A Volta do Parafuso (1898)

A Volta do Parafuso
Original:The Turn of the Screw
Ano:1898•País:UK
Autor:Henry James•Editora: Landmark

Entre as assinaturas que compõem o horror gótico sobrenatural, a de Henry James (1843-1916) recebe notoriedade pela concepção do dúbio A Volta do Parafuso, em 1898. Vagando entre o Realismo e o Modernismo literários, e estilos variados de escrita, de romances a contos e peças de teatro, o autor é uma importante referência nos estudos da História da Língua Inglesa, tendo como principal obra O Retrato de uma Senhora (1881). A publicação de sua “muito longa para ser conto e muito curta para ser romance” história de fantasmas em uma série na revista Collier’s Weekly conquistaria, no século seguinte, olhares de acadêmicos e estudiosos que aderiram ao movimento New Criticism, a partir da década de 40, até a transformação na peça The Innocents, em 1950, e, por fim, no clássico fantasmagórico Os Inocentes, de 1961.

É claro que, a despeito da importância do estudo da linguagem do texto – como foi feito pelos “novos críticos” -, o grande impulsionador de um interesse pela obra de Henry James foi, sem dúvida, o longa de Jack Clayton. Uma adaptação bastante fiel ao trabalho original, com acréscimos importantes de Truman Capote, o filme teve na atuação brilhante de Deborah Kerr a principal representação narrativa da escrita, ao deixar transparecer algumas possibilidades de interpretação. Ainda assim, a versão cinematográfica acabou sendo vendida mais com uma história de fantasmas do que a incitação subliminar de que as fantasias da Srta. Giddens e seu trato com a imaginação poderiam ter alcançado.

De qualquer forma, a governanta é uma personagem fascinante, uma invasora em um universo estranho, com a imaginação aflorada e com uma essencial perspectiva de transformação. Como o texto é acompanhado pelo seu ponto de vista, as reflexões que ela faz diante dos acontecimentos são perspicazes e igualmente sinistras, forçando inevitavelmente o leitor a acreditar em suas palavras e levemente questionar a sua sanidade. E as provas parecem incontestáveis em sua descrição, servindo tanto para o convencimento crescente de sua amiga e colega de trabalho, Sra. Grose, quanto do leitor, principalmente pelo interessante prefácio, que já antecipa que se trata de um relato “que não pode ser comparado” a nada “em termos de pavor – pavor além da conta.

Um grupo de amigos, ao pé de uma lareira, às vésperas do Natal, ouve a leitura de Douglas dos escritos de uma falecida governanta a respeito de um trabalho que aceitara na mansão Bly, em Essex, contratada pelo tio tutor de duas crianças, cujos pais morreram na Índia. A única condição para que ocupasse a função seria a de nunca, sob nenhuma circunstância, incomodá-lo: “a pessoa que tivesse a função de preceptora seria dotada de autoridade extrema.” – tal qual podia ser visto na versão cinematográfica, mas sem aquele questionamento interessante que o tio faz de perguntar se ela tinha muita imaginação.

Esperando “algumas coisas tão profundamente melancólicas“, Giddens se surpreende pelo modo agradável como o casarão se dispõe e também pelo brilho encantador da pequena Flora. “Ela era a criança mais bela que eu já vi“, enquanto a senhora Grose aparentava “estar tão alegre” por recebê-la. As primeiras desconfianças de que o emprego pudesse não ser o dos sonhos se mostram a partir do capítulo 2, com o anúncio da chegada de Miles para as férias de verão e a carta do diretor da escola informando que ele não é mais bem-vindo. E também com a primeira informação sobre a existência do falecimento da preceptora anterior.

Contudo, sua apreensão quanto ao caráter do menino não se justificou pela maneira carinhosa sobre a qual o garoto já aparentava desde os primeiros instantes. “Era impossível que alguém carregasse uma má reputação com maior doçura e inocência.” Juntamente com a volta de Miles surge a primeira aparição, no alto da torre, com a testemunha incrédula de Giddens sobre uma pessoa que até então desconhecia. Impressionada pela presença inusitada e também acometida pelo romantismo da visão de um voyeur misterioso, mais tarde a governanta descobriria que se trata de um ex empregado da família, Peter Quint, que morrera nas proximidades da residência. Numa segunda aparição, no reflexo da janela, ela nota que seu olhar está para além dela, como se estivesse em busca de uma outra pessoa no local.

Grose: Disse que estava procurando alguém – alguém que não era a senhorita?
Giddens: Ele estava procurando o pequeno Miles.

Apenas por saber, a governanta já começa a desenvolver suas teorias de que o garoto possa ter uma relação muito próxima, além da morte, com o falecido. Da mesma forma acontece com as aparições ainda mais sinistras de outra morta, a governanta anterior, srta. Jessel, que desenvolve um interesse macabro pela pequena Flora. Ela surge na história como no filme: uma observadora fria do outro lado do “Mar de Azov“, o lago próximo à Mansão. Ao ver o fantasma curioso, Giddens sente que a garotinha não a está vendo ou teria se acostumado com a presença. “Prendi a respiração, esperando dela algum grito, algum súbito sinal de interesse ou susto, mas nada veio.” Ambas as crianças parecem se divertir com essa confusão da protagonista, tanto que promovem situações estranhas como o passeio noturno de Miles.

É a partir de então que se percebe essas possibilidades múltiplas do texto de Henry James. Estaria a jovem sendo influenciada pelas crianças? Há realmente fantasmas habitando a mansão, e também afetando de alguma forma os pequenos? E, por fim, seria tudo parte de uma perversão da governanta, atraída pelas crianças, romantizando sua passagem pelo local? O autor batalha com o leitor nessas perspectivas, deixando evidente o fascínio de Giddens pela aparente maturidade, levemente sarcástica, de Miles, e pela curiosidade intensa de Flora. Talvez as crianças não sejam tão inocentes como se imagina, ou até sejam ao extremo, o que permitiu as influências sobrenaturais.

Uma literatura agradável, e bem similar à peça e à adaptação cinematográfica (a falta sentida fica na brincadeira de se esconder, um dos pontos altos da visão de Jack Clayton), A Volta do Parafuso mantém a essência que serviu de construção para o romantismo gótico, com os aspectos do casarão e seus corredores escuros e muitos quartos frios, as vozes sussurrantes que atravessam os cômodos, e a sensação perturbadora e constante de presenças fantasmagóricas. Com parágrafos excessivamente longos e que tornam algumas passagens cansativas, ainda assim James fez de seu trabalho um produto importante para o estudo da evolução do gênero na literatura e sua influência para o cinema, com muito mais voltas no parafuso do que as propostas pelo autor.

Com toda a sua força narrativa, A Volta do Parafuso pode ser encontrado facilmente na internet em várias versões. A que serviu para esta análise foi a da editora Landmark, numa belíssima edição bilíngue, com a tradução de Francisco Carlos Lopes e a revisão de Francisco de Freitas. Além de permitir o contato com um texto valioso da literatura universal, você ainda encontra a possibilidade de lê-lo em sua versão original, em um importante aprendizado e acesso.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

2 comentários em “A Volta do Parafuso (1898)

  • 14/06/2020 em 19:48
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    Tenho fascínio por essa história, uma das minhas favoritas!

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  • 13/06/2020 em 19:17
    Permalink

    Excelente livro! Gosto muito.
    Podiam fazer uma resenha do livro O Lobisomem de Paris de Guy Endore, embora acho que não tem traduzido para o português, será difícil achar por aqui.

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