Horror Queer – Parte 4: Anos 1980 – Conservadorismo, AIDS e a incorporação Queer

Parte 4: Anos 1980 – Conservadorismo, AIDS e a incorporação Queer

Os anos 80 foram uma espécie de ponte bizarra para o cinema de terror. Como as pessoas estavam começando a reconhecer a presença de comentários e temas queer em filmes de gênero, uma grande presença cultural (cada vez mais mainstream para as comunidades LGBTQ) tomou conta da grande tela e coincidiu com o surgimento da crise da AIDS e uma onda política conservadora que, gradativamente, afetava a sobrevivência do “monstruoso Movimento Queer”. Personagens gays, lésbicas e trans foram convenientemente alojados como assassinos em filmes como Dressed to Kill (1980), Cruising (1980), Deadly Blessings (1981), The Fan (1981), Heart of Midnight (1988) e muito mais. As curas médicas e psicológicas para a “estranheza gay” tinham tornado-se um pouco déclassé, mas em seu porão secreto A Moral Familiar assegurava que a guerra contra o “monstro queer” seria uma guerra religiosa.

Com a luta pela igualdade em rota de colisão com o apelo dos valores familiares da Era Reagan, a sexualidade (seja a expressão ou a suposta perversão desta) permaneceu ligada à uma imagem de violência assustadora, e a manipulação desta violência gráfica conduzida por cineastas como Tobe Hooper (The Texas Chainsaw Massacre) e Wes Craven (Last House on the Left) tornaram o gênero mais explicitamente cruel e violento do que nunca. Os anos 80 também foi marcado pelo glamour, preparando o palco para um erotismo violento estilizado em filmes como The Hunger e Hellraiser, e vampiros modernos como John Blaylock, de Bowie, David, o vampiro-punk de Kiefer Sutherland, e o sedutor vampiro suburbano Jerry Dandridge, de Chris Sarandon.

Fear No Evil (A Classe do Demônio – 1981)Fear No Evil gira em torno de um adolescente, Andrew Williams (Stefan Arngrim), que descobre ser o Anticristo no seu aniversário de dezoito anos. Aqui a “possessão pelo Mal” é simbolizada pelos desejos desenfreados da adolescência: confusão da libido, mudanças corporais etc, encabeçada pela rixa de amor/ódio de Andrew e o seu nêmesis escolar, Tony (Daniel Eden). Apesar de ter namorada, o personagem de Daniel Éden irradia seus impulsos homo-afetivos sobre Andrew na trama, desde beijos calorosos no banheiro do colégio até uma absurda aparição de seios em seu corpo. Curiosamente, os Arcanjos responsáveis pela destruição do Filho de Satã escolheram corpos femininos para a batalha. Micael escolheu a velha Margaret Buchanan (Elizabeth Hoffman) enquanto Gabriel possuía o corpo da namorada do amigo de Andrew, Julie (Kathleen Rowe McAllen). No final do filme, a Trindade Angelical é finalizada com a adesão do Padre Damon (John Holland), com o espírito do Arcanjo Rafael onde todos batalham com o Anticristo, que aparece magistralmente maquiado no melhor estilo Glam e vestindo uma túnica negra purpurinada. Um luxo.

The Hunger (Fome de Viver – 1983) – Este clássico atemporal nos apresenta Miriam Blaylock (Catherine Deneuve), uma vampira que está perdendo seu companheiro, John (David Bowie como um sonho gótico dos anos 80), que começa a se deteriorar rapidamente. Ao invés de prover seu amado com mais sangue vampírico, Miriam prefere substituí-lo por Sarah, uma jovem cientista interpretada por Susan Sarandon. O trailer anuncia The Hunger como “um clássico moderno de medo perverso”, e mesmo com o passar dos anos continua sendo um dos filmes de vampiro mais estranhos e sexies já produzidos.

Sleepaway Camp (Sleepaway Camp – 1983) – Os filmes de terror dependem de dois elementos básicos: a contagem de corpos e o grande desmascaramento do assassino no final. Apesar de todos os trejeitos de um slasher clássico a trama de Sleepaway Camp atinge seu clímax arrebatador nos momentos finais onde a identidade do assassino é revelada. Sleepaway Camp conta a história de jovens num antigo acampamento chamado Camp Arawak. Angela (Felissa Rose) e seu primo Ricky (Jonathan Tiersten) foram mandados por um excêntrica tia para esse acampamento onde a garota vive sofrendo bullying. Traumatizada com a morte de seu pai, que era homossexual, e de seu irmão, Peter, numa tragédia de lancha há 8 anos, Ângela tenta sobreviver ao inferno adolescente que reina à sua volta enquanto ainda luta para aceitar as mudanças que estão ocorrendo em seu corpo. Agora some tudo isso com uma trilha de corpos dilacerados e o plot twist com a aparição fenomenal do assassino serial transgênero mais assustador dos Anos 80…

Sleepaway Camp (1983)
Um Surpreendente Slasher de Acampamento

The 4th Man (O Quarto Homem – 1983) – Este foi o último filme de Paul Verhoeven na Holanda antes de ser enviado para Hollywood e começar a fazer clássicos de ficção científica. Gerard Revê (Jeroen Krabbé), um escritor bissexual e alcoólatra, acaba se envolvendo com Christine (Renée Soutendijk), uma loira sedutora, mas acaba se apaixonando pelo namorado dela, Herman (Thom Hoffman). Tudo isso parece ser absolutamente comum até a Virgem Maria aparecer para Gerard em um sonho, avisando-o para ficar longe de Christine, já que ela pode ser uma assassina serial.

Nightmare on Elm Street Part 2: Freddy’s Revenge (A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy  – 1985) – Freddy’s Revenge é um raro slasher que nos apresenta um Final Boy ao invés de uma Final Girl. Seu herói, Jesse Walsh (Mark Patton, que estava no armário na época) é comumente identificado como um gay reprimido adolescente. Chamar isso de subtexto seria generoso, especialmente quando Jesse acaba confrontando seu viril professor de ginástica em um bar gay e a abundante aparição de fatores queer no decorrer do filme. Como o próprio Patton disse ao BuzzFeed, “Isso se tornou inegável. Quero dizer, quando estou vendo diários deitado na cama como uma Pietà e as velas estão pingando cera branca e se curvando como falos… É como se eu estivesse no centro de um – como eles chamam? – um bukkake”. O roteirista (assumidamente gay) David Chaskin passou anos negando o “subtexto homoerótico” de seu filme, mas acabou por assumir décadas mais tarde.

Fright Night (A Hora do Espanto – 1985) – Quando o belo vampiro Jerry Dandridge (Chris Sarandon) se muda para um bairro periférico, o garoto Charley Brewster (William Ragsdale) fica tão obcecado em saber mais sobre ele que começa a ignorar completamente sua namorada, Amy (Amanda Bearse). E como o vampirismo sempre foi um concreto avatar para personagens queer, Jerry e seu criado Billy (Jonathan Stark) realmente fingem ser um casal gay para enrolar os vizinhos. É o caso básico do gay como um “monstro disfarçado” para fazer com que as pessoas confiem nele.

Witchboard (Espírito Assassino – 1986) – Witchboard é um filme de terror sobre um tabuleiro de jogo Ouija demoníaco e se concentra no envolvimento de dois melhores amigos que não têm sido tão próximos. Desde que Jim Morar (Todd Allen) se apaixonou pela ruivíssima Linda Brewster (Tawny Kitaen), ex-namorada de Brandon Sinclair (Stephen Nichols), a amizade antiga dos dois desmoronou e nada melhor do que uma sessão espírita para ajudar os três jovens, não é mesmo? Mas à medida que a história se desdobra e o jogo se torna uma ameaça, fica claro que a verdadeira história de amor de Witchboard gira em torno dos amigos afastados. É um daqueles filmes em que a tensão é tão óbvia que você começa a gritar “SE BEIJEM!” na tela.

The Lost Boys (Os Garotos Perdidos – 1987) – O cinema de terror apresentou muitos vampiros gays, a maior parte a serviço do olhar masculino, mas Garotos Perdidos ampliou este leque de maneira absurda. O pioneiro da “iluminação bissexual” Joel Schumacher dirigiu este filme sobre os irmãos, Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim), que se mudam para uma cidade pequena, onde Michael é atraído por uma gangue de vampiros liderada por David (Kiefer Sutherland). Seu clã parece ter sido puxado diretamente de uma loja de artigos de couro e jogado em um show do Poison, com seus cabelos arrepiados e adornos andróginos (delineador, brincos, tops etc). E mesmo que a atração de Michael seja por Star (Jami Gertz), a única garota do grupo, é David quem pergunta a ele: “Até que ponto você está disposto a ir, Michael?”

Hellraiser (Hellraiser: Renascido do Inferno – 1987) – Os cenobitas podem ser vilões, mas eles também são um grupo de entusiastas do couro que convidam heterossexuais para se juntarem a eles em masmorras, onde podem explorar novas alturas de prazer potencial se estiverem dispostos a se “libertarem”. O enredo de Hellraiser diz respeito a Frank Cotton (Sean Chapman), um hedonista que fez “pequenos favores” para colocar as mãos em um estranho quebra-cabeça que contém a melhor experiência sexual de prazer e dor. Clive Barker, gay assumido desde os seus 18 anos, criou toda a atmosfera do seu filme baseada nos clubes noturnos de BDSM londrinos e em algumas vivências suas.

FONTES:

Wikipedia – Queer Horror
Vulture – 50 Essential Queer Horror Films
Wussymag – Haunted: The intersections of queer culture and horror movies
Dazed – Queer horror: a Primer
Monsters in the Closet: Homosexuality in the Horror Film (Harry M. Benshoff – 1997)
New Queer Cinema: The Director’s Cut (Ruby Rich – 2013)
Uninvited: Classical Hollywood Cinema and Lesbian Representability” (Patricia White – 1999)

A SEGUIR…

Anos 90 – Novo Cinema Queer e Papais-Vampiro Gays

Leia também:

Parte III: Anos 70 – Vampiras lésbicas e criaturas bissexuais

Parte II: Os Anos 50 – Monstros cafonas e mais subtextos queer

Parte I: Horror Queer – Quando o medo é a baixa representatividade

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Iam Godoy

Iam Godoy

Escritor, colunista, fotógrafo, libertino, subversivo e um porra-louca sem noção do perigo. Comanda desde 2013 o site Gore Boulevard, antro de clássicos e bagaceiras sangrentas.

Um comentário em “Horror Queer – Parte 4: Anos 1980 – Conservadorismo, AIDS e a incorporação Queer

  • 30/09/2019 em 17:44
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    Estes artigos da cultura queer salvam minha semana <3

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