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A Chuva do Diabo
Original:The Devil's Rain
Ano:1975•País:EUA, México
Direção:Robert Fuest
Roteiro:Gabe Essoe, James Ashton e Gerald Hopman
Produção:Michael S. Glick, Gerald Hopman, Sandy Howard e Louis Peraino
Elenco:Ernest Borgnine, Eddie Albert, Ida Lupino, William Shatner, Keenan Wynn, Tom Skerritt, John Travolta

Nunca se teve tanto medo e admiração pelo diabo como nos anos 70. Talvez uma herança da contracultura hippie ou simplesmente pela influência do sucesso literário de William Peter Blatty, com seu best seller O Exorcista (1971) e sua posterior adaptação para os cinemas.

Entretanto, para além das Profecias e dos Exorcismos mais famosos, o gênero horror explorou significativamente a tendência e o interesse do público (não apenas o americano) por temáticas ocultistas, concebendo diversas produções menos conhecidas, mas relevantes, como Os Demônios (1971), de Ken Russel, o britânico O Homem de Palha (1973), dirigido por Robin Hardy e estrelado por Christopher Lee, e a produção italiana O Anticristo (1974), de Alberto De Martino.

É dentro desta leva de produções obscuras que se encontra The Devil’s Rain (A Chuva do Diabo, no Brasil), co-produção entre México e Estados Unidos dirigida pelo cineasta inglês Robert Fuest (que 3 anos antes conduziu o maravilhoso O Abominável Dr. Phibes, em 1971). Além de um diretor experiente, o longa também apresentava um elenco muito atrativo, contando com William Shatner (o imortal Capitão Kirk, da série clássica Jornada nas Estrelas), o veterano Ernest Borgnine (busquem na memória o personagem Dominic Santini na saudosa série Águia de Fogo, 1984), Tom Skerritt (o capitão da Nostromo em Alien – O Oitavo Passageiro, de 1979) e uma participação relâmpago do futuro astro John Travolta.

Os créditos iniciais destacam outros nomes importantes, como, por exemplo, a consultoria do americano Anton LaVey, o conhecido ocultista fundador da controversa Igreja de Satanás. A abertura igualmente evidencia que as imagens utilizadas como fundo são gravuras do genial e enigmático Hieronymus Bosch, que nos séculos XV e XVI se consolidou como especialista em pinturas fantásticas e realistas que remetiam a temas religiosos, em especial ao próprio inferno.

O roteiro é escrito a três mãos por Gabe Essoe, James Ashton e Gerald Hopman, que, além de explorar o satanismo, é influenciado por outro tema muito in voga na época: as seitas religiosas como a Família Manson ou o Templo do Povo de Jim Jones – todos aqui sabem em que tamanha tragédia terminam estas histórias.

No entanto, a receita inquestionável que somava a consultoria de um especialista renomado em ocultismo e ícone da contracultura americana, a inspiração de um artista precursor do surrealismo com um diretor experiente e elenco conhecido, não funcionou exatamente como os produtores esperavam. E mesmo que o longa tenha seu charme hoje, visto quase 5 décadas depois de sua estreia nas salas de cinema, a trama mal costurada e confusa impede que o espectador tenha de fato uma boa experiência.

No enredo, Corbis, o vilão interpretado por Ernest Borgnine é o líder de um culto satanista que, no passado, foi queimado em uma fogueira por religiosos cristãos e moradores locais. Enquanto morria, ele prometeu voltar e caçar aqueles que o traíram. Na atualidade, a família Preston (William Shatner e Tom Skerritt, nos papéis dos filhos) protege um livro amaldiçoado que contém a assinatura dos seguidores da seita de Corbis, cujas almas foram negociadas com o diabo. O líder ocultista retorna dos mortos para reconstruir sua igreja blasfema, converter os inimigos em mortos-vivos sem olhos, recuperar o livro – e ainda de quebra encarnar literalmente o príncipe do inferno.

Outros detalhes pontuais se destacam positivamente, como a influência visual dos filmes de faroeste nos cenários (o desértico Novo México com construções de madeira abandonadas, como em um filme de Sergio Leone) e na fotografia avermelhada em parte do filme quando a ideia da chuva é abandonada, remetendo a uma espécie de inferno queimando a todo momento.

Há uma cena bem curiosa em A Chuva do Diabo para os amantes do cinema de horror. A face dos zumbis cegos que derretem nada mais é do que uma máscara plástica que reproduz o rosto do ator sem os olhos, o que resulta em um efeito, digamos, incomum (no sentido positivo). Então eis que Willian Shatner é transformado em um destes mortos-vivos, ou seja, anos antes de Halloween (1978), uma prévia da máscara de Michael Myers era mostrada para o mundo. Para quem não sabe, a máscara do icônico personagem criado por John Carpenter seria uma do Capitão Kirk, com algumas poucas mudanças.

Ainda em relação aos efeitos especiais (todos práticos, nada de CGI, lembrando que estamos em 1975), chama alguma atenção o derretimento das criaturas, como se fossem feitas de cera. A maquiagem tem algum destaque (positivo, ou nem tanto, avaliem vocês pela foto), na transformação de Corbis no próprio Satanás. Inegável é o péssimo conceito da esfera de cristal que aprisiona as almas vendidas para o diabo; como se fosse um aparelho televisor onde é possível assistir as lembranças destas almas; uma construção um tanto pobre e cafona visualmente.

Contudo, vale reforçar que os principais pontos negativos são o roteiro e a edição, principalmente em sequências próximas ao desfecho, quando minutos intermináveis e caóticos transformam uma trama razoavelmente simples em algo confuso e enfadonho. Aparentemente os produtores tinham uma proposta e um elenco, uma boa ideia a ser explorada, porém não tinham um roteiro muito bem definido (ou bem escrito), o que resultou na inevitável desordem que é A Chuva do Diabo.

Para o leitor curioso que pretende conferir esta interessante (quando considerados o contexto e os detalhes da produção) e bizarra obra cinematográfica, A Chuva do Diabo está atualmente disponível na plataforma de streaming Looke e foi também lançada em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em um imperdível box (Obras-Primas do Terror Volume 10), contendo outros 5 longas-metragens cujo enredo envolve ocultismo e satanismo: As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, 1968), Uma Filha para o Diabo (To the Devil a Daughter, 1976), Alucarda – A Filha das Trevas (Alucarda – La Hija de las Tinieblas, 1977), A Sentinela dos Malditos (The Sentinel, 1977) e O Estigma de Satanás (The Blood on Satan’s Claw, 1971).

Em resumo, A Chuva do Diabo é um produto que reflete, de alguma maneira, a característica espiritual mais desgovernada da contracultura setentista americana. O longa-metragem se destaca por sua estranheza e singularidade, que tenta ainda misturar ficção e realidade com as diversas referências reais ao ocultismo, em uma proposta ousada, mas que no fim das contas não entrega um bom filme. No entanto, é um trabalho que merece ser conhecido, sem sombra de dúvida.

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