Cemitério Maldito (2019)

Cemitério Maldito
Original:Pet Sematary
Ano:2019•País:EUA
Direção:Kevin Kölsch, Dennis Widmyer
Roteiro:Matt Greenberg, Jeff Buhler, Stephen King
Produção:Mark Vahradian, Steven Schneider, Lorenzo di Bonaventura
Elenco:Jason Clarke, Amy Seimetz, Jeté Laurence, John Lithgow, Hugo Lavoie, Lucas Lavoie, Obssa Ahmed, Alyssa Brooke Levine, Maria Herrera, Frank Schorpion

Trinta anos se passaram desde que Dale Midkiff atravessou uma estreita passagem de tijolos e o cemitério dos animais com o pequeno Gage sem vida. Desde então, havia um consenso entre os fãs de Stephen King que o filme Cemitério Maldito (1989) pode ser considerado uma das grandes adaptações do autor, fiel ao texto original e até melhor do que o livro. Mary Lambert tornou-se uma referência no gênero ao assumir a direção de um roteiro de King e fazer um trabalho digno, com passagens assustadoras e a incrível interpretação de Miko Hughes, como um terrível garoto perturbado durante seu descanso. Depois a cineasta, com especialidade em clipes e curtas, faria uma continuação bastante inferior e produções ruins, comprovando que o longa era sua única aposta no cavalo certo.

A refilmagem era um processo inevitável. Com tantos remakes de produções consideradas boas – muitas vezes disfarçados de reboots -, era evidente que haveria uma volta ao cemitério dos bichos. A Paramount demonstrou interesse em março de 2010, já com a indicação de que Matt Greenberg desenvolveria o roteiro, uma vez que ele havia feito bons trabalhos com 1408 e Pacto Maligno, e poderia dar um sangue novo ao livro. Depois, somente em 2017, veio o nome de Jeff Buhler (Maligno, 2019) também para trabalhar no roteiro, e a oficialização de dois diretores, Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (do ótimo Starry Eyes e da série Scream), com as filmagens começando em junho de 2018.

Com um orçamento estimado em $21 milhões, a refilmagem foi bem nas bilheterias, principalmente nos EUA e no Canadá, chegando já à marca de $110, o que mostra o interesse do espectador pela proposta. A Paramount fez um belo trabalho de divulgação, com pré-estreias que incluíram até mesmo o gato Church entre os presentes, tanto que não sofreram com a chegada de Shazam! e Vingadores: Ultimato. Com boas críticas da imprensa internacional e algumas boas considerações entre os sites brasileiros, vem a pergunta: vale a pena conferir essa refilmagem nos cinemas? A resposta pode ser tanto positiva quanto negativa, dependendo do que se espera. Entre as boas novas, pode-se dizer que o roteiro faz seu próprio percurso para o lugar maldito, apenas mantendo a principal linha narrativa, como uma nova obra inspirada no livro de Stephen King. Por outro lado, há algumas escolhas equivocadas, sobre as quais falarei mais adiante.

O longa já começa de maneira diferente do original. Não há um passeio pelas covas dos animais, nem a voz de crianças se despedindo de seus bichinhos; apenas um cenário de morte: um veículo parado, com a porta aberta, e um rastro de sangue a partir da entrada da casa. Esse mesmo carro é visto chegando até a nova morada dos Creeds, com a mesma perspectiva de uma vida diferente pelos futuros residentes. Um caminhão em alta velocidade destrói o momento família, já antecipando ao infernauta uma tragédia iminente. O Dr. Louis (Jason Clarke) está empolgado com a mudança de Boston para Ludlow, no Maine, como o principal médico da cidade. Traz consigo a esposa Rachel (Amy Seimetz), os filhos Ellie (Jeté Laurence) e o pequeno Gage (muito parecido com Miko Hughes, e interpretado pelos gêmeos Hugo e Lucas Lavoie), além do gato Church.

A curiosa Ellie testemunha uma procissão infantil, com crianças vestindo máscaras de animais e carregando um cachorro morto até um local, onde a placa anuncia “Pet Sematary” – numa situação que não tem no original e remete ao clássico O Homem de Palha. No cemitério, a pequena conhece o vizinho Jud Crandall (John Lithgow), que faz um alerta sobre os perigos da região, principalmente quando a menina se machuca. No filme de 89, Jud surge para salvar Gage de um possível atropelamento, conquistando a família logo de início; o novo Jud demora um pouco mais.

Em seu primeiro dia de trabalho, com a intenção de encontrar atendimentos mais tranquilos na cidade pequena como sangramentos nos narizes, Louis se vê diante de um garoto, Victor Pascow (Obssa Ahmed), vítima de um atropelamento. Como no original, com a cabeça estourada que “permite ver o cérebro“, o garoto, dado como morto, alerta o médico sobre as decisões erradas que terá. Ele terá outras aparições no decorrer do longa, mas não tão exageradas como no filme de 89, que chegava a lembrar o fantasma de Jack Goodman (Griffin Dunne) em Um Lobisomem Americano em Londres (81), um dos acertos da produção. É esse garoto que levará Louis para um passeio noturno e o avisará para não transpor a barreira, onde o “solo é azedo.

Durante o Halloween, ignorado no original, Church será encontrado morto, vítima de atropelamento. Jud, então, sabendo do carinho de Ellie pelo animal, convidará Louis para uma visita ao cemitério que se esconde atrás da barreira de galhos, sem explicar a razão para isso. A fotografia, a cargo de Laurie Rose, pode ser enaltecida no caminho até o cemitério indígena, assim como um rugido monstruoso que permite a imaginação do infernauta de criar uma jornada ao inferno. O percurso não é tão distante quanto o do filme original, mas apresenta um ambiente assustador que combina com a atmosfera proposta, envolvendo a volta dos mortos. Como é de se esperar, o gato retornará em uma versão agressiva, incômoda, tanto que a própria dona dele pedirá que ele se afaste. Sua aparição no closet é bem interessante, assim como seu visual de pelos desgrenhados, secos, e o cheiro de morte. Ainda assim, gosto mais do bichano de 89, com quem usaram o recurso de iluminação do olhar felino.

A nova versão faz um caminho bastante diferente do que se imagina. A principal delas – e não é spoiler porque já mostrava no trailer – é a escolha da criança que irá morrer atropelada e motivar Louis a tentar trazê-la de volta. Mesmo com a semelhança incrível dos irmãos Lavoie com o pequeno e talentoso Miko Hughes, o enredo optou pela morte de Ellie. Provavelmente, a decisão se deve a uma tentativa de mudar a proposta, pelos alcances interpretativos de Jeté Laurence e para evitar o uso de um bonequinho digital para os crimes cometidos. A mudança promoveu outras ideias distintas como a preocupação pelo que poderia acontecer ao irmão mais novo, diante das circunstâncias tenebrosas.

Durante a sua festa de aniversário – nada de pipa que voa para a estrada -, Ellie encontra Church, considerado desaparecido, na estrada e vai ao encontro do animal. Em uma bela homenagem ao filme original, Gage corre para a avenida no momento em que um caminhão se aproxima distraidamente (infelizmente não estava ouvindo Ramones), mas é salvo pelo pai, mas sem evitar o descontrole do veículo e o atropelamento da garota. O acidente afeta drasticamente a família, levando o pai a uma medida irracional para trazê-la de volta, com consequências ainda mais terríveis como uma bola de neve de sangue e mortes.

Quem conhece o filme original sabe que a menina voltará fria e violenta. Pode desapontar aqueles que preferiam o clima de mistério do original, com uma atmosfera intensa de suspense e tensão. Ellie volta como um espírito perturbado, uma entidade maléfica que não suporta ver pessoas vivas. Nessa refilmagem, há uma explicação sobre o cemitério maldito ser um habitat para o demônio Wendigo, o que, diferente do original, não aponta as causas simplesmente a uma terra indígena, condenada por rituais diversos. Essa justificativa auxilia na expressão dos retornados, mas alivia o conceito da “dor de estar morto“.

Com uma vilã-mirim com um rosto que evidencia sua condição morta, acentuada pelos cabelos secos, o olhar perdido, a cicatriz na cabeça e o interesse pela roupa com que foi enterrada, o longa resgata a tendência das crianças maléficas. Ellie logo despertará em uma fúria incontrolável, um desejo de destruir, sangrar e matar, partindo para investidas contra todos aqueles que tiveram alguma relação com o seu retorno. Contudo, seu plano vai além daquele mostrado por Stephen King no final da década de oitenta, uma ideia que pode tanto ser bem aceita quanto rejeitada pelos fãs do autor.

Todo o aspecto técnico é bem desenvolvido, como direção de arte e trilha sonora. No entanto, as novas escolhas transformam Ellie numa menina-zumbi ou menina-possuída, que, como fora bem apontado pelos autores Ivo Costa e Filipe Falcão, age histericamente, numa agressividade exagerada, deixando de lado o horror psicológico do original. Lembre-se que no filme de 89, Gage é pouco visto na sequência final, mas sua presença é percebida pela voz ou por brinquedos atirados pela casa. A luta de Rachel contra a filha convence tão pouco quanto a do antigo Jud com Gage, embora a mulher estivesse preocupada apenas em proteger o filho pequeno.

Outra mudança do roteiro que desperta discussões envolve a perturbação de Rachel com a irmã Zelda, interpretada no original por Andrew Hubatsek e neste por Alyssa Brooke Levine. Não é explicada a doença da meningite na coluna, mas a alteração física que a deixava torta e obrigava a jovem Rachel a alimentá-la é similar, ainda que o remake apresente um elevador de transporte alimentar, sem justificar como a doente se movimentava até ele nas condições apresentadas. Mas é interessante a ideia do remake tê-la utilizado a todo momento, com a informação de que o lugar onde estão morando estaria despertando essas lembranças ruins.

Zelda aparece mais vezes do que no original – como uma cena a mais no trailer. Cria-se uma confusão em Rachel parecida no terceiro ato, com os sustos mais uma vez exagerados. São esses que acompanham a nova geração de fãs de horror, mas que incomodam a velha guarda: cada vez em que passa um caminhão, por exemplo, ele soa uma buzina ensurdecedora, assustando os personagens e o espectador. As cenas rápidas de tensão e suspense contrariam o tom original, mas devem agradar os jovens que gostam dessa aceleração nos momentos de tensão com sustos fáceis.

Assim, com essas mudanças e o final diferente, pode-se dizer que o novo Cemitério Maldito não é um filme ruim, mas ainda perde na comparação com o original. Há algumas boas ideias como discuti acima (sem o alívio cômico e com uma bela apresentação da floresta que circunda o cemitério), porém há também os percalços (a menina que age como uma psicopata-mirim, a ausência do suspense e da personagem suicida Missy, os clichês do gênero, a pouca exploração das crianças mascaradas), que podem interferir na aprovação do público.

De todo modo, o passeio até o cemitério amaldiçoado de Jason Clarke, com a pequena Ellie no colo, pode ser uma boa pedida para aqueles que ainda não viram o primeiro. Assista-o nos cinemas e depois confira o original, dando uma chance para o livro de Stephen King. É uma jornada também obscura, mas que vale o percurso.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

8 comentários em “Cemitério Maldito (2019)

  • 17/05/2019 em 11:02
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    O original foi marcante, muito sinistro. Sou totalmente contra remakes, mas pelo visto eles mudaram bastante coisa. Talvez eu de uma chance pra essa versão rsrs.

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    • Silvana Perez
      17/05/2019 em 11:46
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      Se vc assistir, volta aqui pra contar o que achou, Leandro 🙂

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  • 15/05/2019 em 14:19
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    Ainda não assisti ao remake, mas o que acho interessante na primeira adaptação é o pessimismo que se passa no filme. É rara as vezes que se tem alguma alegria na história, o restante do tempo é só medo, lembranças ruins e morte, que para um filme de terror é muito bom.

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  • 14/05/2019 em 11:40
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    Sou da velha guarda do terror, então o clima e as decisões do filme original me agradam infinitamente. Fora o fato de certas coisas serem explicadas a todo momento, como se o telespectador fosse idiota. Mas no geral foi um bom passatempo.
    PS: Church original me da calafrios até hoje!

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  • 14/05/2019 em 11:28
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    Bicho … eu curti bastante … cheguei até a achar meio doentio, já que é praticamente a antítese do que vemos por aí, onde a família supera tudo… aqui a união familiar não tem vez, e nada vai salvar a família de seu destino macabro … achei ótimo o final ( que é implícito no primeiro filme, que também adoro ) que é desalentador como deve ser um bom terror !

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    • 25/05/2019 em 13:44
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      Sinceramente conseguiram estragar até a canção tema nos creditos finais. No original você saia lentamente pra ouvir a canção dos ramones, nesse você quer sair correndo,pois a bandinha faz um cover péssimo. Sem falar nos atores, que se diga de passagem há alguns conhecidos, na qual se salva mesmo é o bom e velho veterano jonh litgow – acho que é assim que se escreve , rsrs. O original tirava o seu sono,esse vai fazer você bocejar,ou seja, pode ficar tranquilo.

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  • 14/05/2019 em 11:24
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    O caminheiro não estava ouvindo Ramones, mas a ligação que ele tenta atendee é da Sheena. Passou bem rápido mas eu peguei.

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  • 14/05/2019 em 07:49
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    Eu prefiro muito mais o original. Só de ver os trailers deu pra ver que esse filme ficou com cara de Netflix.

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