
![]() O Pranto do Mal
Original:El llanto
Ano:2024•País:Espanha, Argentina, França Direção:Pedro Martín-Calero Roteiro:Isabel Peña, Pedro Martín-Calero Produção:Eduardo Villanueva, Nacho Lavilla, Fernanda del Nido, Cristina Zumárraga, Pablo E. Bossi, Juan Pablo Miller, Jerôme Vidal Elenco:Ester Expósito, Mathilde Ollivier, Malena Villa, Àlex Monner, Sonia Almarcha, Tomás del Estal |

Andrea (Ester Expósito), uma jovem universitária que vive em Madri, está passando por um momento delicado em sua vida: ao mesmo tempo em que lida com um relacionamento a distância com seu namorado Pau (Àlex Monner), ela começa a descobrir mais sobre sua mãe biológica, que lhe entregou para adoção. Em meio a tudo isso, um fantasmagórico lamento que parece cercá-la, um edifício misterioso e uma perigosa figura masculina que pode ser vista somente através de telas de celulares e computadores estabelecem uma conexão entre Andrea e outras duas garotas (Mathilde Ollivier e Malena Villa) numa época e num lugar diferentes, a Argentina dos anos 1990.
Mais um belo exemplar do sempre interessante terror latino – no caso, uma coprodução Espanha, Argentina e França -, O Pranto do Mal (El llanto, 2024) parece ter passado criminosamente despercebido pelo público. Talvez até tenha ocupado por algum momento o ranking de filmes mais assistidos quando entrou no catálogo da HBO Max, mas, na minha opinião, merecia muito mais reconhecimento, seja pela direção competente e sensível do estreante em longas-metragens Pedro Martín-Calero, pelo roteiro surpreendente, assinado por Martín-Calero junto com Isabel Peña (que recebeu destaque em 2022 por As Bestas), pela fotografia de Constanza Sandoval (que faz bom uso das locações e consegue pontuar com sutileza as diferenças entre décadas) e pelos temas que aborda.

Por meio do uso de travellings que rodeiam Andrea (vivida pela mesma Expósito de outro ótimo terror espanhol, Vênus, 2022), o diretor cria a sensação de uma personagem sendo seguida e cercada, não apenas por outra pessoa, mas por toda uma situação de violência e medo que aprisiona as mulheres desde sempre, por ciclos de histórias dolorosas que se repetem e que muitas vezes desaparecem em silêncio, por traumas e abusos que atravessam gerações, não importando o local (e, por tudo isso, o título nacional, vítima do preguiçoso e viciado recurso de se ter “do Mal” inserido no nome de qualquer produção de terror, acaba se mostrando bastante equivocado).
Diante desse cenário, o olhar – principalmente o feminino – transforma-se em um mecanismo de defesa. Durante o metalinguístico ato do filme ambientado na década de 1990, aquilo que começa como voyeurismo e obsessão vai se tornando afeto e apoio mútuos, uma percepção da dor alheia. Registrar o que te assombra e compartilhar esse registro é uma maneira de proteger a si mesma e às demais, uma mensagem totalmente em sintonia com um mundo pós-movimento #Me Too.

É possível encontrar em O Pranto do Mal ecos de filmes como Corrente do Mal (It Follows, 2014), Seguinte (Following, 1998), Fantasma (Phantasm, 1979) e até mesmo da obra de Pedro Almodóvar, com seus mergulhos sinceros na alma feminina e as viradas de rumo inesperadas no meio das tramas. Melancólico e pessimista na maior parte de sua duração, terno e doce em alguns preciosos momentos, o longa parece lançar um desafio a um mundo patriarcal cada vez mais em frangalhos: “até quando as mulheres só poderão contar umas com as outras?”.


Infelizmente muita gente nem conhece esse filme do streaming. Acho q se em vez da HBO fosse a Netflix, muita gente saberia de sua existência. Pra mim foi uma boa surpresa do gênero. Tá no meu TOP 10 do gênero de 2024.