
![]() Strange Harvest
Original:Strange Harvest
Ano:2024•País:EUA Direção:Stuart Ortiz Roteiro:Stuart Ortiz Produção: producer, Stuart Ortiz, Alex Yesilcimen Elenco:Peter Zizzo, Terri Apple, Andy Lauer, Matthew Peschio, Allen Marsh, Roy Abramsohn, Adriana Baranets, Christina Hélène Braa, Janna Cardia, Brandon Christensen, Jessee J. Clarkson, Lisa Cole, Nicole Dionne |
Realizadores como Dutch Marich (da franquia Horror in the High Desert) e Turner Clay (The Blackwell Ghost) têm muito a aprender com Stuart Ortiz no que se refere à produção de falsos documentários. Responsável pelos filmes Fenômenos Paranormais 1 e 2, Ortiz se interessou em trabalhar com o estilo depois que assistiu à série A Máfia dos Tigres (Tiger King, 2020-2021), da Netflix, e notou a popularidade do formato de investigação “true crime” e imaginou que poderia fazer algo parecido, sem conexão direta com a realidade. Assim, Strange Harvest tem seus méritos no convencimento de uma história inventada, a partir de sua estrutura e desenvolvimento, e contando com os bons aspectos técnicos.
Quando começou a escrever o roteiro de Strange Harvest, Ortiz revelou que queria que seu filme capturasse “a essência do documentário moderno“, com inspiração clara na mitologia H.P. Lovecraft. Essa mistura resultou numa produção bem feita, que mantém o infernauta inerte durante a exibição, atiçando a curiosidade pelo conteúdo. Funcionou tão bem que a primeira ação que tomei depois de ver o longa foi pesquisar sobre o assassino, seus envolvidos, imaginando que houvesse alguma conexão real: claro que se trata de um mockumentary, mas podia ter um contexto real ali ou alguma referência a acontecimentos trágicos.
Não há. O “Sr. Shiny” (uma clara referência a Lovecraft) é um serial killer fictício que, no enredo de Strange Harvest, cometeu uma série de crimes brutais em três décadas em Inland Empire, na Califórnia. Com depoimento do Det. Joe Kirby (Peter Zizzo) e da Det. Alexis ‘Lexi’ Taylor (Terri Apple), o filme começa falando sobre um crime cometido em 1993, quando a jovem Shifra Gutierrez, de 24 anos, foi encontrada desmembrada, com as genitais mutiladas e sem o útero na Floresta Nacional de San Bernardino. Seguindo as pistas de suas últimas estadias, descobriram que ela esteve hospedada com um tal Albert Shiny em um motel. A investigação na época não encontrou qualquer outro dado sobre o possível assassino. No ano seguinte, o idoso Ambrose Griffith, de 82 anos, com mobilidade reduzida, foi encontrado espancado e esfaqueado, sem um dos olhos, em seu ambiente de repouso, em um cenário de violência extrema. Por fim, em 1995, o garoto Noah Lafone (Brandon Christensen) depois de um tempo desaparecido, teve seu corpo descoberto em um pântano com o fígado removido. O que chamou a atenção nesse assassinato é um termo descoberto em uma página arrancada de um livro de ciências: Kaliban.
Semanas depois a polícia recebeu uma carta já assinada pelo Sr. Shiny revelando detalhes dos três crimes e anunciando que ainda faltam dez vítimas. O assassino desapareceu por quinze anos, até um crime horrendo chamar a atenção da polícia, com a descoberta de três corpos da família Sheridan, numa posição de veneração a um triângulo pintado no teto, presos a uma cadeira, enquanto o sangue de seus corpos vertiam em baldes colocados abaixo da mesa onde estavam. O cenário assustador mostrou aos detetives que o assassino havia voltado, mas de uma maneira mais aprimorada, com a simbologia de sua mensagem.
Em apenas quinze minutos de filme, você já está envolvido numa trama de perseguição policial, corpos mutilados, referências cósmicas e uma intenção apocalíptica. Outras mortes violentas desenharão uma proposta ousada, referenciando o John Doe de Seven, O Sete Crimes Capitais (1995), como o do jovem preso a uma piscina com sanguessugas. Depoimentos serão alternados com reportagens de TV, registros de bodycam de policiais, webcam e câmeras de segurança até um rosto, com uma máscara horrenda de três furos, no interessante designer de Jessee J. Clarkson, passar a ser a única identificação com o terrível Sr. Shiny. Mas ele não é apenas uma pessoa insana, um psicopata estiloso, mas o visionário de um acontecimento importante.
Além das boas atuações e violência gráfica, os bons efeitos até mesmo nas filmagens da década de 90 dão um tom verídico. Tudo se constrói em um pesadelo satisfatório e bem editado por Ortiz. Não traz passeios na mata que não levam a lugar algum e nem exageros melancólicos na comunicação com fantasmas: a dinâmica das cenas e a ousadia dos cenários prendem o público nesse thriller investigativo com elementos de horror cósmico. Se há um pesar em Strange Harvest, apontado em algumas listas como o destaque de 2025, pode-se dizer que está na cena pós-crédito, com uma mensagem que me deixou levemente decepcionado como o do primeiro Horror in the High Desert, pela necessidade de provocar um novo filme. É uma ampliação desnecessária de uma mitologia que poderia ser mantida na obscuridade, apenas com o que foi visto em Strange Harvest.
Com um pouco mais de popularidade entre os fãs de horror, Strange Harvest teria chances de se tornar um clássico cult na categoria mockumentary. Um thriller com teor lovecraftiano que não poupa sangue na criação de uma atmosfera perturbadora e incômoda.




