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O Monstro do Ártico (1951)

O Monstro do Ártico
Original:The Thing from Another World
Ano:1951•País:EUA
Direção:Christian Nyby, Howard Hawks
Roteiro:Charles Lederer, John W. Campbell Jr.
Produção: Howard Hawks
Elenco:Kenneth Tobey, Margaret Sheridan, James Arness, Robert Cornthwaite, James Young, Dewey Martin, Robert Nichols, William Self, Eduard Franz, Sally Creighton, James Arness

“Fiquem alerta! Vigiem os céus! Vigiem os céus!”

Três filmes importantíssimos de ficção científica envolvendo seres de outro planeta e invasão da Terra foram lançados no ano de 1951: O Homem do Planeta X, O Dia em que a Terra Parou e O Monstro do Ártico. À parte esse fato, somente os dois primeiros apresentam similaridades, sendo que tratam de alienígenas que chegaram à Terra, pousaram seus discos voadores e, de uma forma ou de outra, tentaram estabelecer contato pacífico com os terrestres. O terceiro já enfoca o tema sob uma perspectiva mais sombria, mais de acordo com o espírito xenofóbico e negativista dos americanos da Guerra Fria. De todos os filmes desse período que ganharam releituras políticas muito além de suas próprias pretensões, talvez esse tenha sido o mais comentado deles.

Clássico da “era McCarthy“, O Monstro do Ártico (The Thing from Another World) foi dirigido por Christian Nyby e produzido por Howard Hawks, a partir de um texto clássico do renomado editor e escritor de ficção científica John W. Campbell Jr. (do famoso magazine “Astounding Science Fiction“, hoje “Analog“), ocasião em que se valeu do pseudônimo Don A. Stuart. O conto se chamava “Who Goes There!” e tinha todas as características pessimistas para uma adaptação ao cinema americano da década de 50, sob todos os pontos de vista. A começar pelo título, aberto e inconclusivo como toda história paranoica deve ser.

O Monstro do Ártico (1951) (2)

Já o monstro é uma criatura alienígena que chegou a Terra há milhares de anos e se incrustou numa placa de gelo em algum lugar do círculo polar ártico, ali permanecendo até que uma equipe exploradora da era moderna a encontrou, junto a seu enorme disco voador. A despeito das tentativas de se estabelecer um contato amigável com o ser, agora descongelado e andando livremente pelos sombrios corredores da base, ele se revela hostil e antissocial ao extremo, interessado nos seres humanos unicamente pelo fato de servirem como sua nova fonte de alimentos. Embora ferido algumas vezes, o monstro logo revela sua incrível capacidade de regeneração, multiplicando anda mais o horror na ideia de que, assim como aos vegetais, ele próprio pode se adaptar tranquilamente ao ambiente hostil do Ártico e ali dar início à sua devastadora forma de reprodução, infestando o planeta de legumes-monstro do espaço que se alimentam de sangue humano.

A única alternativa, descobre-se logo, é mata-lo: exceto pelo cientista da base, que é um daqueles caras curiosos e bem intencionados, disposto a arriscar a própria vida em busca da confraternização universal, todos os enclausurados exploradores (que incluem civis e militares) não pensam duas vezes em destruir o monstro – coisa que acaba se revelando um belo problema, já que tiros e fogo não o afetam, até que alguém sugere a construção de uma chapa eletrificada para cozinhá-lo.

O Monstro do Ártico (1951) (3)

Feito com baixo orçamento e em poucas semanas e a despeito de seus pontos fracos, O Monstro do Ártico sobrevive às releituras e é apontado em qualquer bom catálogo de filmes de ficção científica & horror como um dos clássicos do gênero. E não é pra menos: mesmo sendo pouco fiel ao conto original, tem um bom elenco, encabeçado por Kenneth Tobey, Robert Cornthwaite, Margareth Sheridan e, claro, James Arness na pele do humanoide-legume do espaço, sem falar da bela e opressiva fotografia em preto e branco, passando a impressão constante de frio e desolação; e embora a criatura (que é vagamente semelhante ao monstro de Frankenstein do Boris Karloff) apareça pouco, há bastante suspense e alguma claustrofobia, elementos que o tornaram, na década de 50, um grande sucesso de bilheteria, impulsionando outras inúmeras histórias similares. Apesar de tudo, não há como negar que é um filme que envelheceu e hoje se revela até mesmo decepcionante: há falatório demais e pouca ação e o monstro sequer é visto numa tomada mais generosa, além do final medíocre e com vistas a cutucadelas políticas mambembes.

O que nos leva a John Carpenter e seu melhor filme: O Enigma de Outro Mundo (The Thing), a sensacional refilmagem de O Monstro do Ártico que ele rodou em 1982, com o astro Kurt Russel encabeçando um elenco de primeira linha – que inclui um cão Raskie Siberiano que supera todas as expectativas de interpretação. Ao contrário do original, porém, esse filme foi um fracasso total de bilheteria nos Estados Unidos e em quase todos os outros lugares, devido ao fato de ter sido lançado na mesma época de E. T – O Extraterrestre, a babaquice sem tamanho de Steven Spielberg. Na época, os críticos o taxaram como demasiadamente sangrento e sem qualquer presença feminina.

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Depois de uma releitura atenta e a uma descoberta tardia, percebeu-se que Carpenter foi mais fiel ao espírito pessimista e paranoico do conto de John Campbell e criou um dos filmes mais sinistros de todos os tempos, um espetáculo gore poucas vezes visto e sentido, tensão quebra-nervos só comparável a Alien, O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott; quanto à trilha sonora, arranjada pelo mestre Ennio Morricone, eu teria a ousadia de dizer que se enquadra entre as melhores trilhas sonoras já feitas para um filme de horror: não creio ter encontrado com frequência músicas que se encaixem com tamanha perfeição nas imagens como àquelas que são ouvidas neste filme. Efeitos especiais gotejantes de Rob Bottin e claustrofobia congelante do começo ao fim, tudo é muito, muito mórbido e assustador, para ser assistido sozinho, numa dessas maravilhosas madrugadas de inverno, se possível com o som estéreo – generosamente alto. Uma aula de como se fazer um filme de horror verdadeiramente assustador e de como deixar o espectador pregado na poltrona. De tudo, resta uma verdade crua: é muito superior ao original.

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7 Comentários

  1. Assisti ET em 1989, depois de anos aguardando uma oportunidade o exibiram na praça do bairro onde eu morava. Que decepção, foi descobrir um filme chato, lento e desinteressante, e eu aos 13 anos cultuava qualquer filme que tivesse conexão com Spilberg. Passei o resto da vida me sentindo um pária por achar sem graça aquele conto infantil, até hoje quando alguém o adjetivo de “babaquice”. Obrigado por tirar esse peso de minha consciência!

  2. Para mim, O Enigma do Outro Mundo (The Thing) é um dos grandes filmes que assisti.
    Assisti no cinema, com um amigo, meio que por acaso, isto é sem nenhuma informação ou indicação prévia nem planejamento.
    Eu e meu amigo estávamos sem nada pra fazer (nessa época não havia video-games, internet, etc.) e resolvemos pegar um ônibus e ir até a zona sul do Rio, ver o que estava passando nos cinemas de lá. Acabamos parando em um cinema de botafogo (não lembro qual) onde de repente me vi frente a frente com o clássico cartaz de The Thing (na época os cinemas tinham vitrines fechadas por uma porta de vidro onde afixavam os posters promocionais). Lembro como se fosse hoje.
    De imediato achei que seria um boa assistir e meu amigo concordou.
    Compramos o bilhete e entramos . Após os comerciais e trailers o filme começou, e que início!
    O filme te prende desde a primeira sequência e te mantem assim até o final.
    É muito bom quando a gente assiste um filme que se revela espetacular conforme o que vamos descobrindo, assim, ao acaso, sem qualquer spoiler, indicação, etc.

  3. ET É uma babaquice melodramática. Nem deve ser comparado a THE THING já que são filmes dirigidos para público totalmente diferentes. Mas concordo com a babaquice.afinal é Spielberg.

  4. E.T uma babaquice sem tamanho??? Enigma de Outro Mundo é um de meus filmes favoritos e provavelmente é também de qualquer amante de ficção cientifica e terror, e o que você escreveu ai não é novidade pra ninguém, mas pelo jeito você é muito radical no gênero que você gosta, a ponto de escrever uma babaquice desta.

    1. Falou tudo, totalmente desnecessário esse comentário.Além do mais o ano de 1982 foi o ano de muitos clássicos, pouca gente sabe que o Enigma de outro mundo venceu em bilheteria Blade Runner.Eh, Eh!

    2. Concordo. Realmente classificar E.T. como uma “babaquice sem tamanho” foi babaquice.

  5. Um fato interessante e comentado no post , este realmente é um dos poucos filmes que tem uma refilmagem que supera o original.

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