Bate-papo com Anderson Oliveira, o batera da banda Expurgo

Não é exagero dizer que Expurgo é uma das melhores bandas de death/grind da atualidade. O som que o quarteto mineiro produz tem uma qualidade avassaladora, é incrivelmente bem executado e não deixa nada a desejar em comparação aos grandes nomes do estilo, tanto em estúdio quanto nos palcos. Quem já teve o privilégio de assistir show dos caras sabe do que estou falando.

Com mais de vinte anos de estrada, disseminando o grindcore pelo mundo afora, neste ano o Expurgo comemora o “aniversário” de dez anos do primeiro full-lenght, o impiedoso Burial Ground, um clássico do gênero. E para celebrar esse marco, fizemos uma pequena entrevista com o baterista Anderson Oliveira, para que os infenautas do Boca do Inferno conheçam melhor a banda.

Boca do Inferno: Como e quando a banda começou? Qual foi a inspiração para o nome Expurgo?

Anderson: Olá Juliano e infenautas do Boca do Inferno. Então, o EXPURGO é a continuação de uma antiga banda de grindcore que havia em BH no final da década de 90, o PUTRIFOCINCTOR, que contava com o Egon nos vocais e o Phil nas guitarras/backing vocals. Essa banda começou por volta de 1997, e foi gravar sua primeira e única demo (Xorume/Fecume) em 1999. Eu entrei no “Putrifa” em 2001 quando os antigos baixista e batera decidiram sair fora. A princípio, eu iria tocar baixo (eu sou baixista na verdade rsrs…bateria é só atrevimento mesmo), mas logo nos primeiros ensaios eu comentei com os caras que sabia fazer uns bate-estacas e pronto… Foi o suficiente pro Phil e o Egon nunca mais me deixarem pegar no baixo novamente hahaha! E assim ficamos até 2003, compondo alguns novos, porém sem um nome definido e nem nos considerando uma banda mesmo… Em 2003, tomos vergonha na cara e decidimos fazer com aquele velho cadáver do Putrifocinctor se tornasse uma nova banda, e decidimos mudar o nome também.

A escolha de um nome pra banda nunca é fácil não é? Entre várias tentativas o Phil sugeriu esse nome e gostamos muito! Ele viu este nome em um hospital durante uma visita à alguém…, a sala de Expurgo! Este nome tem tudo a ver com a música suja, podre e subversiva que gostamos, assim nasceu a cria morta EXPURGO!

Boca do Inferno: No som do Expurgo há elementos de death metal, grindcore old school e até referências splatter/gore, incluindo o cover de Boneyard (Impetigo) nos shows. Você acha que essa junção de elementos ajudou na excelente aceitação da banda entre os diversos públicos? Como você define o estilo do Expurgo?

Anderson: Ah sim, com toda certeza. O som do EXPURGO é uma mistura de tudo que nós gostamos e ouvimos muito, tanto o Grindcore, mas o bom e empoeirado Death Metal, assim como o Gore e Punk Crust também. Eu acredito que isto nos ajuda a transitar por entre várias bandas de diferentes estilos e agradar os malucos que estão ali assistindo, mesmo que não sejam do meio Grind/Splatter. Mas no início, não era assim não! Lá no começo do EXPURGO nós não conseguíamos nem um show direito, inclusive nós já fomos expulsos de estúdios de ensaio em BH rsrs… Por que Grind não era um som acessível em Belo Horizonte. Só conseguíamos tocar num porão mofado e imundo do nosso brother Grilão… Shows eram raríssimos de conseguir, e quando conseguíamos algo era só com bandas alternativas, tipo HC punk e até Ska. No meio metal foi difícil de entrar, só com o primeiro álbum “Burial Ground” que o público metal começou a prestar atenção e entender melhor a barulheira e aí a situação começou a mudar. Muito disso era por causa do radicalismo e coisas desse tipo.

Boca do Inferno: Aproveitando o gancho da pergunta anterior, o cinema de horror é uma influência para a temática da banda? Cite alguns filmes de sua preferência para os infernautas do Boca do Inferno.

Anderson: Eu acredito que essa “atmosfera” de horror, também faz parte do que é o EXPURGO hoje. Por influência minha acredito. Eu adoro de coração esses filmes “tranqueiras”, portanto sempre você vai achar uma intro ou outra em alguma música com um pedacinho de algum filme trash, porém a temática lírica do EXPURGO é mais crítica e política do que puro gore, usamos o “gore” em algumas metáforas, criticando essa sociedade podre que vivemos e realmente parece um filme de terror sem fim. Falando mais sobre os filmes, o Phil e o Egon já assistiam os clássicos trash tipo BRAINDEAD (FOME ANIMAL) desde o PUTRIFOCINCTOR… Eu peguei essa influência quando tocamos pela primeira vez no clássico festival SPLATTER NIGHT XI – 2007 e em especial com os mestres do gore André Luiz (LYMPHATIC PHLEGM/OFFAL), Petter Baiestorf (CANIBAL FILMES) e Gurcius Gewdner (BULHORGIA). Pude conhecer essas figuras pessoalmente, conhecer muitos filmes e pegar DVDs como: MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO, ZOMBIO além de uma pilha de outros títulos. Meus filmes favoritos são os do mago do splatter Lucio Fulci, eu adoro os filmes: ZOMBIE, CITY OF THE LIVING DEAD, THE BEYOND, HOUSE BY THE CEMETERY, THE NEW YORK RIPPER e A CAT IN THE BRAIN entre vários outros diretores e filmes do gênero. Quanto mais sangue barato melhor!

Boca do Inferno: Neste ano o clássico Burial Ground completa dez anos de lançamento. Como foi o processo de gravação? Esse disco abriu muitas portas para a banda?

Anderson: Esse foi nosso primeiro álbum cheio, que saiu pela Black Hole Productions do velho camarada Fernando Camacho. O processo de gravação em minha opinião foi o mais difícil que tivemos até hoje, não por ser complexo de tocar, definitivamente não, até porque as músicas do EXPURGO são bem simples. O que acho que tornou o processo difícil foi por ser a nossa primeira experiência em estúdio, para gravar um álbum inteiro de Grindcore tentado manter a melhor qualidade que podíamos ter. Foi trabalhoso, mas foi e ainda é muito satisfatório o que conseguimos. Gravamos no Eminence Studio com a produção e gravação do Alan Wallace e André Márcio (Zé Baleia) ambos da banda EMINENCE aqui de BH. Gravamos tudo separado e fizemos uso do metrônomo para gravar as faixas, utilizamos os amplificadores do EMINENCE na época (Mesa Boogie para guitarra e o Ampeg para o baixo), eu toquei com a bateria do André (na época um Mapex Deep Forest, dá um puta som!) e os vocais foram gravados no estúdio mesmo. Um detalhe é que não tem nada “triggado ou editado” na bateria, o som que está no CD foi o que foi captado pelos microfones na bateria.

Com certeza o BURIAL GROUND nos trouxe a atenção do público Grind e Metal e nos abriu as portas para conseguirmos chegar aonde chegamos. Algumas curiosidades sobre este disco:

A faixa PURGING THE PHLGEM foi gravada com os vocais do André Luiz (LYMPHATIC PHLGEM) e a letra é dele, o nome da música é uma brincadeira com os nomes Expurgo e Lymphatic Phlegm, algo tipo expurgando a secreção.

O nome álbum foi tirado do clássico trash BURIAL GROUND: THE NIGHTS OF TERROR (1981) de Andrea Bianchi.

Boca do Inferno: Como foi a experiência de abrir o show do Napalm Death, o maior nome do grindcore mundial? Além do Napalm Death, cite outras bandas icônicas que vocês já dividiram o palco.

Anderson: Pô mano, não sei o que falar hahaha… Foi a maior realização nossa cara. A gente tava tenso naquele dia, mas muito felizes… NAPALM DEATH foi quem criou tudo isto que está aí. E com certeza EXPURGO não existiria nem as bandas que nos influenciaram também! NAPALM é NAPALM!

Nós já tivemos o prazer de dividir o palco com grandes clássicos, como: MASTER, BENEDICTION, BRUJERIA, EXHUMED, EXTREME NOISE TERROR e ninguém mais que DEAD INFECTION! … Entre outros nomes não menos foda do Brasil, como: MUTILATOR, CHAKAL, FLESH GRINDER, FACADA, NOISE e INDUSTRIAL HOLOCAUST etc.

Boca do Inferno: O Expurgo foi uma das atrações do Obscene Extreme Fest (República Checa) e além disso vocês fizeram shows em outras localidades na Europa em 2018. Como foi essa experiência e como foi a aceitação do público? Em quais países vocês tocaram?

Anderson: Cara essa experiência foi ainda mais intensa e grandiosa que tocar só com o NAPALM DEATH hahaha (O NAPALM fechou o dia que tocamos Lol!). O OEF é um marco histórico para toda banda de Grindcore e Goregrind (e fãs também!). Essa edição foi uma data especial, porque foi o aniversário de 20 anos do OEF e meu aniversário de 40 também! Tocamos e assistimos inúmeras bandas que sempre curtimos, e nunca imaginaríamos que estivéssemos juntos deles em um mesmo festival. Imagina dividir o palco com: CRIPPLE BASTARDS, ROTTEN SOUND, MOB47, BUTCHER ABC, AGATHOCLES, GENERAL SURGERY, HAEMORRHAGE, GRAVE, ASPHYX e mais uma porrada de bandas ultra massa?! Porra! Foi memorável. E a galera nos recebeu muito bem, o mosh e stage dive ferveram!

Essa foi nossa primeira tour fora do Brasil, tocamos antes do OEF na Alemanha, Bélgica, Polônia e por fim Rep. Checa (Praga e Trutnov). Todos os shows muito legais e intensos, o pessoal curtiu e muitos que foram já conheciam a nossa banda, isso foi mais legal ainda J.

Boca do Inferno: No último show do Expurgo em Belo Horizonte (com Claustrofobia, Pesta, Sacrificed e Drowned), uma parte do público foi formada por jovens na faixa de 18 a 20 anos. Você sente que está surgindo uma nova geração de fãs de grind/death?

Anderson: Isso é muito bom cara! Você ver a molecada nova chegando e curtindo Grind e outros estilos também. É gratificante demais ver um menino no meio da “metalerada” com a camisa da sua banda, gritando as músicas nos show, agitando pra caramba e se divertindo. Hoje em dia, existem boas bandas produzindo excelentes trabalhos, tocando muito bem ao vivo, mas o “público e o consumo” de materiais reduziram drasticamente de como era quando eu e você tínhamos nossos 16 anos. Não estou reclamando da vida e chorando por que o mundo evoluiu e o streaming chegou, não. Só acredito que os jovens que aceitam sair de casa, saírem da frente de seus smart phones e irem aos shows underground, ou montarem bandas de garagem, comprarem uma camisa de uma banda pequena ou um CD, merecem palmas hoje em dia. Nós estamos envelhecendo e a proporção de jovens fãs de Death/Grind e até mesmo Metal em geral chegando, não supre essa demanda. Por isso, eu incentivo a todos que estão chegando ao Grind/Splatter/Death, GRIND ON!

Boca do Inferno: Na página do facebook da banda tem uma foto sua com todos os lançamentos da banda nos mais de 20 anos de trajetória. Quantos itens compõem a discografia do Expurgo atualmente?

Anderson: Haha é um bocado de coisa que saiu sabe, não chega a ser um Agathocles, mas temos umas coisinhas lançadas aí. Veja abaixo a lista dos lançamentos do Expurgo até o presente momento:

1. PUTRIFOCINCTOR – Xorume / Fecume – Demo Tape – 1999

2. Demo Grey Waste – CDR-Pro (Self-released) – 2005

3. Split EXPURGO/SHATTER DEAD – Tape – Underground Pollution Recs. – 2008

4. Split EXPURGO/SUBMERSED CADAVER – Tape – Intestine Stew Tapes – 2008

5. Split 4 Way – Deaf Grind Gourmet– EXPURGO/VIOLENT GORGE/ DESGRACERIA/ARCHAGATHUS – Tape – Aggressive Valley Recs. – 2008

6. Split DEAD FETUS COLLECTION/EXPURGO – mini disc 3’’ – Noise Abuse /Grindlover – 2009

7. Split 4 wayRefluxo Escatológico – EXPURGO/H.A.S./MORTE CEREBRAL/MATA BORRÃO – Tape – Lo-Fi Recs. – 2009

8. Demo Grey Waste – Edição Especial – Tape – Crushing Cassettes Recs. – 2010

9. Burial Ground – CD Full-length – Black Hole Prods. – 2010

10. Split BLUE HOLOCAUST /EXPURGO – 7’’ EP – Jennifer Grind Recs. – 2011

11. Split M.D.K./EXPURGO – CD – Rotten Foetus Recs. – 2011

12. Split SYPHILITIC ABORTION/EXPURGO – 7″ EP – Sonoros Recs./Rotten Foetus Recs./Virus Prods. – 2013

13. Undedad – Tribute to DISRUPT – 2CD/2LP – Power It Up Recs. – EXPURGO contribuiu com a faixa “Body Count – 2013.

14. Siege Of Grind – A Brazilian Tribute To NAPALM DEATH – CD – Cianeto Recs. and others – EXPURGO contribuiu com a faixa “All Links Severed”. – Jan. 2013.

15. Split 4 way NECROSE/SUBCUT/MATA BORRÃO/EXPURGO 7″ EP – Audio Guerrilha/Virus Prods. – 2014

16. My Name Is Scum – EXPURGO Discography – Tape – Grindfather Recs. – 2014

17. Split live Shots from Dirty Streets – PLAGUE RAGES/EXPURGO – Tape – Digital Yourself – 2015

18. Digital Compilation – Latin America Noise Vol 2. – Brutal Basarabia – 2016 – EXPURGO contribuiu com a faixa “Critic Numb Disposal”. – Jun. 2014.

19. Split Digital EXPURGO/CACCOPHAGIA – 2016 (Self-released).

20. Dawn Of The Noise – A Tribute To George A. Romero – Digital Compilation – Exhaust Valve Recs. EXPURGO contribuiu com a faixa “Brain Pulsing” retirada do álbum “Burial Ground”. – 2016

21. Split EXPURGO/FLESH GRINDER – 7″ EP – Cogumelo Records/Greyhaze – 2017

22. Live At Molduraria – Bonfim Session – Last Funeral – DVD-R – Gato Preto Recs. – 2017

23. Deformed By Law – CD Full Length – Black Hole Prods. – 2018

24. Split EXPURGO/NUCLEAR HOLOCAUST – Deadly Remains of the Root of All Evil – 12” LP – My Throne Promotion, Child with no name, Fatass Recs. – 2019

25. Split live GORE/EXPURGO – Live Dismemberment 2018 – Tape – Catáfila Producciones – 2019

26. Compilação “Colisão AntiFa BR” – Digital Compilation. EXPURGO contribuiu com a faixa “Break Even Point” retirada do split EXPURGO/NUCLEAR HOLOCAUST – Pólvora Zine – 2020

Boca do Inferno: Quais são as novidades do Expurgo para esse ano?

Anderson: Este ano estaremos com muitas atividades agendadas e lançamentos em vista também. Agora em março faremos uma minitour pela Colômbia e Peru. Para lançamentos deve sair o splti tape com EXPURGO/DIRTY HARRY, split tape EXPURGO/MEATUS e estamos programando um split com o grande ARCHAGATHUS e ainda alguns muito legais (…ainda não posso falar hehe)

Boca do Inferno: Anderson, muito obrigado pela entrevista. Grande abraço a você, Egon, Philipe e Sérgio. Deixe um recado para os leitores do Boca do Inferno…

Anderson: Juliano, muitíssimo obrigado pelo seu apoio de sempre e a boa amizade de anos e anos atrás (Hail HANSENED!). Agradecemos a todos os amigos do EXPURGO que nos apoiam de qualquer forma e principalmente para os infenautas do BOCA DO INFERNO! Keep your mind open! STAY SICK!!!

(Visited 589 times, 1 visits today)
Juliano Jacob

Juliano Jacob

Marketeiro digital, mineiro da gema e viciado em xadrez. Fã de filmes e livros aterrorizantes, guitarrista/baterista amador, escreve sobre música macabra no Boca do Inferno.

5 comentários em “Bate-papo com Anderson Oliveira, o batera da banda Expurgo

  • 10/04/2020 em 22:27
    Permalink

    banda foda!!!!!!!!!!! esperamos aqui em fortaleza CE.

    Resposta
  • 10/04/2020 em 21:45
    Permalink

    Show de bola essa entrevista, grande abraço ao amigo Anderson moedor de crânios! Espero um dia ver vcs tocando aqui no RS!
    Que grata surpresa saber q a entrevista foi feita pelo Juliano da antiga Hansened, fudida banda splatter gore de MG, até hoje tenho na minha coleção a saudosa tape: From The Morphea Victims Satisfaction.

    Resposta
  • 03/03/2020 em 13:40
    Permalink

    Muito obrigado pelo apoio grande Juliano! Grind on!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *