![]() Ed Gein: Silêncio Psicótico
Original:Deviant: The Shocking True Story of the Original Psycho Ano:2025•País:EUA Autor:Harold Schechter•Editora: Darkside Books |
Plainfield é uma pacata e respeitável cidadezinha localizada em Wisconsin, Estados Unidos. Seus moradores são honestos e trabalhadores, e um deles em especial sempre se destacou por sua educação e amabilidade. Edward Theodore Gein sempre foi um rapaz quieto, tímido e muito respeitoso com todos, sem medo de trabalhos braçais pesados, alguém com quem todos sempre podiam contar – até mesmo para ser babá das crianças quando necessário. Muitos achavam-no bobo, fazendo brincadeiras e comentários maldosos, mas Ed nunca levou a mal. Sempre com um sorriso no rosto, temperamento calmo e com algo agradável a se dizer, o rapaz parecia não se importar com o que os outros diziam sobre seu jeito. A única pessoa cuja opinião importava para ele mais do que a própria vida era uma só: Augusta Gein, sua mãe. Após a morte da matrona Gein, Plainfield nunca mais seria considerada pacata, e Ed nunca mais seria visto como um simples bobão inofensivo.
Em Ed Gein: Silêncio Psicótico, escrito por Harold Schechter (autor de H.H. Holmes, Lady Killers Profile: Belle Gunness, Serial Killers: Anatomia do Mal, Anatomia True Crime dos Filmes e também da graphic novel Ed Gein, em parceria com Eric Powell, todos publicados no Brasil pela DarkSide Books), conhecemos mais sobre a infância de Ed, mais detalhes de sua profunda relação com a mãe e também alguns detalhes de seus crimes macabros, bem como seu julgamento e avaliação psiquiátrica feita por especialistas. Há muita coisa obscura e desconhecida na história de Gein, mesmo com toda sua popularidade após a descoberta dos hediondos crimes, mas Schechter faz um trabalho muito competente ao compilar e repassar apenas as informações confiáveis disponíveis, sem especulações.
Schechter começa o livro falando sobre os pais de Ed, como se conheceram e acabaram se casando. Augusta, criada por uma família rigorosa e religiosa, sempre foi uma mulher com opiniões fortes e extremas sobre as pessoas e o mundo. O pai de Ed é pouco citado, sendo irrelevante tanto em sua criação quanto como marido; Augusta frequentemente descrevia-o como bêbado e inútil, e se ressentia de ter dois filhos – e não uma filha, como gostaria – com ele. Sendo assim, a mãe foi a figura dominante na vida de Ed Gein, seu modelo de como uma pessoa perfeita deveria ser, apesar das duras reprimendas que sofria constantemente. Ele tentava ao máximo corresponder às expectativas de sua progenitora, virando um homem submisso, reprimido, emocionalmente dependente da mãe e isolado. Até então, Ed tinha suas excentricidades, justificadas pela repressão que sofria, e que não faziam mal a ninguém. Porém, tudo mudou a partir de 1945 com a morte de Augusta.
A partir daí, as descrições deixam claro o preocupante declínio mental de Ed Gein. Sem a presença da mulher que ele considerava uma deusa pura e intocável, a casa e a fazenda na qual vivia, sempre funcionando graças à Augusta, ficaram abandonadas. Apenas um quarto continuava sempre arrumado e intocado tal qual sua dona: o de sua mãe. Ed começou a violar túmulos e colecionar partes de corpos femininos em uma busca desesperada de preencher o vazio que foi deixado pelo falecimento da mãe. Vulvas, seios e rostos eram alguns itens de sua coleção horripilante; cadeiras e abajures feitos de pele humana enfeitavam cômodos, crânios eram usados como tigelas, um colete feito a partir do dorso de uma mulher, cabeças encolhidas e muito mais foram encontradas pela sua casa. Passaram-se anos sem que ninguém desconfiasse de absolutamente nada, muito menos do pacato e coitado Ed Gein.
Apenas quando Bernice Worden, uma conhecida comerciante local, desapareceu que a polícia e o público enfim descobriram os horrores da fazenda Gein. O mundo todo, chocado e horrorizado, tomou conhecimento do que foi encontrado ali. Ed foi imediatamente preso e levado ao interrogatório, e sempre se mostrou extremamente prestativo e solícito. Era difícil imaginar que aquele homenzinho de voz mansa pudesse ter feito tamanhas atrocidades.
O autor discorre sobre todo o processo de julgamento e de avaliação psiquiátrica, bem como esmiuça os testes de polígrafo pelos quais Ed passou – os quais foram sugestões do próprio. Ele afirmava ter apagões, não se lembrar de ter feito muitas daquelas coisas, mas que sentia quando uma escuridão chegava e nublava sua mente. Ele não lembrava de ter matado Bernice, que foi encontrada mutilada em seu celeiro, mas também não descarta a possibilidade. O polígrafo mostrou que Ed sempre foi extremamente honesto em suas respostas, o que fez com que psiquiatras viessem analisá-lo. Não era possível que uma pessoa em pleno controle de suas faculdades mentais fosse capaz de fazer tamanhas barbaridades. Concluiu-se que o Carniceiro de Plainfield, como ficou conhecido, sofria de esquizofrenia e não podia responder pelos seus atos, sendo assim declarado inimputável por insanidade e transferido para o Hospital Psiquiatrico para os Criminalmente Insanos, onde viveu por muitos anos.
Diferente de outros serial killers, Ed Gein matou apenas duas pessoas, sendo elas Mary Hogan e Bernice Worden. Ambas possuiam um perfil semelhante: eram mulheres fortes, independentes e donas de um comércio local, tal qual sua mãe. A diferença delas para Augusta é que, aos olhos de sua santa mãe, não eram mulheres respeitáveis segundo seus rígidos critérios. Ed afirmava ouvir a voz da mãe em sua cabeça repreendendo as pessoas por seu comportamento e atitudes, o que provavelmente levou ao assassinato de ambas. Qual foi o gatilho para isso, já que Ed sempre foi cliente frequente das duas, não se sabe. De qualquer forma, não foram os dois homicídios (por mais brutal que um deles tenha sido) que o levaram a ter o título de monstro, e sim suas exumações ilegais do cemitério local e o que fez com os corpos daquelas mulheres que desenterrou.
Como é de se imaginar, sua história macabra serviu de inspiração para muitas obras até os dias de hoje e também para outros assassinos, que imaginavam que Ed era a personificação da maldade. Na verdade, segundo relatos de funcionários e enfermeiras do hospital no qual foi internado, Gein não tinha completa noção da crueldade de seus atos, e sofreu muito quando tomou consciência disso. Claro que isso não diminui o impacto e a gravidade do que fez, e o autor deixa isso claro com muita seriedade, levantando a discussão da grande importância da saúde mental.
O caso de Ed Gein foi extremamente impactante, especialmente no contexto pós-guerra dos EUA, onde tudo era sobre positividade e prosperidade. Saber que o horror estava escondido ali, bem ao lado, na forma de uma pessoa passiva e educada que faz parte do seu cotidiano, foi algo que ressoou fortemente no imaginário das pessoas, sendo até hoje considerado um dos casos mais perturbadores dos Estados Unidos. Ele não era manipulador ou sedutor como a maioria dos serial killers, ele representa a loucura silenciosa que veio a partir de um lar cheio de repressão, extremismo e abandono. Seus crimes foram desencadeados por causa do luto, da psicose e de uma identidade fragmentada. Aqui, o horror sem nasceu do vazio de Ed Gein, não de um desejo de controle e poder como na maioria dos casos.
Em 2025 estreou na Netflix a série Monstro: A História de Ed Gein, com produção de Ryan Murphy e com Charlie Hunnam no papel de Gein. Infelizmente a série, em prol do entretenimento, não é fiel aos acontecimentos, colocando fofocas nunca confirmadas como fatos e romantizando desnecessariamente muitos pontos. Ed Gein: Silêncio Psicótico é um material muito mais confiável para entender melhor o caso do assassino que impactou tanto uma sociedade e inspirou a criação de figuras icônicas da cultura pop.
No final das contas, Norman Bates, Leatherface e Buffalo Bill possuem um importantíssimo ponto em comum: todos foram baseados em Ed Gein, o Carniceiro de Plainfield, o psicótico original.



