No Silêncio das Trevas (1945)

No Silêncio das Trevas (1945)

No Silêncio das Trevas
Original:The Spiral Staircase
Ano:1945•País:EUA
Direção:Robert Siodmak
Roteiro:Mel Dinelli, Ethel Lina White
Produção:Dore Schary
Elenco:Dorothy McGuire, George Brent, Ethel Barrymore, Kent Smith, Rhonda Fleming, Gordon Oliver, Elsa Lanchester, Rhys Williams, James Bell

Clássico do suspense e mistério, bem no estilo “whodunnit?” (“quem matou?” numa tradução livre) que tanto fez a fama de gente como Agatha Christie e Edgar Wallace, e que adianta aqui algumas ideias que mais tarde seriam usadas tanto no giallo italiano quanto no slasher norte-americano. Claro que como se trata de um produto hollywoodiano dos anos 40 o resultado final é muito mais brando que o tratamento tresloucado que acabou sendo dado posteriormente pelos dois subgêneros supracitados. E o mais interessante: antecipa até mesmo alguns temas que acabaria sendo explorado mais tarde até por Hitchcock. Curiosamente reza uma lenda que esse filme teria sido escrito para ser dirigido pelo mestre do suspense, que recusou, preferindo realizar o clássico Quando Fala o Coração, um dos primeiros filmes psicanalítico da história do cinema.

Ao contrário do que muitos pensem a respeito de produções antigas, aqui não há maiores enrolações, a trama se passa numa única noite de tempestade, numa pequena cidade interiorana dos Estados Unidos do começo do século passado que está em polvorosa graças a um serial killer que está matando mulheres com deficiências físicas. Já na abertura acompanhamos um grupo de cidadãos assistindo uma típica sessão de um filme mudo (a obra em questão é The Sands of Dee de D. W. Griffith), paralelo a isso vemos uma moça manca num quarto no andar de cima do mesmo prédio que está se preparando para dormir, mas o público sabe que há mais alguém ali a espreita. No momento em que ela coloca a camisola para dormir vemos apenas suas mãos levantadas e o tal vestuário deslizar por seus braços. Logo suas mãos começam a se movimentar de forma a entrar em convulsão; corta a cena e vemos um trecho do filme assistido no teatro com um homem tirando no colo uma mulher inerte das águas, ou seja, apenas com sugestões temos uma mostra primorosa de um assassinato!

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Depois a história se fixa na figura de Helen (a bela Dorothy Mcguire em um papel que quase foi para Joan Crawford) uma garota muda, por causa de um trauma do passado, que trabalha de empregada para uma velha ranzinza (Ethel Barrymore, do clã Barrymore, irmã de John e Lionel, tia-avó da Drew Barrymore) que mora com outros empregados, entre eles a secretária Blanche (Rhonda Fleming, que no mesmo ano tinha trabalhado no já citado Quando Fala o Coração) e seus dois filhos: o simpático Prof. Warren (George Brent) e o cafajeste Steven (Gordon Olivier, que em alguns momentos lembra uma versão jovial do George W. Bush). Logo após a fatídica sessão de cinema nossa heroína vai para a casa de sua patroa – óbvio que o assassino está à espreita; óbvio também que ele tentará a todo custo matá-la.

Embora o roteiro escrito por Mel Dinelliseja baseado numa novela de Ethel Lina White chamada “Some Must watch“, o filme se apropria de um título de um livro de autoria da escritora Mary Roberts Rinehart (a autora policial criadora do vilão “The Bat/o Morcego”). E teve outras versões, sendo duas, direto para tv, uma para o cinema, sem contar as adaptações para as novelas de rádio (uma foi realizada apenas algum tempo depois do filme, utilizando os próprios atores). Com uma direção inspirada do diretor alemão Robert Siodmak, que embora tenha trabalhado em diversos gêneros também teve destaque dentro do cinema fantástico assim como seu irmão Curt Siodmak, também diretor e roteirista. A biografia dos dois somados perfazem uma boa porcentagem da história do cinema fantástico norte-americano. Quanto a direção de Robert, ela é fluida, beirando o sublime em alguns momentos, tirando o máximo da hoje desgastada fórmula do casarão em meio a uma tempestade noturna, abusando do clima e chegando a ser poético em alguns trechos (como na sequência em que Helen chega na casa acompanhada de longe pelo vulto do assassino). Boa parte disso se deve a bela fotografia em preto-e-branco de Nicholas Musuraca..

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Detalhe: nas cenas em que vemos os closes dos olhos e mãos do assassino, são as mãos e olhos do próprio diretor. Décadas depois Dario Argento usaria expediente similar: todas as mãos de assassinos que vimos nos filmes dirigidos pelo italiano são deles mesmo.

Os mais escolados em tramas de mistério pode até facilmente descobrir a identidade do assassino, mas isso não tira o charme da produção, que conta também com um ótimo elenco (que inclui a mítica Elsa Lanchester, interpretando uma empregada alcoólatra).

Como afirmei anteriormente o filme antecipou algumas coisas: como o misterioso assassino de luvas de couro preta como no giallo, a motivação envolvendo traumas infantis como em Psicose, assim como a utilização quase fetichista da escada em espiral antecipando outra obra do velho Hitch: Um Corpo que Caí.

Embora a utilização de escadas e espelhos recorrentes aqui, assim como as sombras que perpassam toda a obra, nos remetem também ao bom e velho expressionismo alemão (o que não é de se espantar visto a nacionalidade do diretor). Há uma cena curiosa em que a mocinha muda se vê no espelho sem saber que está sendo espionada pelo criminoso; daí pela visão distorcida do psicopata vemos a imagem refletida da moça, um rosto literalmente sem boca! O que me lembrou de imediato uma cena de um dos meus filmes preferidos: Um Chien Andalou do mestre Luis Buñuel.

E perto da conclusão temos uma ótima cena de assassinato coberto pela escuridão das sombras. Outro paralelo interessante: a fixação do assassino em limpar a sociedade dos “imperfeitos” me lembrou os programas de “saneamento” de um tal Adolf Hitler.

Enfim The Spiral Starcaise é daquelas obras que não perderam seu encanto e que contém méritos suficientes para deixá-lo preso na poltrona e que merece ser redescoberta. Volto a repetir: um clássico do suspense. Indiscutivelmente.

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Paulo Blob

Paulo Blob

Nascido em Cachoeirinha, editou o zine punk: Foco de Revolta e criou o Blog do Blob. É colunista do site O Café e do portal Gore Boulevard!

Um comentário em “No Silêncio das Trevas (1945)

  • 06/03/2014 em 20:45
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    primeira foto:hello kitty é vc hahaha……….

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