Terror no Pântano (2006)

4.9
(7)

Terror no Pântano
Original:Hatchet
Ano:2006•País:EUA
Direção:Adam Green
Roteiro:Adam Green
Produção:Scott Altomare, Sarah Elbert, Cory Neal
Elenco:Joel David Moore, Amara Zaragoza, Deon Richmond, Kane Hodder, Mercedes McNab, Parry Shen, Joel Murray, Joleigh Fiore, Robert Englund, Joshua Leonard, Tony Todd

Pai e filho pescadores estão em um pântano de Nova Orleans à procura de crocodilos, quando desaparecem misteriosamente. Pouco tempo depois, durante a celebração do Mardi Gras, alguns turistas resolvem participar de uma duvidosa excursão noturna por uma região pantanosa com fama de mal assombrada. Fazem parte deste grupo os amigos Ben e Marcus, Misty e Jenna (duas atrizes de filmes eróticos), o pseudo-diretor-de-cinema-tá-na-cara-que-é-picareta Doug Shapiro, um típico casal de idosos americanos e a calada Marybeth, uma jovem que conhece a história apavorante que afasta os moradores supersticiosos daquele local. Ela também tem um objetivo diferente dos demais: encontrar o pai e irmão que estão sumidos há alguns dias.

Um inexperiente (e enfadonho) guia conduz os turistas pelo terreno alagado, mostrando o que sobrou de algumas construções antigas, entre elas a casa onde viveu Victor Crowley, um jovem que nasceu com graves deformações físicas e teria morrido tragicamente. Em meio a narrativas de horror nada convincentes, o barco em que estão se choca em uma pedra e começa a afundar, obrigando-os a descer até a margem e continuar a pé. Perdidos, em meio à escuridão, eles se veem obrigados a passar próximos à velha casa dos Crowley. Dizem os boatos que é possível ouvir, durante a noite, o assustador choro do filho chamando pelo pai. Mas a ameaça é muito mais real do que qualquer um deles jamais poderia imaginar. E escapar da carnificina que está por vir será quase impossível.

Terror no Pântano (ou Hatchet no original; algo como Machadinha, na tradução literal) é um slasher escrito e dirigido pelo americano Adam Green – um fã assumido deste subgênero oitentista que tanto sucesso fez na saudosa época das vídeo-locadoras. Embora o roteiro de Hatchet seja pra lá de despretensioso, a história por trás de sua concepção é um pouco mais extensa. Tudo começou com o vilão Victor Crowley: Green teria criado o personagem quando tinha apenas 8 anos e tentava assustar outras crianças em um acampamento de verão. Segundo a biografia oficial do cineasta, ele escreveria duas décadas depois a primeira versão do roteiro enquanto ouvia discos de heavy metal. Aliás, Green chegou a ter sua própria banda, chamada Haddonfield (que conta com pelo menos um disco lançado, Ghosts of Salem, de 2017). Voltando ao filme em questão, ele foi rodado em 2005 e estreou oficialmente no Festival de Tribeca de 2006 – mesmo ano em que Green cruzaria o continente, de festival em festival, divulgando a produção. A recepção acolhedora do público e da crítica especializada garantiu que a obra fosse distribuída no ano seguinte pela Anchor Bay, ainda que o gore excessivo e a profusão descontrolada de sangue tenha chamado a atenção da MPAA, que atribuiu ao filme a classificação máxima (R – Restricted), ou seja, o longa-metragem foi proibido para menores de 17 anos desacompanhados dos pais ou de um tutor legal. Um marketing sempre positivo para o gênero, porém um fator que acaba limitando bastante a quantidade de público nos cinemas.

Vale reforçar que a espontaneidade e simplicidade da trama – uma das características mais relevantes de Hatchet, atributo positivo ou negativo, dependendo do ponto de vista – segue à risca a fórmula dos slashers clássicos, como Sexta-Feira 13 (1980). Em síntese, o enredo apenas reproduz a velha narrativa sobre jovens não muito inteligentes tomando decisões absurdas e caçados por um assassino imortal deformadoo cenário, uma floresta no meio do nada, é claro.

Contudo, mais do que inspiração e influência, Terror no Pântano é, evidentemente, um pequeno tributo ao subgênero slasher, principalmente por trazer em participações rápidas astros veteranos e icônicos como Tony Todd (O Mistério de Candyman, 1992) e Robert Englund (A Hora do Pesadelo, 1984); além do grandalhão Kane Hodder (ator que viveu Jason Voorhess nos últimos filmes da célebre e longeva franquia Sexta-Feira 13) como o antagonista Victor Crowley. O próprio ato final revela-se um nada discreto tributo ao clássico slasher quando reconstrói a famosa cena do último susto em Crystal Lake. Aliás, o frame que encerra esta sequência deve incomodar alguns espectadores pelo corte seco e inesperado, escondendo o destino de um dos personagens principais. Entretanto, a continuação lançada 4 anos depois (Terror no Pântano 2, 2010) iniciaria exatamente onde terminou o anterior, revelando finalmente o que teria ocorrido.

Outro ponto positivo para os entusiastas do gênero é a carnificina desmedida: são decapitações, dilacerações, desmembramentos, intestinos arrancados e delicadezas de gosto duvidoso que devem agradar o fã hardcore, ainda mais considerando que os realizadores deixam de lado os controversos efeitos digitais e utilizam somente procedimentos mecânicos e práticos. Contudo, os excessos deste banho de sangue tornam o gore menos realista, conferindo à produção uma tonalidade mais pastiche. Complementando a violência gráfica e explícita, uma referência direta à década de 80 é a exploração/exposição dos nus femininos, ou seja, cenas em que belas jovens exibem gratuitamente os seios se repetem indiscriminadamente durante a primeira metade do filme.

O elenco principal (além das participações já citadas) conta com  Joel David Moore (de Avatar, 2009) como Ben, Amara Zaragoza (de Gossip Girl, 2008) interpretando a final girl Marybeth Dunstan e Deon Richmond (de Pânico 3, 2000) como Marcus.

Victor Crowley – afinal quem é o vilão?

Reza a lenda que, portador de uma doença incomum que causa enormes deformidades no rosto, Victor cresceu sendo perseguido por outras crianças. Para protegê-lo, seu pai costumava trancá-lo dentro da cabana em que viviam no pântano. Certo dia, alguns adolescentes dispararam fogos de artifício em direção ao local, iniciando um incêndio. Desesperado para salvar o filho, o pai tenta arrombar a porta da casa em chamas com uma machadinha, mas acaba acertando fatalmente Victor. Tempos mais tarde, a situação trágica parece se repetir continuamente no pântano amaldiçoado, onde uma criatura desconhecida ataca todos aqueles que cruzam seu caminho.

A aparência do vilão, segundo Adam Green, foi inspirada em Roy L. Dennis, um garoto que sofria de um distúrbio ósseo, cuja história foi adaptada em Marcas do Destino (1985), e também em Joseph Merrick, retratado no cinema em O Homem Elefante (1980). O design do personagem igualmente se assemelha ao Jason mostrado no pesadelo final do primeiro longa da série Sexta-Feira 13. O nome Victor Crowley provavelmente é a junção entre o conhecido cientista criado por Mary Shelley, Victor Frankenstein, e Aleister Crowley (o ocultista imortalizado por Ozzy Osbourne).

A mitologia em torno do personagem é ampliada em três continuações, lançadas em 2010, 2013 e 2017. Terror no Pântano 2 e 4 foram escritos e dirigidos por Green, enquanto a terceira parte foi dirigida por BJ McDonnell (de Terror no Estúdio 666, o filme de horror roteirizado por David Grohl e interpretado pelo Foo Fighters em 2022). Aliás, o quarto capítulo, conhecido internacionalmente como Victor Crowley, foi rodado para comemorar os 10 anos da série; junto com seu lançamento foram realizados vários eventos, incluindo a publicação de uma revista em quadrinhos chamada Adam Green’s Hatchet que, pasmem, derivou outros títulos e sobrevive até hoje.

Enfim, apesar da trama ser uma homenagem relativamente previsível, Terror no Pântano resgata com disposição o gênero slasher tradicional. O longa ainda diverte como um retorno rápido e direto ao básico e a simplicidade do gênero, sem pretensões de reinventar o cinema, apresentar metáforas engenhosas ou reviravoltas inovadoras. Apenas o horror cru, e com uma boa dose de humor.

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João Pires Neto

Apenas mais um rapaz latino americano vindo do interior. Ateu não praticante, vegetariano, viciado em Literatura, Rock and Roll e Cinema. Antifascista, antiespecista, feminista e pai de uma menina linda, de 3 cachorros e 1 gata preta. Formado em Letras e Literatura. Colaborador desde 2005.

3 thoughts on “Terror no Pântano (2006)

  • 05/08/2022 em 03:52
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    Ótima crítica! Lembro de ter visto há vários anos uma outra análise bem completa desse filme aqui no site. Com muito detalhes dos bastidores, inclusive com uma foto do cadáver do personagem de Englund que me assustou muito na época (eu estava na tenra adolescência e esse filme me marcou muito). Realmente morri de medo do Victor Crowley quando o vi pela primeira vez, hoje considero esse filme um gore trash perfeito. É uma pena que aquela análise super interessante foi excluída do site (ou talvez seja uma falsa memória minha).

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  • 26/07/2022 em 11:02
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    Este é mais um da leva de filmes que eu esperava ansiosamente a análise aqui no Boca.
    Terror no pântano é sem dúvidas um belo tributo aos slashers oitentistas, tanto quanto a liberdade criativa de um fã de boas e velhas trasheiras. Filme simples e trama batida, ainda que bem executada no que se propõe. Vilão até de certo modo autêntico, mortes criativas (algumas são tributos) e bizarras, mutilações, nudez e gore excessivo, além de diálogos arbitrários e escolhas questionáveis de roteiro e personagens. Tudo que um fã do gênero muito provavelmente vai se identificar. Apesar do filme ter produzido três (lamentáveis) continuações (por que? Nunca saberemos!) esta e com com ressalvas (muitas) a parte 2 são as melhores. Com certeza é a típica bagaceira que me agrada. Nota 💀💀💀💀
    Ótima análise !! Valeu, Boca do Inferno!

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