Um Pesadelo Americano: A História do Exploitation – Parte 3

“A razão pela qual a audiência aparece para ver estes filmes de baixo orçamento sem estrelas é porque elas entregavam cenas que você não poderia ver em filmes de grandes estúdios ou até nos mais supostamente ambiciosos filmes independentes americanos” – Stephanie Rothman, diretora de Blood Bath e Terminal Island

Capítulo 5 – Quando Sangue não é o Bastante – Tortura, Estupro e Sadismo

Sexo e violência são o alfa e o ômega do exploitation, e os cineastas dos anos 70 encontravam maneiras cada vez mais bizarras e explícitas de ricochetear entre estes dois tópicos. Os filmes de horror se tornavam cada vez mais sexuais e sacanas e os filmes eróticos cada vez mais sangrentos e sujos, em ambos os gêneros subindo cada vez mais a barra ao explorar novos tabus.

Enquanto o material realmente extremo ficava na obscuridade, longe da atenção dos críticos de cinema, uma quantidade suficiente deles respingou na audiência e criou uma demanda para esse controverso estilo.

Pesadelo (1)

As restrições da censura relaxaram no fim dos anos 60 e começo dos 70, fazendo os filmes eróticos subirem a um novo patamar; um pequeno e independente sexploitation sueco chamado I Am Curious: Yellow (rodado em 1967), por exemplo, rendeu mais de 20 milhões de dólares na época e foi o vigésimo filme mais rentável de 1969 (considerando que foi o ano de Butch Cassidy, Sem Destino e Meu Ódio Será Sua Herança, isto não é pouca coisa). Conforme a década virou, a Rua 42 foi ganhando novos limiares de sexo explícito e terror. É até difícil de acreditar o quão rápida esta mudança aconteceu.

Para terem uma noção, em 1971 foi lançado D.O.G. – Deviations On Gratification, dirigido por Jack Gennaro, que inclui uma cena grotesca que – descrita pela conceituada revista Variety – mostra “uma tentativa frustrada de um jovem gay de se atracar com um cão pastor alemão“. Puxando a borda um pouco mais, já no ano seguinte, uma associação entre os jovens inexperientes Sean Cunnighan (produtor) e Wes Craven (diretor) rendeu Last House on The Left ou Aniversário Macabro, que tem uma história própria de problemas com órgãos moralistas e merece um artigo por si só.

Aniversário Macabro (1972)
Aniversário Macabro (1972)

Por muitos anos, o longa era referência de críticos de cinema como a evidência da maior depravação que se poderia imprimir em celulóide. Não deixa de ser irônico quando trinta anos depois a gigante MGM prestigia o filme com uma versão em DVD recheada de extras.

Mas, acredite, podia ser pior: segundo o livro de David Szulkin, Wes Craven’s Last House on the Left: The Making of a Cult Classic, algumas cenas eram ainda mais pesadas e repulsivas do que as da versão final. Não passar esta barreira foi importante para que o filme não caísse no esquecimento, afinal quem tentou ir além dela continuou nas sombras da obscuridade, tais como Hardgore (de Michael Hugo) e Unwilling Lovers (de Zebedy Colt).

Há uma outra razão lógica para que Craven não entrasse na “pornolândia”. Combinar pornografia explícita e horror sangrento parece o último sonho de um diretor de exploitation, só que na prática a mescla dificilmente funciona. Há algo absurdamente anti-climático no sexo hardcore que se recusa a entrar no gênero terror e quando alguém tenta forçar a barra: o mutante que resulta é estático e desconfortável. É aí que a coisa pega: se o casal em cópula é atraente, não prestamos atenção ao roteiro, se o casal não é, dificilmente prestaríamos atenção ao resto do filme.

Aniversário Macabro (1972)
Aniversário Macabro (1972)

De tempos em tempos diretores aclamados tentam realizar um pornô que possa ser considerado um filme de arte – Stanley Kubrick quase o fez no final dos anos 60. Porém alguns cineastas na Europa deram uma chegadinha na sacanagem e ganharam um bom dinheiro, vide Joe D’Amato e Jess Franco. Na América, Armand Weston – que começou a carreira como diretor de pornôs – fez The Defiance of Good (1974) e The Nesting (1980), tentando mesclar os dois gêneros. Outras películas que devem ser citadas nesse segmento são The Sex Machine (1971) e Sex Wish (1976).

Antes de Hershell Gordon Lewis, a morte no cinema era simples, limpa e indolor. Na época de Lewis, o descarte de vitimas combinando efeitos grotescos e não convincentes gerou quase uma comédia de humor negro. Com Last House on the Left as coisas mudaram: apesar de Lewis mostrar mutilações gráficas, seu elenco era incapaz de demonstrar emoção, o filme de Craven era infinitamente mais plausível no sofrimento sem mostrar tudo tão explícito, um passo a frente no exploitation.

Blood Sucking Freaks (1976)
Blood Sucking Freaks (1976)

Confinamento, degradação, humilhação e dor são os principais atrativos de produções como Last House on Dead End Street (1977), Pets (1972), A Bruxa que Veio do Mar (1976), Bloodsucking Freaks (1976), Human Experiments (1979), Mother’s Day (1980) e, obviamente, O Massacre da Serra Elétrica (1974). Não é por acidente, portanto, que uma enorme parcela destes filmes que caíram de pára-quedas no Reino Unido acabaram sendo perseguidos no escândalo dos Vídeo Nasties e foram mutilados pela censura ou mesmo banidos.

Pesadelo (2)

Só que o tempo passa e no aspecto de “tortura” gráfica e perturbadora, todos eles seriam sepultados em covas profundas pelos japoneses nos anos 80 e 90, através de aberrações como a série Guinea Pig (1985), Red Room (1999) e Rubber’s Lover (1996) só para citar alguns.

Pode parecer sádico de minha parte dizer isso, mas ver alguém morrer no cinema é simples e rotineiro. Extinguir uma existência é “normal” na TV, livros… Ninguém levanta uma pestana: assassinatos são aceitáveis, nunca choramos por um tiro disparado por John Rambo ou por John McClane largar um terrorista no alto de um arranha-céu em Duro de Matar. Mas estupro era um tabu gigante, mostrar uma morte em todos os seus detalhes gráficos “ad nauseam” pode ser feito quantas vezes quiser, mas mostre uma cena de estupro e você tem um teste para o senso de moralidade do público. E enquanto um estupro for considerado um destino pior do que a morte, este quesito não será desafiado na continuidade da história do cinema.

E pode escrever, as motivações para gravar e exibir tais cenas têm explicações mais psicológicas do que parece. De acordo com pesquisa apresentada no livro Arousal: The Secret Logic of Sexual Fantasies (2001) escrito pelo médico Michael J. Bader, 24% dos homens e 36% das mulheres já tiveram fantasias envolvendo estupro e 10% delas consideraram como sua fantasia favorita. E o exploitation, mais uma vez, respondeu à altura.

A Vingança de Jennifer (1978)
A Vingança de Jennifer (1978)

Começou com Last House on the Left e não poderíamos deixar de colocar outro ícone, A Vingança de Jennifer (1978), e também estão nesta barca Wet Wilderness (1975), Hot Summer in the City (1976), Femmes de Sade (1976), Forced Entry (1972), e por aí vai.

No início dos anos 80, dois problemas ocorreram: a pornografia se torna mais acessível ao público interessado com o começo do VHS, e com critérios questionáveis a MPAA passa a apertar mais os pequenos produtores com a censura em favor das gigantes (sobre esse tópico recomendo fortemente assistirem o documentário independente de 2006, This Film is Not Yet Rated) e, assim, cenas de estupro em filmes de horror ou películas temáticas com estupro desapareceram dos cinemas tão subitamente como quanto surgiram.

Capítulo 6 – Ele Veio da Floresta – Bichos e Monstros Invadem os Cinemas

O exploitation não é somente sobre extremos e barreiras a serem quebradas; o horror continuava a oferecer alternativas mais “tradicionais” e a corrida dos distribuidores para embalar o sucesso do mainstream com uma fração do orçamento era muito comum antes mesmo da Asylum. Para cada Alien, Tubarão ou Exorcista haviam diversas versões “alternativas“. Um destes filões explorados foram os filmes de monstros.

O Monstro do Ártico (1951)
O Monstro do Ártico (1951)

As produções de monstros começaram nos anos 50 (excluindo os mega-clássicos da Universal) e muitos deles nos anos 70 continuavam onde The Thing From Another World (1951) e O Monstro da Lagoa Negra (1954) pararam. O cenário era quase o mesmo: homens da lei, cientistas dedicados e médicos que se digladiavam contra monstros à solta; jornalistas ou adolescentes procurando a verdade; garotas sendo ameaçadas quando vão nadar.

Esse revival dos anos 50, com algum gore adicionado, tornaram-se recorrentes entre os exploitations. Without Warning (1980), The Return (1980), The Alien Factor (1977) e a pequena gema The Deadly Spawn (1982).

As variações são muitas: meteoros que criam monstros (The Crater Lake Monster, 1977), coisas há muito adormecidas ou habitantes do pântano que simplesmente resolvem defender seu território e, como não podia deixar de ser, muitas esquisitices nonsense.

Pesadelo (3)

Começando com Blood Freak (1972), uma pessoa transformada em metade homem, metade peru(!) por culpa das drogas. Octaman (1971) um monstro criado por radioatividade, Track of the Moonbeast (1976), que faz um homem virar besta por causa de uma pedra lunar (!) e a indecisão de Rana: The Legend of Shadow Lake (1981) entre ser um mutante ou um demônio índio.

Flertando com Freaks, de Tod Browning, temos o aclamado Basket Case (1981) trazendo o monstro para os centros urbanos, e o mais emblemático de todos, Attack of Beast Creatures (1983), pois é tão afetado pelo baixo orçamento que os monstros parecem fantoches com dentes laminados – é difícil dizer se são monstros ou manequins animados sobrenaturalmente.

Basket Case (1982)
Basket Case (1982)

Se você descontar oceanos, lagos e córregos como esconderijos para seu mutante, certamente o melhor lugar é uma mina ou caverna abandonada. Os ingleses parecem fazer isso muito bem, anos antes de Abismo do Medo (2005) com The Silurians (1970) e The Green Death (1973) que já colocavam os bichos nestes locais escuros e úmidos. O chefe de todos talvez seja The Strangeness (1980) pela atmosfera e condução.

O mais famoso monstro estadunidense, o pé grande, também se faz presente como um homicida em The Legend of Boggy Creek (1972), largamente distribuído nos drive-ins com sustos honestos e, como principal característica, ser filmado como um documentário. Sim, décadas antes de A Bruxa de Blair (1999) e até mesmo Cannibal Holocaust (1980) – o êxito fez com que Boggy Creek ganhasse outras duas continuações.

Além dele, Creature from Black Lake (1976), Shriek of the Mutilated (1974) – cujo pé grande parece muito bom se você assistir após algumas cervejas – e o pequeno clássico Night of the Demon (1980) em que na sua cena antológica o pé grande arranca o pênis de um incauto viajante com suas próprias mãos, compondo uma bizarrice antológica.

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Gabriel Paixão

Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados. Co-autor do livro Medo de Palhaço, produz as Horreviews e Fevericídios no Canal do Inferno!

2 comentários em “Um Pesadelo Americano: A História do Exploitation – Parte 3

  • 03/02/2015 em 15:57
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    Muito legal! é bom saber de alguns ” clássicos” desconhecidos!

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