![]() Pânico
Original:Bakterion / Panic
Ano:1982•País:Itália, Espanha Direção:Tonino Ricci Roteiro:Jaime Comas Gil, Víctor Andrés Catena Produção:Marcello Romeo Elenco:David Warbeck, Janet Agren, Roberto Ricci, José Lifante, Miguel Herrera, Eugenio Benito, Ovidio Taito, José María Labernié, Ilaria Maria Bianchi, Fabián Conde, Vittorio Calò, Franco Ressel, Goffredo Unger |
“O que você viu pode realmente acontecer… talvez já tenha acontecido!”
A sentença acima não é um slogan ou tagline, como aquela informação que é colocada na capa do VHS para atrair seu desejo por alugar a fita. É uma provocação que desponta nos créditos finais de Pânico (Panic, 1982), também conhecido como Bakterion e até Zombi IV: Bakterion. E eu concordo com a segunda parte da frase, principalmente com o conhecimento sobre filmes como Exército de Extermínio (The Crazies, 1973), Os Predadores da Noite (Virus, 1980) e principalmente O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, 1977), além de tantos outros exemplares do subgênero “homem se transforma em monstro“, lotando as prateleiras do cinema sci-fi antigo.
Trata-se de mais uma bagaceira com B maiúsculo, numa co-produção ítalo-espanhola, de baixos recursos e absurdamente risível. É aquela pérola que a VídeoPole lançou por aqui nos anos 80, embora a produção tenha iniciado em 1976, e que a capa chamava a atenção pela já exposição do monstro, algo que o próprio filme só o faria lá pela segunda metade. E, mesmo com sua vestimenta trash, a produção conta com dois nomes que eram figurinhas carimbadas de produções italianas da época, embora nenhum deles seja de lá: o neozelandês David Warbeck e a sueca Janet Agren.
Warbeck, falecido em 1997, fez o inglês As Filhas de Drácula (Twins of Evil, 1971) ao lado de Peter Cushing, e depois se destacou em Apocalypse 2 (L’ultimo cacciatore, 1980), Terror nas Trevas (The Beyond, 1981), Gato Negro (Gatto nero, 1981) e Escapando do Inferno (Fuga dall’arcipelago maledetto, 1982) — só para mencionar os mais conhecidos por aqui. E Agren esteve em A Revanche do Último Tubarão (Bermude: la fossa maledetta, 1978), Vivos Serão Devorados (Mangiati vivi!, 1980), Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella città dei morti viventi, 1980), Keruak: o Exterminador de Aço (Vendetta dal futuro, 1986) e Night of the Sharks (La notte degli squali, 1988). Curiosamente, ambos estiveram na tranqueira absoluta O Rato Humano (Quella villa in fondo al parco, 1988), uma das maiores aberrações cinematográficas da História do Cinema. Além deles, vale menção ao veterano ator espanhol José Lifante (1943-2024), atuante em mais de duzentas produções, com destaque para o clássico As Aventuras do Barão Munchausen (The Adventures of Baron Munchausen, 1988) e pérolas como O Beijo do Diabo (La perversa caricia de Satán, 1976) e o meu filme favorito de zumbis, Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos (No profanar el sueño de los muertos, 1974).
O longa começa na criação do monstro. O Professor Adams (Roberto Ricci) e sua assistente Jane Blake (Agren) estão trabalhando em um laboratório químico para a criação de um agente de guerra, uma bactéria com alto poder de eliminação, a partir de ratos, quando soa o alarme de contaminação: ele é visto, expressando dor, enquanto tapa o rosto mas não esconde a tinta verde que cobre suas bochechas e mãos. Jane anuncia o vazamento e fuga de Adams, atraindo a atenção do Capitão Kirk (Warbeck) — distante da USS Enterprise — e o Sargento O’Brien (Lifante), que iniciam os protocolos de perseguição ao rastro de corpos de moças nuas ou seminuas, deixados pela criatura. Ao mesmo tempo, o Coronel Rutledge (José María Labernié) e políticos estão preocupados com o descontrole, acionando o “Plano Q” (imagino que os de letra A a P deviam ser menos agressivos) planejando uma destruição completa da cidade, mesmo sem confirmação de um possível pandemia.
E as próprias vítimas, além de Jane, mostram isso. Se o Capitão Kirk (é difícil não rir com esse nome) nem se importa em passar toda a hora as mãos no sangue das paredes, até mesmo do esgoto, para cheirar, por que todo esse exagero de segurança? Jane faz testes e declara que não há risco de contaminação, não há pessoas doentes ou afetadas pelo monstro, mas sempre há os militares que gostam de “ver a casa cair“, até mesmo na organização de uma quarentena, metralhando as pessoas que tentarem deixar a cidade de Newton.
O “monstro pizza“, com roupas de soldado “porque é assim que o professor se vestia quando saía pescar“, fica rondando os mesmos lugares nos túneis no esgoto eventualmente aparecendo para fazer vítimas, deixando-as cobertas de tinta vermelha e alguns sinais de desmembramentos, como a primeira, que namorava um rapaz em um carro até serem surpreendidos. Basta aparecer qualquer pessoa diferente, desconectada do elenco principal, e você já sabe que acontecerá um ataque. Há uma cena apelativa inspirada em Psicose (Psycho, 1960), com uma moça atacada durante o banho, depois que a câmera passeia por seu corpo todo; e outra que é pega no cinema, pouco depois de ter os seios apalpados pelo namorado. O diretor Tonino Ricci, de Thor, o Conquistador (Thor il conquistatore, 1983), cópia de Conan, o Bárbaro, não camufla suas intenções exploitation, exibindo mulheres nuas, como se o vilão tivesse um sensor de ataque de moças durante a exposição de seus corpos.
Aliás, a cena do cinema é um dos momentos mais hilários da produção. Embora o cinema anuncie a exibição de Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955), com James Dean, o filme mostrado na tela é outro: passa uma cena de alguém abrindo a porta do carro, e a imagem corta para mostrar o monstro se aproximando lentamente para o acesso, para depois voltar para o cinema e a sequência vista é a mesma. Quando Adam rasga o telão — 0lha a metalinguagem aí —, o povo sai correndo desesperado para as ruas, sendo possível ver que muitos ali — muitos mesmo, com mais gente saindo do cinema do que havia dentro — estão rindo, olhando para a câmera, como se fosse a abertura dos portões de um show. Apesar da correria, exatamente a moça apalpada é a única que continua no cinema para ser atacada pela criatura.
O Capitão Kirk (ai ai) chega sempre ao local atrasado e quando chega, mesmo sabendo que o monstro acabou de sair (depois de tocar mais uma vez no sangue para ver se está fresco), em vez de perseguir o assassino, ele e o Sargento lamentam que não chegaram a tempo. Em dado momento, o Padre Braun (Eugenio Benito) toca piano e entrega várias balas para as crianças, até mesmo pedindo que tomem cuidado na ida pra casa. O infernauta fica pensando se algumas delas ou próprio padre serão atacados naquela hora, mas isso só acontece em outro dia, na própria igreja, quando ele pede que se escondam na eucaristia.
Além dessa perseguição “implacável” ao monstro, entre olhadas para as câmeras e atuações risíveis, efeitos ruins até mesmo com os dois pilotos em um avião em um local que não parece onde estão, Pânico diverte também na direção de fotografia. Ainda que o nome da cidade seja Newton — e imagino que seja referência a Herefordshire (Golden Valley), na Inglaterra — e há várias tomadas que mostram ônibus de dois andares, o Big Ben e cabines de telefone, claramente o filme é ambientado na Espanha, com os atores sendo dublados em inglês.
Com roteiro de Víctor Andrés Catena e Jaime Comas Gil, ambos do clássico faroeste spaghetti Por Um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari, 1964), todos os envolvidos erraram muito a mão aqui, contando com as trapalhadas de Ricci. Mesmo como filme de monstro ou de cientista louco, Pânico só serve para divertir pelos seus defeitos técnicos, suas ideias absurdas e produção capenga, incluindo o trabalho de edição do experiente Vincenzo Tomassi, de Zombie – A Volta dos Mortos (Zombi, 1979) e Cannibal Holocaust (1980), entre tantos outros. Atualmente se encontra fora de catálogo e distante dos streamings, o que pode ser considerada uma benção para os fãs de um bom cinema, e uma lamentação para quem aprecia bagaceiras bem intencionadas.






