Bird Box (2018)

Bird Box
Original:Bird Box
Ano:2018•País:EUA
Direção:Susanne Bier
Roteiro:Eric Heisserer, Josh Malerman
Produção:Dylan Clark, Chris Morgan, Barbara Muschietti, Scott Stuber, Clayton Townsend
Elenco:Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich, Sarah Paulson, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, Machine Gun Kelly, BD Wong

A experiência sensorial promovida pelo thriller literário “Caixa de Pássaros“, de Josh Malerman, fez com que eu devorasse o livro em apenas um dia, enlouquecido por uma trama repleta de tensão e mistério. Enquanto eu tangia os dentes com a jornada de Malorie com seus dois filhos por um gigantesco rio, eu também achava praticamente impossível que uma adaptação conseguisse transmitir as mesmas emoções. Encerrei minha análise com o período: “Tendo em vista o proposto na obra, fica difícil imaginar uma maneira adequada de adaptação, uma vez que as sensações transmitidas pelos personagens são as únicas que acompanham o leitor, cego, e impressionado.” Contudo, com a divulgação de informações sobre o elenco – Sandra Bullock, John Malkovich e Sarah Paulson – e do trailer fui aos poucos me convencendo que aquele mundo pós-apocalíptico estava ganhando boas formas.

É claro que algumas mudanças teriam que ser feitas no processo de adaptação. No entanto, há de se louvar que a maioria delas foi benéfica para a produção, principalmente as que envolveram construção de personagens. Assim, como no livro, o filme apresenta uma narrativa dupla, mostrando a sequência final, com a travessia por um rio nebuloso, ao mesmo tempo em que trouxe o começo de tudo, desde os primeiros incidentes, em sequências de desespero e tragédias muito mais legais do que o fora visto na adaptação de Celular, de Stephen King. E o meu maior receio era que o longa de Susanne Bier mostrasse demais, afastando-se de um horror discreto e psicológico.

Não satisfeita com a gravidez, Malorie (Bullock) e a irmã Jessica (Paulson) – no livro, esta se chama Shannon – estão fazendo um exame de ultrassom no hospital, acreditando que os incidentes de loucura e suicídio mostrados na TV estejam realmente bem distantes. Na volta, o desespero toma conta das ruas, entre acidentes, explosões e mortes por todos os lados, até o contágio de Jessica (já mostrado no trailer) e sua atitude drástica, bem diferente do que fora visto nas páginas. Acolhida numa residência, a contragosto do amargo Douglas (Malkovich), Malorie conhece outros sobreviventes: o boa-praça Tom (Trevante Rhodes), a senhora Cheryl (Jacki Weaver), a jovem Lucy (Rosa Salazar), o simpático Charlie (Lil Rel Howery), o estranho Felix (Machine Gun Kelly) e o esperto Greg (BD Wong). Em breve, chegará também uma outra grávida, Olympia (Danielle Macdonald), e um outro não-convidado, Gary (Tom Hollander), que ampliarão os conflitos e trarão importantes mudanças no grupo.

Entendendo o modus operandi das criaturas – se não vê-las, elas são inofensivas; caso contrário você será tomado por uma loucura extrema – , o grupo veda as janelas e cria suas próprias regras de conduta, conscientes de que em breve terão que sair às ruas em busca de provimentos. Além do problema de convivência, tão comum em qualquer mini-comunidade, o que atinge o grupo são algumas decisões equivocadas. Curioso para entender o inimigo, Greg sugere que ele seja observado indiretamente, algo que também acontece no livro, embora o nome do personagem seja diferente, assim como a realização de seu experimento. Também acontece de outra maneira a saída do grupo para encontrar comida, culminando numa situação de tensão crescente nas páginas. Acertadamente, Bier optou em diversas vezes por esconder a realidade também para o espectador, mostrando a visão (ou falta de) dos sobreviventes.

O longo roteiro de Eric Heisserer (um nome sempre em evidência no gênero, tendo roteirizado A Hora do Pesadelo, Premonição 5, A Coisa, Quando as Luzes se Apagam, A Chegada) arrasta por demais algumas sequências, mas permite que o público se preocupe ainda mais com os personagens. Algo que tornou a narrativa ousada, mas foi deixada de lado no filme, é a sugestão de que os bebês fossem cegados logo após o nascimento, o que impediria uma necessidade de adaptação ao novo mundo. Também fica difícil digerir bem algumas facilidades do enredo, com Malorie achando as crianças perdidas facilmente, mesmo depois de alguns incidentes perturbadores durante a viagem de barco.

Agindo como sua versão literária, o público não consegue encontrar identificação com Malorie, desde sua primeira cena. O desgosto se amplia nas prováveis escolhas, mesmo depois de cinco anos de convivência com os pequenos. Talvez uma ação diferente do roteiro não seria mal vista, ainda que carregasse um tom pessimista.

Com uma bela produção da Netflix, Bird Box – cujo título se explica melhor nas páginas – se avizinha com Um Lugar Silencioso, entre os destaques sensoriais de 2018. Boas cenas de tensão e personagens interessantes, a versão cinematográfica não supera as páginas, mas traz bastante respeito ao produto original. Ambos podem ser recomendados de olhos fechados…

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

7 comentários em “Bird Box (2018)

  • 07/01/2019 em 01:45
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    Achei o maravilhoso, com uma carga emocional muito grande, chorei no final….mas de ver a esperança das pessoas.

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    • 14/01/2019 em 01:52
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      Parabéns, você faz parte do seleto grupo de acéfalos que gostaram dessa imensa porcaria. Filmezinho vagabundo, cliché até o talo!

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      • Silvana Perez
        14/01/2019 em 10:36
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        Daí porque alguém gostou de um filme que vc achou ruim, esse alguém merece ser insultado?

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  • 29/12/2018 em 11:56
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    tambem , me decepcionei com o filme , não li o livro , mas ja que é uma adaptação esperava algo mais plausível, não soa verossímio em momento algum …. tem uma boa trama entretanto, talvez por preguiça de roteiro , o filme não é bem desenvolvido …. , outro filme com temática parecida(fim dos tempos) parece bem melhor em comparação

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  • 25/12/2018 em 15:16
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    Levado pela grande propaganda em minha cidade ( outdoors, paradas de ônibus,…), eu e minha família fizemos ótimas expectativas sobre o longa. Pipoca e ansiedade à postos começamos a ver o filme. Logo de cara não há como não comparar com o filme de Shyamalan, ” Fim dos Tempos”. Mesma tocada do suicídio. Tá, não li o livro ainda mas em breve o farei. Também não vi o trailer para não estragar a surpresa e……….me decepcionei. O filme é lento mas a narrativa prende o espectador. O filme tenta pegar carona no ótimo ” Um lugar silencioso” mas falha nas situações de tensão. Não conseguir ter empatia por nenhuma das personagens. O drama é fraco e as cenas de ação bem pouco trabalhadas. Furos no roteiro quanto à caracterização dos olhos dos não-infectados também me incomodaram bastante, uma hora tinha outra não; a entidade só ataca quando convém. Falta de explicação de algumas pessoas serem afetadas e outras não pode dar a falsa sensação de uma continuação. Não sei. Porém, o que mais me incomodou e incomoda é o fato das queridinhas de Hollywood serem INATINGÍVEIS. A Sandra Bullock não se machuca, não quebra um dedo, não morre. Final feliz, de novo? Meu Deus!!!! Em “Gravidade”, o filme ia bem até ela, incrivelmente, se safar ILESA de um acidente com a sonda. Sério? Bem, esta é minha opinião como espectador e não crítico de cinema. 2 Caveirinhas.

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  • 24/12/2018 em 12:49
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    O clime de tensão durante o filme é incrível, mas o final entrega um desfecho que já foi usado em outros filmes do gênero e acaba por transformar o filme inteiro em uma gigantesca PERDA DE TEMPO!!!!!

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