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Uma Sobre a Outra
Original:Una sull'altra / A Perversion Story
Ano:1969•País:Itália, França, Espanha
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Lucio Fulci, Roberto Gianviti, José Luis Martínez Mollá
Produção:Edmondo Amati
Elenco:Jean Sorel, Marisa Mell, Elsa Martinelli, Alberto de Mendoza, John Ireland, Riccardo Cucciolla, Bill Vanders, Franco Balducci, Giuseppe Addobbati, Félix Dafauce, Jesús Puente

Lucio Fulci ainda seguia tendências quando dirigiu em 1969 o pseudo giallo Uma Sobre a Outra (Una sull’altra). Seu nome, ainda não tão popular em sua terra natal, até então era associado às comédias italianas, suspenses de crimes e enredos pés no chão, seguindo o que o público consumia por lá no final dos anos 50 e ao longo dos sessenta e setenta. Distante de sua produção violenta, ao qual lhe daria as alcunhas de “poeta do macabro” e “padrinho do gore“, Fulci passou a ter notoriedade a partir de 1971, com Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (Una lucertola con la pelle di donna), consolidando uma identidade técnica que o colocaria na mesma prateleira de outros nomes como Mario Bava e Dario Argento.

Conhecido também com o título Perversion Story e com dezenas de capas que não representam sua essência — a pior delas é uma que mostra Marisa Mell ajoelhada, prestes a abrir o zíper da calça de um homem armado, como se ele estivesse sob o controles das ações, algo que não acontece no filme —, Uma Sobre a Outra parece chamar a atenção como um thriller erótico, cujos méritos dialogam com a exposição de corpos femininos, propondo ao espectador um softporn exploitation, sem despertar qualquer outro interesse pelo roteiro de Fulci, Roberto Gianviti e José Luis Martínez Mollá. Até mesmo o título original, bem traduzido no lançamento da Versátil, aponta para essa falsa perspectiva. E não é bem assim: há uma curiosa trama de mistério com boas reviravoltas e algumas surpresas.

No enredo, Dr. George Dumurrier (Jean Sorel), um dos donos de uma clínica em São Francisco ao lado do irmão Henry (Alberto de Mendoza), convive com a esposa asmática Susan Dumurrier (Mell), enquanto dá umas escapadas com a possessiva Jane Bleeker (Elsa Martinelli), assistente pessoal de Larry (Jean Sobieski), um fotógrafo da moda, com a desculpa de estar em busca de recursos de investimento na empresa para pagar dívidas e realizar cirurgias cardíacas. Em um desses longos passeios de carro até Reno para um tórrido encontro com a amante, ele é avisado da morte da esposa para depois descobrir que ela havia feito uma apólice de seguro de vida de US$2 milhões, tendo-o como único beneficiário.

Com a desconfiança de sua cunhada Marta (Faith Domergue) e de um agente de seguros, George recebe um telefonema anônimo que o leva à boate de striptease The Roaring Twenties, somente para encontrar uma dançarina com semelhança assustadora com a falecida Susan. Ele e Jane se aproximam de Monica Weston (mais uma vez Marisa Mell, desta vez loira e com olhos claros) para entender a estranha coincidência física, ao passo que a polícia, através do Inspetor Wald (John Ireland), começa a levantar suspeitas do viúvo e da stripper, imaginando um possível golpe milionário.

Há muito mais recheio de mistério e elementos enigmáticos no argumento Fulci e Gianviti. Como aparentemente George, o espectador se vê manipulado pela condução narrativa, com as diversas possibilidades apresentadas. Susan foi realmente assassinada ou morreu em decorrência da doença? Teria a enfermeira efetuado a troca dos rótulos dos medicamentos? Quem é Mônica e o estranho que demonstra obsessão pela stripper? Em todo esse mistério, qual é o envolvimento de Marta e Henry, além de Larry e Jane? São questionamentos que circularão por um palco de intrigas e conspirações, provocando um thriller psicológico de personagens egocêntricos e vingativos.

Fulci trabalha os aspectos técnicos com precisão, golpeando o público com pinceladas de teorias e investigação teatral. Faz uso engenhoso de primeiro e segundo plano, enfatizando objetos como o vidro do remédio Neurosedyl antes de focar nos olhos claros de George ou mostrando um elemento importante no reflexo de um espelho, além de explorar recursos visuais como a câmera que se esconde nos lençóis avermelhados transparentes durante uma sequência mais ousada de sexo. Também chama a atenção os enquadramentos estilosos, com destaque para a cena dos corpos femininos sobrepostos, e a divisão de cenas múltiplas em pequenos quadros na tela em ações simultâneas como depois seria visto no cinema de Argento e Brian De Palma.

Entre os tratos técnicos que não funcionam bem, há os movimentos tremidos das tomadas aéreas, como na cena que fecha o filme, e as facilidades do roteiro. Aquele sensação de “isso só acontece em filme” desponta em momentos-chave como na rápida condenação à morte de um acusado, sendo que a defesa nem sequer pensou em pedir a anulação do julgamento pelo simples fato de elementos importantes do cenário investigativo terem desaparecido. Um deles, inclusive, foi embora do país usando o passaporte verdadeiro, sem qualquer preocupação que a ação pudesse trazer uma revelação que mudaria os rumos da acusaçao. Vale pela curiosidade de conhecer o interior da verdadeira câmara de gás da Prisão de San Quentin, com todos os detalhes do processo de configuração da pena.

Ainda que não tenha todos os elementos que passariam a vigorar entre os gialli como o assassino da luva preta com sua lâmina reluzente, os crimes violentos e o ponto de vista do algoz, Uma Sobre a Outra explora o mistério e a sedução, além de personagens femininas poderosas, independentes e controladoras. Depois o próprio Fulci ajudaria a desenvolver o estilo, com contribuições mais significativas como Uma Lagartixa num Corpo de Mulher e O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si sevizia un paperino, 1972), ambos com a expressiva Florinda Bolkan, partindo para uma descida mais intensa a um inferno de sangue e olhos vazados.

Lançado na Itália em 15 de agosto de 1969, com arrecadação aproximada de 869 milhões de liras, o filme foi exibido em outros países com vários cortes como a francesa, com apenas 97 minutos, com a exclusão de cenas alongadas de sexo e nudez, mesmo com o título Perversion Story. A brasileira, pela Versátil, segue a italiana completa de 108 minutos, figurando em um box caprichado da série Giallo Volume 7, com mais de uma hora de extras, ao lado de Um Dia Negro (Giornata nera per l’ariete, 1971), Fotos Proibidas (Le foto proibite di una signora per bene, 1970) e As Lágrimas de Jennifer (Perché quelle strane gocce di sangue sul corpo di Jennifer?, 1972).

Mesmo não estando entre os destaques da filmografia perversa de Fulci, Uma Sobre a Outra é um de seus roteiros preferidos pela própria estrutura eficiente de manipulação do espectador, contando com as ótimas atuações de Jean Sorel e da versátil Marisa Mell.

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