, mas tem uma graciosa Heather O’Rourke com o rosto inchado e a volta da médium e do vilão Henry Kane. As assombrações – da TV, do telefone de brinquedo e dos espelhos – se despediram em um melodrama que não empolga, não assusta, nem impressiona. Serve apenas como curiosidade para acompanhar o último filme de uma atriz com muito potencial para a fama, mas que partiu docemente para o Outro Lado para finalmente auxiliar as almas perdidas a encontrar a Luz.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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