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O Estigma de Satanás
Original:The Blood on Satan's Claw
Ano:1971•País:UK
Direção:Piers Haggard
Roteiro:Robert Wynne-Simmons e Piers Haggard
Produção:Peter L. Andrews, Malcolm Heyworth, Tony Tenser
Elenco:Patrick Wymark, Linda Hayden, Barry Andrews, Michele Dotrice, Wendy Padbury, Anthony Ainley, Charlotte Mitchell, Tamara Ustinov, Simon Williams, James Hayter, Howard Goorney, Avice Landone, Robin Davies

O hoje célebre folk horror, embora tenha se difundido e renovado após o sucesso do longa-metragem A Bruxa (2015), de Robert Eggers, não é exatamente um subgênero novo. Também conhecido como terror rural ou folclórico, é uma vertente do cinema de horror na qual os enredos exploram temas muito específicos, normalmente derivados de superstições religiosas ou crenças populares, nos quais bruxaria, rituais e satanismo são frequentemente abordados, algumas vezes de maneira direta e realista, outras mais simbólicas. São tramas que se desenvolvem em cenários isolados, como pequenos vilarejos cercados por florestas; é comum que a natureza tenha um papel importante como um espaço sagrado e intimidador.

Historicamente, o documentário dinamarquês Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos (1922) pode ser considerado o precursor mais antigo do folk horror, por apresentar muitos dos elementos que viriam a ser utilizados pelo gênero. Contudo, foi apenas em 1970 que o crítico Rod Cooper utilizou pela primeira vez o termo, se referindo ao longa O Estigma de Satanás, em um artigo publicado na revista britânica Kine Weekly.

Dirigido pelo cineasta londrino Piers Haggard (experiente em filmes e séries para a televisão, mais conhecido por ter compartilhado com Tobe Hooper a direção de Terror Dentro da Noite, em 1981 – na verdade, Hooper teria abandonado a produção por diferenças criativas, e Haggard finalizado as filmagens), O Estigma de Satanás (Blood on Satan’s Claw aka Satan’s Skin, em uma tradução literal Sangue na Garra de Satanás) é um longa-metragem tão intrigante quanto problemático, principalmente apreciado à luz do moral e eticamente apropriado para os dias de hoje, passado quatro décadas de mudanças em como enxergamos e interpretamos o mundo.

No roteiro original de Robert Wynne-Simmons (posteriormente romanceado pelo próprio Simmons, publicado como Blood on Satan’s Claw: or, The Devil’s Skin, em 2022), os moradores de uma pequena comunidade localizada no interior da Inglaterra do século XVIII são aterrorizados pelo comportamento incomum dos adolescentes e crianças, após um agricultor encontrar uma ossada desconhecida, logo vinculada a uma criatura demoníaca.

Apesar do roteiro apresentar algumas inconsistências, nenhuma delas fere gravemente a lógica estabelecida e o entendimento da história como um todo não são comprometidos, ainda que exija da audiência alguma participação para preencher adequadamente tais lacunas. A causa desta irregularidade narrativa pode ser associada ao fato de que o roteiro foi pensado no início como uma antologia composta por três histórias de horror ambientadas na Era Vitoriana, levemente relacionadas. Somente com a chegada de Piers Haggard o texto foi reescrito (com a ajuda do diretor) como uma trama única, e o cenário alterado para uma pequena vila do século XVIII.

Contudo, o que deveria de fato incomodar o espectador são algumas sequências eventualmente questionáveis. Numa delas, Angel Blake (interpretada pela atriz Linda Hayden, na época com apenas 17 anos, ou seja, menor de idade) tenta seduzir o reverendo local em uma cena de nu frontal dificilmente vista em produções mais atuais, mesmo nas do gênero horror. O padre não cede, mas é acusado por ela de violentá-la, o que o leva à prisão. É mais controverso quando pensamos que a personagem Angel (cujo nome é uma referência direta a inocência e castidade) seria ainda mais jovem, provavelmente uma adolescente (no filme ela e seus amigos são chamados de crianças o tempo todo). Em outra cena igualmente desconcertante, é mostrado um estupro seguido de assassinato. O detalhe é que, enquanto o crime é cometido, outros adolescentes, sexualmente excitados, assistem tranquilamente à cena. É importante considerar que a exploração da sexualidade no longa é, inegavelmente, um tanto misógina (comportamento comum em vários filmes do gênero até hoje, devemos reconhecer), seja pela clara objetificação do corpo feminino ou pela demonização das mulheres (justificada até certo ponto, já que a trama narra um horror inspirado em premissas religiosas nas quais, infelizmente, a mulher é de fato retratada desta maneira).

Da mesma forma é preciso contextualizar o momento histórico e artístico em que O Estigma de Satanás foi idealizado, ou seja, os anos iniciais da década de 70. Passado o período em que os estúdios Amicus e Hammer exploravam os monstros clássicos do cinema e da literatura (os mais famosos, Drácula e Frankenstein), uma nova tendência tinha início, sobretudo após o sucesso de O Bebê de Rosemary (1968). Apesar da temática satânica (muito in voga na época, devido ao movimento contracultural que se opunha ao status quo da sociedade), a abordagem agora era mais realista e os cineastas começavam a “abusar” do sexo e da violência, chocando e atraindo cada vez mais o público. É neste cenário que os realizadores pensaram em O Estigma de Satanás, aproveitando o momento para produzir um horror de baixo orçamento, que explorasse os movimentos culturais de então e aproveitasse a tradição do cinema de horror britânico.

O elenco, apesar de não trazer os medalhões da época (Christopher Lee, Vincent Price e Peter Cushing), é formado por uma equilibrada mistura entre atores mais experientes e novatos. Destacam-se Patrick Wymark (de O Caçador de Bruxas, 1968, em um de seus últimos papeis, antes de seu falecimento) interpretando o rigoroso Juiz Richard Harrison, representante de um certo racionalismo (mesmo que aos poucos ele ceda aos eventos incomuns que contrapõem a fé e a razão); a jovem Linda Hayden (de Os Meninos do Brasil, 1978), em um de seus primeiros papeis nos cinemas, como Angel Blake, uma adolescente que emana uma incômoda sensualidade; Barry Andrews (Drácula, o Perfil do Diabo, 1968) vive Ralph Gower, um fazendeiro simples que descobre os restos da suposta criatura que desencadeia os acontecimentos inesperados que afligem o vilarejo; e Anthony Ainley (A Terra que o Tempo Esqueceu, 1974) como o Reverendo Fallowfield, o clérigo falsamente acusado de crime sexual. No geral, a atuação de todo o elenco funciona razoavelmente bem, intensificando o efeito desconfortável proposto pelo roteiro.

Já em relação à fotografia de Dick Bush (de Fase IV: Destruição, 1974), apesar do belo cenário no qual a natureza tem uma função não apenas de isolar e sufocar os personagens, mas também atribuir certo deslocamento espaço-temporal, o excesso de claridade pode incomodar o espectador mais acostumado às fotografias do cinema contemporâneo, quase sempre escuras e apoiadas em cores onde um único tom predomina.

Retomando o tema do folk horror, a maioria dos críticos considera O Estigma de Satanás como parte de uma trilogia setentista do subgênero (embora os longas não tenham de fato relação), aà qual soma-se O Caçador de Bruxas (1968), de Michael ReevesO Homem de Palha (1973), de Robin Hardy. Já nos dias atuais, vale lembrar que o catálogo da cultuadíssima produtora A24 está recheado de horrores folclóricos, como o já comentado A Bruxa (2015), Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019) e Lamb (2021).

A qualidade técnica é bem aceitável, principalmente tendo em conta que O Estigma de Satanás é uma produção de recursos limitados, cujo orçamento aproximado foi de apenas 100 mil dólares. Para compararmos os valores, a citada produção americana O Bebê de Rosemary, que também é considerada uma obra de baixo orçamento, custou mais de 3 milhões de dólares aos cofres dos estúdios Paramount.

As filmagens de O Estigma de Satanás ocorreram em menos de 2 meses durante a primavera de 1970 no interior da Inglaterra. A produção foi da Tigon British Film Productions, estúdio que seguia os caminhos já trilhados pela Hammer e Amicus, e se dedicava às produções de horror. Em seu catálogo, além de O Estigma de Satanás, destaca-se O Caçador de Bruxas (1968) e Essência da Maldade (1973).

Complementando, em respeito às locações, merece ser lembrado que a catedral em ruínas que aparece no filme é a igreja abandonada de Saint James, em Bix Bottom, que já apareceu em outras produções de horror, como A Face do Demônio, de 1966. Segundo estudiosos, a construção religiosa, que remonta a 1875, se tornou um local de peregrinação para entusiastas de bruxaria e paganismo a partir de 1925, quando foi descoberto por figuras eminentes do ocultismo moderno.

O Estigma de Satanás foi distribuído nos Estados Unidos pela Cannon Films e estreou um ano após as filmagens, em 16 de abril de 1971. Três meses depois entrou em cartaz em Londres, sua terra natal. Por razões obvias já citadas, as cenas de maior violência foram cortadas e o controverso nu frontal feminino foi distorcido e escurecido. O longa ficou pouquíssimo tempo em cartaz, em ambos os países em que havia estreado, apesar das críticas não serem exatamente negativas. Por sua violência e temática satânica envolvendo crianças, o filme também permaneceu por muito tempo banido em diversos países, como Portugal, por exemplo, onde sua exibição não era autorizada até meados da década de 80.

Para os interessados, é possível encontrar em lojas especializadas da internet um box da Anchor Bay, chamado The Tigon Collection, lançado em 2005, contendo O Estigma de Satanás e outras 5 produções dos estúdios Tigon. Mais recentemente, uma edição especialíssima em blu-ray, limitada a 4.000 unidades e restaurada em 4K, aprovada pelo próprio diretor Piers Haggard e com vários extras foi lançada na Europa. Para o público brasileiro, o filme está disponível na plataforma Darkflix, enquanto esta crítica é escrita. Embora esgotado em seu site oficial, a Versátil Home Video lançou o filme como parte do box Obras-primas do Terror Vol. 10, um pacote que contém mais 5 filmes essenciais sobre a temática ocultista: As Bodas de Satã (1968), Uma Filha Para o Diabo (1976), Alucarda, A Filha das Trevas (1977), A Sentinela dos Malditos (1977) e A Chuva do Diabo (1975).

Resumindo, o intrigante e provocador O Estigma de Satanás é indispensável para aqueles infernautas que apreciam obras que, mesmo pouco conhecidas do público em geral, terminaram influenciando o gênero e sendo cultuadas com o passar dos anos.

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