Um Contratempo (2016)

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Um Contratempo
Original:Contratiempo
Ano:2016•País:Espanha
Direção:Oriol Paulo
Roteiro:Oriol Paulo
Produção:Mercedes Gamero, Adrián Guerra, Sandra Hermida, Mikel Lejarza, Eneko Lizarraga, Núria Valls
Elenco:Mario Casas, Ana Wagener, Jose Coronado, Bárbara Lennie, Francesc Orella, Paco Tous, David Selvas, Pere Brasó

Além das produções envolvendo assassinos em série e crimes misteriosos, são interessantes também os thrillers que trazem personagens perdidos em situações que podem comprometer sua dignidade e até a sanidade. É claro que há alguma morte mal explicada, com o roteiro dispondo ao público várias versões do que poderia estar acontecendo, até a revelação final, muitas das vezes surpreendente. O Quarto Secreto, por exemplo, atormenta o espectador com uma tensão inesgotável à medida em que um torturante jogo de segredos e descobertas é apresentado em um quebra-cabeça cheio de possibilidades. Vale a menção ao desconfiante Cova Rasa, com poucos personagens e grandes reviravoltas, comuns em filmes noir e explorado à exaustão pelo mestre Alfred Hitchcock. A fórmula é simples: poucos cenários (às vezes um só), personagens tridimensionais (que permitem questionamentos sobre suas índoles) e um enredo que saiba amarrá-los ao ponto de conduzir o espectador como quer.

Disponível na Netflix, Um Contratempo (Contratiempo), de Oriol Paulo (dos excepcionais O Corpo, e Os Olhos de Julia), pode entrar facilmente na galeria de thrillers que merecem uma atenção especial – aliás, está próximo de ser sua obra-prima. Trata-se de uma produção com um elenco interessante e grandes mudanças narrativas, em um argumento que se apresenta de maneira simples até surpreender o infernauta. E se você não tiver o costume de se atentar a detalhes ou não estiver acostumado a filmes e literatura similares, pode ser que o final o deixe boquiaberto.

Já pela leitura da sinopse é possível se sentir atraído pela trama. O executivo Adrián Doria (Mario Casas) recebe em seu apartamento a advogada Virginia Goodman (Ana Wagener), que o irá defender de uma acusação de assassinato. É para ela e o espectador que ele irá relatar os acontecimentos que o levaram a acordar, depois de ser golpeado, e encontrar a amante Laura Vidal (Bárbara Lennie) morta. Não há sinais de invasão, nem qualquer sinal de uma terceira pessoa no local, mas ele está disposto a provar sua inocência até na confissão do ocultamento de um outro cadáver.

Adrián conta que numa viagem à França se envolveu com Laura, ambos comprometidos. Apaixonado pela mulher, ele teria dado um basta na relação, e estava levando-a para o lugar da despedida, quando um cervo cruzou o caminho e eles acabaram se chocando com um carro que vinha pela pista contrária. Com a morte do outro motorista, Daniel Garrido (Iñigo Gastesi), Laura sugere que eles se livrem do corpo para evitar que o problema revele o caso dos dois, e Adrián resolve jogar o carro e o corpo em um riacho, mas os contratempos são ainda maiores: um motorista passa pelo local e flagra os dois conversando, e depois Laura aceita que o carro seja consertado na casa de um senhor que passava por lá, sem saber a identidade do sujeito. São os nós iniciais de uma trama que traz coincidências, erros de atitudes (principalmente nas tentativas de tentar corrigi-las) e desconfiança.

O roteiro de Oriol Paulo é bastante inteligente, uma vez que a narrativa do protagonista irá expor seu ponto de vista nos fatos, deixando no ar que mesmo as imagens podem trazer confusões e enganos. Como não há uma outra visão, somente os questionamentos da advogada, o público se envolve com as possibilidades, sempre com um pé atrás. Contudo, há pistas deixadas no decorrer que permitem que a verdade possa estar camuflada ali desde o começo, sem que o diretor desvie a câmera ou se mostre distante para atrapalhar o espectador. Uma observador atento irá “matar a charada” bem antes do último ato, embora isso não diminua a força narrativa.

Bem dirigido e dinâmico, sem a necessidade de expor uma trilha de corpos, Um Contratempo é capaz realmente de prender a sua atenção, e ainda deixá-lo sem fôlego com as reviravoltas propostas. Em tempos de clausura, é uma utilização consciente de seu tempo diante da telinha!

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “Um Contratempo (2016)

  • 07/05/2020 em 12:12
    Permalink

    Filme imperdível é necessário! Perfeito em todas as formas

    Resposta
  • 05/05/2020 em 23:07
    Permalink

    Os filmes espanhóis e sul-coreanos estão com tudo na Netflix. Esse aí foi um baita filme divertido de se assistir. A propósito, já assisti 3 ou 4 filmes com o Mario Casas lá . Acho que já deu pra marcar bem a lata desse cara rsrs

    Resposta

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