Blasphemous (2019)

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Blasphemous
Original:Blasphemous
Ano:2019•País:Espanha
Desenvolvedora:The Game Kitchen•Distribuidora: Team17

No universo dos games, e basicamente na cultura pop em geral, a criação de mundos imaginários baseados em mitologias de religiões mortas não é uma novidade. Lendas e mitos gregos, nórdicos, egípcios e tantos outros já foram explorados aos montes, mas quando o assunto é a mitologia do cristianismo, o terreno é sempre um pisar em ovos. Quando se trata de usar essa mitologia cristã justamente num jogo de terror, então temos aqui uma baita ousadia. E só de apostar nesse caminho, Blasphemous se torna justamente uma obra que merece de imediato nossa atenção.

Produzido pelo estúdio espanhol The Game Kitchen de forma independente, Blasphemous é um jogo de ação em plataformas 2D que apresenta um incrível equilíbrio em tudo que se propõe, com gameplay, história, visual e trilha sonora impecáveis, mas se destacando mesmo em sua atmosfera gótica e um desafio grandioso para se chegar ao final num game repleto de violência e brutalidade.

No enredo, o Penitente Silencioso acorda como o último de sua irmandade e começa a caminhar pelo reino Cvstodia, um lugar extremamente religioso que mergulhou em graças e bênçãos após o evento da chegada do Milagre, que pouco tempo depois também revelou um lado de punição e corrupção, transformando a dor das pessoas em criaturas ou prisões que precisam encontrar a salvação, não importa quanta fé elas tenham mantido, ou perdido.

Assim, o Penitente sai em sua missão, precisando achar as Três Humilhações, que darão acesso à Mãe de Todas as Igrejas para conseguir encarar de frente aquele que mantém o Milagre em maldição e destruir de uma vez por todas seu ciclo de devastação no reino.

Ainda que apostando em um visual estilo pixelart, Blasphemous usa de forma graciosa toda a iconografia da mitologia católica para ser o palco de sua carnificina. Praticamente todos os ambientes são baseados na arte gótica da Idade Média, principalmente no design das catedrais em estilo gótico da Europa. Sem medo de ousar, o jogo aposta em imagens fortes, que, mesmo não sendo apelativas em nenhum momento, conseguem nos impactar e até mesmo nos aterrorizar.

E embora em sua jogabilidade Blasphemous se venda como um metroidvania, a verdade é que temos aqui bem mais de Castlevania do que de Metroid. Se você não ousar platinar o jogo, o vai e volta em cenários não será nem mesmo tão obrigatório assim, mas para acessar o final verdadeiro do game, será necessário refazer a jornada pelo menos um punhado de vezes, o que dá uma vida maior ao jogo, já que ele está repleto de segredos, alguns inimagináveis, daqueles que exigem um manual do lado para saber realmente como interpretar ou cumprir.

Quanto ao seu gameplay, é aqui que o jogo mais brilha. Misturando combate de ação com a exploração dos cenários para a abertura de habilidades, a luta exige reflexos certeiros para desviar de golpes e acertar corretamente as aberturas enquanto você usa a espada sagrada Mea Culpa, criada a partir dos próprios sentimentos do Penitente. Some isso a um número quase incontável na variedade de inimigos, uma brutalidade que dá gosto e lutas de chefes simplesmente maravilhosas, que no geral são os pontos mais aterrorizantes da trama, com visuais impecáveis, que ficarão marcados facilmente na memória dos jogadores. Tudo isso junto a um game que embora tenha lá seus ares de soulslike, não é exageradamente difícil. Pelo contrário, ele é balanceado e bastante recompensador.

A jornada e sua capacidade de desvendar segredos e encontrar lugares escondidos será o que deixará o Penitente mais poderoso. Relíquias, Contas de Rosário, Orações e Corações de Espada para nos deixar mais poderosos e desbloquear novas habilidade e recursos para a Mea Culpa estão por todo o caminho, enfiados em todos os buracos e juntos a uma quantidade enorme de NPCs, cada um com uma história mais interessante que a outra.

E não podemos deixar de valorizar o quão boa é a trilha sonora desse jogo junto a uma dublagem original em espanhol simplesmente espetacular, repleta de sotaques carregados e vozes imponentes.

Ainda assim, o jogo possui o sério problema de não ser nada intuitivo em muitos momentos ou ações importantes, principalmente quando você precisa de habilidades específicas para alcançar certos pontos, como as plataformas de sangue, além da resolução de puzzles cujas soluções só estão em fóruns obscuros no Reddit.

Com sua atmosfera tão sombria e melancólica, num enredo que não é contado de forma fácil e que dá um leque de interpretações ao invés de respostas definitivas, Blasphemous é um daqueles acontecimentos no mundo dos games que não reinventa nada, mas faz quase tudo que se propõe com grande competência de maneira viciante.

Blasphemous está disponível para Nintendo Switch, PlayStation 4, Xbox One e PC.

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Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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