O Silêncio (2019)

O Silêncio
Original:The Silence
Ano:2019•País:Alemanha, Canadá
Direção:John R. Leonetti
Roteiro:Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Tim Lebbon
Produção:Robert Kulzer, Scott Lambert, Alexandra Milchan
Elenco:Stanley Tucci, Kiernan Shipka, Miranda Otto, Kate Trotter, John Corbett, Kyle Breitkopf, Dempsey Bryk, Billy MacLellan, Chris Whitby

Ainda que seja uma adaptação de um romance escrito por Tim Lebbon, a proposta de O Silêncio (The Silence, 2019), também chamado pela Netflix de O Silêncio do Medo, é explorar a onda de filmes de terror que abordam os sentidos. O sucesso de O Homem nas Trevas, Hush: A Morte Ouve, Um Lugar Silencioso e Birdbox deve ter sido o motor propulsor da realização desta produção, comandada por John R. Leonetti (de Annabelle, O Perigo Bate à Porta e 7 Desejos). Parece interesse abordar o cinema das sensações, até porque essa sempre foi sua principal fonte de consumo, ainda mais a necessidade do silêncio, tanto que até The Walking Dead trouxe para a nona temporada uma personagem surda e promoveu uma das melhores cenas da série. Mas, para funcionar bem, é preciso um bom roteiro; e esse foi o maior pecado da dupla Carey e Shane Van Dyke (Chernobyl, 2012).

Analisando apenas como entretenimento, pode ser que rasamente dê certo. Há um elenco reduzido – no caso a família Andrews -, uma sensação de perigo iminente, a atmosfera apocalíptica e monstrinhos ágeis, além, é claro, dos problemas internos na difícil convivência em situações extremas. Contudo, se fizer uma avaliação mais aprofundada (e nem precisa cavar muito), logo vai perceber seus inúmeros problemas, grande parte nos furos do roteiro. Nem sempre um bom elenco e uma linha narrativa curiosa são suficientes para garantir a plena diversão.

Durante uma escavação, com a câmera clichê na visão interna (vide Prometheus, entre outros), milhares de criaturas aladas são libertadas. Embora imagine-se que sejam monstrinhos pré-históricos e que viveram sempre na escuridão plena, eles não encontram dificuldades em voar pelo céu ensolarado e atacar as cidades grandes. Com os noticiários não sabendo explicar a ameaça, mas chamando-a de vespas, apenas pede-se que as pessoas fiquem em casa, sem fazer barulho, uma vez que cegas, elas caçam pelo som.

Surda devido a um acidente de automóvel, Ally (Kiernan Shipka, a Sabrina) desenvolveu uma incrível capacidade de percepção. Ela mora com os pais, Hugh (Stanley Tucci, da franquia Jogos Vorazes) e Kelly (Miranda Otto, de Annabelle 2), a avó Lynn (Kate Trotter), o irmão Jude (Kyle Breitkopf, de The Whispers) e o cachorro Otis. Quando ficam sabendo pela TV da invasão das criaturas, decidem, na sugestão de Ally, fugir para uma cidade rural, imaginando que estarão distantes do som e dos problemas. Mas, no percurso, em companhia do conhecido Glenn (John Corbett, de Os Mensageiros), eles terão que enfrentá-las em diversas ocasiões, e precisarão trabalhar juntos para sobreviver.

É basicamente isso. Eles fogem, sofrem um acidente no atalho que fazem pela mata, e buscam um abrigo. Uma personagem se fere e exige que alguns saiam para buscar remédios. Encontram um grupo religioso que parecia já prever o que iria acontecer. Essa é a base de qualquer enredo apocalíptico, trocando apenas o vilão (zumbis, vírus, vampiros, alienígenas…) e os personagens. Há algumas cenas de tensão como a que envolve a travessia por um duto e a que acontece na farmácia, com as criaturas à espreita. Até aí, você poderia até classificar o filme como divertido, mas…

Além dos clichês usados à exaustão, as falhas são gritantes. Uma personagem está com infecção na perna em um momento; no outro já está se movimentando bem, como se a escolha do antibiótico tenha sido acertada de primeira. As tais vespas (chamadas assim porque caçam em grupo, embora alguns sejam vistas sozinhas) são cegas, mas, se não batem uma na outra ou nas paredes, é porque imagina-se que possuem uma espécie de sensor que transforma movimento em imagens, como fazem alguns animais noturnos como os morcegos. Não é o caso aqui. Elas simplesmente não enxergam movimento, apenas são atraídas pelos sons e mais nada. Por que elas são consideradas uma ameaça tão grande assim à população americana, se podem ser mortas com armas comuns, impedidas de se movimentarem com redes, não atravessam paredes e janelas e ainda burras a ponto de se suicidarem?

E as falhas continuam quando você pensa numa fazenda toda protegida com cercas e grades, mas com um duto que permite a entrada sem trancas. Há a sequência em que o pai percebe uma ameaça próxima e acorda a família toda, menos a filha que não ouve e está dormindo sozinha no quarto (!!!). E se pensar bem, não há razão alguma para a família ter abandonado o carro, já que o som do motor não havia atraído os monstrinhos até o acidente. Aliás, nem mesmo há explicação para terem saído de casa, sendo que os noticiários sugeriram isso e a ameaça nem tinha como invadir moradias. Isso sem falar da conexão para uma conversa em vídeo sempre eficiente, mesmo com todos os problemas que acabaram sendo definidos por um personagem como “retorno à Idade das Trevas“.

Apesar de tantos deslizes, os efeitos são bons; a exposição de cadáveres e até a ideia de procriação através dos cadáveres são conceitos interessantes. Poderiam ter feito referências ao clássico Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, mas optaram pelo trivial do gênero. De resto, não há muito o que buscar nessa produção da Netflix, até mesmo porque, se pensar um pouco mais sobre o que acabou de ver, vai chegar à conclusão de que nada fez sentido.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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