Depois de 23 primaveras, será que Olhos Famintos ainda assusta?

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Quando você ouvir a música “Jeepers Creepers“, provavelmente também estará gritando de dor como parte de um cenário apavorante. Uma ideia apresentada pela vidente Jezelle Gay Hartman (Patricia Belcher) para relatar seus pesadelos premonitórios e servir de alerta para os irmãos Trish (Gina Philips) e Darry (Justin Long), marcados por uma criatura voraz, na melhor criação do polêmico cineasta Victor Salva. Olhos Famintos (Jeepers Creepers, 2001) teve seu roteiro escrito em apenas um mês, com inspiração declarada em Encurralado (Duel, 1971), de Steven Spielberg, e também A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968), embora o enredo traga semelhanças com o que testemunharam os irmãos em Ray e Marie Thornton após flagrarem o assassino Dennis DePue desovando o corpo de sua esposa morta em uma escola abandonada. O longa estreou nos cinemas brasileiros em 15 de novembro de 2001, quando o site Boca do Inferno tinha apenas seis meses de existência.

Na época, fiz uma resenha bem mal escrita em que dei apenas duas caveiras à produção pelo fato dela não ter um final. Na verdade, a produção realmente sofreu cortes de financiamento e muitas das cenas idealizadas nem sequer foram filmadas – algumas apareceram em Olhos Famintos 2 (Jeepers Creepers 2, 2003), realizado com mais recursos -, mas visto e revisto inúmeras vezes percebe-se que há uma conclusão pessimista ali e um enredo que poderia ser dividido em duas partes, ora funcionando como um road movie ao estilo Perseguição – A Estrada da Morte (Joy Ride, 2001), em que dois jovens se veem perseguidos por um psicopata de estrada, ora como um longa que apresentou um monstro capaz de repor partes de seu corpo a partir das pessoas das quais se alimenta. Ambas funcionam muito bem, incluindo seu final que poderia ser comparado ao claustrofóbico Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13, 1976), de John Carpenter.

A esta altura do campeonato a trama já é conhecida pelos fãs de horror de cor e salteado, mas sempre vale a pena lembrá-la. Os tais irmãos estabelecem uma empatia com o espectador em sua viagem pela estrada, no início das férias da faculdade. A química se constrói naturalmente entre as brincadeiras de formular o perfil dos motoristas a partir da placa de seus veículos e discussões sobre relacionamento e cuidado com a mãe. Eles até antecipam uma informação que terá fundamento posteriormente sobre o desaparecimento de dois estudantes da mesma universidade deles, sendo que um teve a cabeça arrancada e depois teria também sumido. Incomodados pelo motorista de um caminhão de pequeno porte, velho e com a identificação BEATINGU (“batendo em você“), logo eles presenciam o momento em que o motorista despeja dois corpos, envolvidos em panos manchados de sangue, em um cano que dá acesso ao chão, ao lado de uma velha igreja.

Depois que o motorista passa por eles na estrada, novamente assustando-os, Darry sugere a Trish que retornem para a tal igreja para investigar o que podem ter visto. Mesmo a contragosto, ela concorda de voltar ao local, repleto de corvos, com a insistência de seu irmão culminando em sua queda pelo cano até um ambiente tétrico, com cadáveres costurados um ao outro, presos à parede na expressão congelada da dor. O horror testemunhado por Darry o deixa catatônico, psicologicamente perturbado, enfrentando a descrença de Trish quando resolvem buscar ajuda numa loja de conveniência. É no local que receberão o telefone de Jezelle, já antecipando um encontro com gatos e a voracidade da besta que os persegue: a cada 23 anos, durante 23 dias, ele se alimenta.

A ajuda policial não terá grande força porque o monstro irá promover novos ataques, devorando línguas, e evidenciando sua capacidade olfativa e de reconstrução de seu corpo, mesmo após constantes atropelamentos. Salva vai aos poucos apresentando o vilão, dando lhe mais visibilidade, enquanto confunde o espectador sobre sua natureza sobrenatural: ao mesmo tempo em que voa e se reconstrói, ele também se parece com um humano, podendo até mesmo dirigir um caminhão. E quando o público se vê cada vez mais envolvido com o enredo e querendo saber mais sobre o tal “Jeepers Creepers“, a produção, sob o investimento de Francis Ford Coppola, chega ao seu final de maneira amarga, crua e fria.

Talvez seja essa interrupção, mesmo que não tão abrupta, que tenha me incomodado em 2001. Olhos Famintos soube explorar suas influências – não são clichês – de maneira a construir um pesadelo de uma única noite, movimentado entre vários cenários. Foi o despertar de um monstro contemporâneo, figurando ao lado de Victor Crowley e até Annabelle, dentre as assombrações que ajudaram a construir o cinema de horror após os anos 2000. Rever o filme permite um reencontro com essa criatura que ainda foi bem vista na primeira continuação e depois esteve em outros dois filmes bem ruins, que descartaram sua essência criativa para apostar em personagens idiotas e efeitos ruins. Também vale a pena assistir às cenas deletadas, disponíveis no youtube (vide abaixo), como a que mostra a criatura falando por ter comido a língua do policial, além de um final alternativo.

O primeiro Olhos Famintos envelheceu bem. Continua interessante acompanhar a jornada curta de dois irmãos no combate a um demônio diferente de tudo o que o cinema já mostrou antes. Descarte as partes 3 e 4 e redescubra esse terror que está completando 23 primaveras!

23 Coisas que Você Talvez Não Saiba sobre Olhos Famintos 1 e 2

Jonathan Breck, que interpreta a criatura, aparece sem maquiagem como o policial careca da cena final, na delegacia.

– O diretor Victor Salvainterpreta” um dos cadáveres no subsolo da igreja.

– Os atores Gina Phillips e Justin Long não viram Jonathan Breck maquiado como a criatura até filmarem a primeira cena com ele.

– Salva declarou que o final, com o massacre na delegacia, só existe porque ele não tinha dinheiro para concluir a história do jeito que queria.

Justin Long vestiu a roupa da criatura em duas cenas no final, quando o ator Jonathan Breck estava indisposto.

– Depois dos créditos finais, há uma rápida cena do caminhão, dirigido pela criatura, passando por uma estrada enquanto o sol se põe, como se querendo passar a ideia de que ela continuará atacando impunemente.

– Por sinal, o caminhão conduzido pelo monstro é sumariamente esquecido na parte 2, onde a criatura limita-se a ficar voando o tempo todo.

– O detalhe da música “Jeepers Creepers” tocar a cada ataque da criatura também foi “esquecido” no segundo filme.

Lance Henriksen era a primeira escolha do diretor para viver a criatura.

– O diretor Salva foi preso por abusar do garotinho Nathan Forrest Winters, que dirigiu no filme Palhaço Assassino (Clownhouse), de 1988. Em decorrência de seu crime, há países em que o diretor não pode visitar.

Olhos Famintos teve um final alternativo filmado, mas não aproveitado. Nele, depois da criatura conseguir o que queria, a tela escurecia e cortava para um casal de adolescentes, interpretados pelos mesmos atores principais. A história do filme estava sendo contada pelo rapaz à garota, mas ela não acredita nele. Então eles pedem carona na estrada e acabam entrando no caminhão usado pela criatura. Antes da tela escurecer novamente, a garota ligava o rádio do caminhão e começava a tocar a música “Jeepers Creepers“. Essa cena acabou fazendo parte do quarto filme.

– Entre as cenas filmadas, mas deixadas de fora da edição, a criatura falava! No vídeo abaixo, você confere diversas cenas deletadas do filme original, incluindo a fala da criatura. Você pode vê-la aos dez minutos.

Gina Philips desistiu de reprisar seu papel na continuação, mas Justin Long topou aparecer nos sonhos da jovem vidente. Depois ela voltaria em poucos momentos no terceiro filme.

– O diretor Victor Salva fez uma pequena participação na parte 2, mas como não há muitos figurantes em cena, seu rosto pode ser visto rapidamente numa revista quando a criatura avança para o teto do ônibus.

Meat Loaf foi primeiramente considerado para o papel do motorista do ônibus.

Victor Salva se arrependeu de escrever a regra sobre a criatura se alimentar durante 23 dias a cada 23 primaveras, pois acabou dificultando para a realização da continuação. Sem saber como pensar no segundo filme, Francis Ford Coppola sugeriu que o longa se passasse ainda entre os 23 dias do ataque do primeiro. Assim, Olhos Famintos 2 se passa no dia 23, também com o propósito de não produzir mais continuações.

– O diretor pensou em cortar a cena em que a criatura fareja os jovens pela janela do ônibus por considerá-la cômica, destoando do tom do filme. Mais tarde, ele disse que ficou feliz em não tê-la cortado, já que passou a ser uma das preferidas do público.

– A frase no carro do Taggart, “Eu não sou um completo idiota. Algumas partes estão faltando.“, foi escolhida por conta da criatura só devorar algumas partes de suas vítimas.

– No primeiro roteiro de Olhos Famintos 2, o enredo se concentraria em Trish e Jezelle caçando a criatura, tendo o ônibus apenas como subplot. Mas, à medida em que escrevia, Salva começou a achar a parte do ônibus escolar mais interessante e resolveu descartar a proposta inicial.

– Na cena em que Izzy, Double D e Rhonda tentam escapar da criatura para a caminhonete exterminadora, Izzy (Travis Schiffner), acidentalmente, coloca o veículo em movimento antes de saltar. Segundo o ator, isso não estava no roteiro, mas a cena ficou tão boa que acabou sendo mantida.

– Inicialmente o longa teria o subtítulo “Like A Bat Out Of Hell“. A frase acabou sendo parcialmente usada na sequência final, no museu de exibição da criatura.

– Uma cena que chegou a ter seu storyboard, mas não foi finalizada, envolve a fuga dos jovens do ônibus. Eles chegariam a um bunker militar, com corpos de vítimas similar ao da Igreja do primeiro filme. Lá, eles tropeçariam na criatura que no momento estaria se alimentando de um dos atletas.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

7 thoughts on “Depois de 23 primaveras, será que Olhos Famintos ainda assusta?

  • 19/05/2024 em 03:05
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    Se o diretor não fosse um pedófilo, os dos primeiros filmes seriam considerados clássicos de terror modernos e a criatura ícone como Jason Voorhees e Freddy Krueger.

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  • 30/04/2024 em 21:08
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    Foi um dos filmes mais tensos que já vi em toda minha infância, lembro de quando ele foi exibido na Rede Globo. Eu cagava de medo! Mas tenho que confessar que apesar das críticas sobre a produção e o orçamento curto, eu acabei meio que gostando do primeiro filme. Isso sem falar que ele teve como base inspiração em filmes de terror consagrados como afirma o texto escrito acima. As vezes me dá uma baita nostalgia de querer assistir ele outra vez, quem sabe num hora dessas eu mate as minhas saudades?

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  • 30/04/2024 em 16:47
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    Não digo que me assusta, mas é um filme que dá uma certa tensão assistindo. O fato de quase tudo ocorrer à noite é melhor ainda. A parte da velha dos gatos é um dos melhores momentos de um filme do gênero suspense/terror que eu já vi.

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  • 30/04/2024 em 13:17
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    Victor Salva estragou tudo com as suas polêmicas na vida pessoal. Graças a isso a franquia nunca mais foi a mesma depois do segundo filme e ficamos sem um final apropriado pra franquia.

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  • 30/04/2024 em 12:44
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    Eu vi Olhos Famintos apenas um punhado de anos depois que foi lançado. Infelizmente com a expectativa elevada porque todo mundo falava do filme e quando finalmente assisti, me decepcionei um bocado. A mesma experiência que tive com O Albergue e Casa de Cera, hehehe!

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  • 29/04/2024 em 20:49
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    O primeiro Olhos Famintos é um dos melhores terror dos anos 2000 fácil fácil. Original, tenso, assustador e dramático na mesma medida.

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    • 01/05/2024 em 13:41
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      A cena do bunker militar deveria ter sido mantida seria inevitável ver a criatura se alimentando de alguém, Fora que daria um tom mais brutal ao longa que em si só já é cheio de cenas de bizarras olhos famintos 2 e uma continuação muito boa .

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