O Labirinto do Fauno (2006)

O Labirinto do Fauno
Original:El Labirinto del Fauno
Ano:2006•País:México, Espanha, EUA
Direção:Guillermo del Toro
Roteiro:Guillermo del Toro
Produção:Álvaro Augustín, Alfonso Cuarón, Bertha Navarro, Guillermo del Toro, Frida Torresblanco
Elenco:Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú, Ariadna Gil, Doug Jones, Álex Angulo, Roger Casamajor, César Vea, Fernando Albizu, Chicho Campillo, Juanjo Cucalón, Mila Espiga, Íñigo Garcés, María Jesús Gattoo, Sebastián Haro, Eusebio Lázaro, Mina Lira, Federico Luppi, Chany Martín

O Cinema Fantástico de Língua Espanhola é bastante vasto e diversificado em sua produção. Além da Espanha, que tem nomes famosos como Paul Naschy, Armando de Ossorio, Jorge Grau, Jesus Franco, Nacho Cerdà e Alex De La Iglesia, podemos observar um grupo de autores de muito talento em países como a Argentina, o Chile e principalmente o México, que deu ao mundo diretores como Juan Lopez Monctezuma, Alejandro Jodorowsky e Guillermo del Toro. Tradições literárias, o folclore mesclado e o grande público consumidor fazem dos países latinos grandes fornecedores de imagens singulares ligadas ao Cinema Fantástico.

O nome que atualmente mais se destaca em produções que possuem um violento e arrebatador impacto visual é o do mexicano Guillermo del Toro. Filmes como Mutação, A Espinha do Diabo, Blade 2 e Hellboy são grandes exemplos dessa criação de um mundo onde as imagens tem uma força que se sobrepõem às palavras.
Em A Espinha do Diabo, Del Toro ambienta uma história sobre fantasmas e monstros de carne e osso, em um orfanato isolado na Espanha do auge da Guerra Civil. Os horrores do Regime Fascista do General Franco circulam as personagens do filme cuja trama central está centrada na relação entre um órfão e o fantasma de um menino que foi brutalmente assassinado.

Em O Labirinto do Fauno, 2006, Del Toro retoma essa temática política voltando a filmar um projeto na sua língua, o espanhol, após grandes produções de Hollywood onde adaptou para a telona os modernos mitos das histórias em quadrinhos. Agora o diretor busca uma mitologia clássica: a Grega. O Labirinto e o Fauno são transportados pelo diretor para a Espanha de 1944, em meio a sangrenta Guerra Civil Espanhola. Vemos uma menina desabrochando para a adolescência: Ofélia, interpretada pela talentosa Ivana Baquero. Ela se muda com a mãe e o padrasto, um cruel capitão fascista interpretado pelo carismático Sergi López, em uma performance que lembra a figura do psicótico oficial nazista de A Lista de Schindler. O sadismo desse capitão já fica claro numa das primeiras sequências do filme onde ele, em um interrogatório, esmaga a cabeça de um homem com uma garrafa.

O filme abre com imagens oníricas onde se ouve a voz em off de um narrador, como se estivéssemos o tempo todo vendo uma fábula a se desenrolar diante de nós. Muitos aspectos estético-narrativos são importantes em O Labirinto do Fauno: os dois mundos, o real e o imaginário, estão bem demarcados no filme com intensidades dramáticas muito específicas. O Mundo Real é marcado de cenas fortes de violência com direito a tortura, sadismo, hemorragias, mandíbula rasgada e posteriormente costurada e muitos tiros. O Mundo Imaginário vivido por Ofélia é marcado por descobertas muito intensas que começam a acontecer quando ela entra no Labirinto do Fauno, guiada por um misterioso inseto. O encontro com o Fauno e sua fantástica caracterização lembra muitos encontros de Contos de Fadas como os da Bela e a Fera e de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo, todos com um implícito conteúdo erótico. A transformação de um repelente louva-deus em uma fada lembra o encontro de Wendy com a Fada Sininho de Peter Pan, sem contar as leituras mais diretas e referentes como Alice no País das Maravilhas e As Mil e Uma Noites, com as referências contidas nas palavras do Fauno que afirma ser Ofélia uma Princesa do Mundo Subterrâneo.

Ofélia deve cumprir missões mágicas para se salvar da violenta realidade que a cerca. Em meio a essas provas ela tem um nojento encontro com um sapo gigantesco e, com um giz mágico, entra em um mundo habitado por um monstro surrealista com unhas afiadas e olhos nas mãos, que proporciona ao espectador uma das mais originais sequências da História do Cinema Fantástico, com uma composição e finalização impressionantes.

O trabalho do Diretor de Fotografia, Guillermo Navarro, em O Labirinto do Fauno é primoroso. Ele consegue criar texturas e tensões cromáticas variadas e perfeitamente colocadas em cada situação do filme, seja em uma cena de um jantar, seja em uma cena de horror extremo e tortura, seja em uma cena puramente surrealista, ele cria atmosferas que muitas vezes se aproximam do virtuosismo da Pintura Barroca.

Ao explorar o Horror Cinematográfico e o Drama Histórico misturando-os com o universo infantil, Del Toro vai pelo mesmo caminho que consagrou cineastas como Dario Argento, em filmes como Suspiria. O Labirinto do Fauno não é um filme para crianças, e, sim, para adultos – que isso fique bem claro! Em sua mistura bem dosada de horror, fantasia, drama histórico, o diretor criou uma obra que pode ser apreciada tanto pelos fãs mais ardorosos e exigentes do Cinema Fantástico, para os que curtem cenas sangrentas e bem elaboradas artisticamente e também pelos apreciadores do denominado Cinema de Arte Europeu.

Talvez esse seja o mais pessoal dos filmes de Guillermo Del Toro. Sequências formidáveis surgem e se destacam além das já citadas. A criada segurando uma faca afiada enfrentando um grupo de soldados montados em cavalos no meio do bosque é sensacional, de uma força digna de uma heroína de Lorca, lembrando também a trágica figura feminina de Ana e os Lobos de Carlos Saura, um dos filmes mais sombrios e violentos desse veterano diretor espanhol, do qual podemos também citar Cria Cuervos, e continuando no Cinema Espanhol, O Espírito da Colméia, uma obra-prima que dialoga de maneira muito próxima com O Labirinto do Fauno.

Uma das últimas cenas trava um sutil diálogo com uma das iniciais de Hellboy em um circular/geométrico caminho onde o sangue se mescla com o cenário. Del Toro criou um filme de muitas intensidades de emoção, deslumbramento e horror, que não deixará nenhum espectador indiferente após ver extasiado os créditos finais subindo pela tela de cinema enquanto as imagens poderosas do filme fervilham em sua cabeça. Dificilmente O Labirinto do Fauno ficaria de fora das listas dos Melhores de 2006. Para mim, ele acabou desbancando O Abismo do Medo, Terror em Silent Hill e Viagem Maldita, que ao lado de Taxidermia, formam meu TOP 5 do Cinema Fantástico 2006.

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Marcelo Carrard

Marcelo Carrard

Marcelo Carrard é Jornalista, Pesquisador e Crítico de Cinema e Editor do Blog: Nudo e Selvaggio.

Um comentário em “O Labirinto do Fauno (2006)

  • 13/04/2019 em 21:30
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    Em minha opinião, a obra prima de Del Toro, perfeito em todos os aspectos!

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