The Last of Us (2013)

The Last of Us
Original:The Last of Us
Ano:2013•País:EUA
Desenvolvedora:Naughty Dog•Distribuidora: Sony Computer Entertainment

O texto contém spoilers de alguns momentos chave do jogo.

Quando ligamos The Last of Us pela primeira vez, temos de cara uma surpresa. Ao invés de assumir o controle de um dos dois protagonistas da capa do game, somos colocados na pele de Sarah, uma garotinha esperta e cativante de 14 anos que tem um ótimo relacionamento com o pai, Joel. Na mesma noite que ela o presenteia com um relógio, Sarah acorda no meio da madrugada e junto com ela percebemos que tudo está estranho demais. O noticiário mostra um caos, uma explosão acontece nas proximidades e um vizinho perturbado invade sua casa. O belo começo do jogo é substituído por uma rápida sucessão de eventos bizarros e, na fuga com seu pai, somos impactados por uma cena extremamente marcante. Sarah é baleada. Aquela garota que em menos de 20 minutos nos conquistou, morre. Nos braços do próprio pai. Uma cena chocante, capaz de nos arrancar até mesmo lágrimas. Que termina num piscar de olhos, quando voamos no tempo, 20 anos depois, e finalmente entramos no controle de um despedaçado Joel, em um despedaçado mundo.

Sim, o começo de The Last of Us é um cartão de entrada para o que virá de sua narrativa. O cuidado e a obsessão dos diretores Neil Druckmann e Bruce Straley em entregar algo marcante, fez até mesmo que as histórias de bastidores da captura de movimento da morte de Sarah se tornassem uma lenda na indústria, quando Druckmann simplesmente esgotou emocionalmente o ator Troy Baker (intérprete de Joel) ao fazê-lo gravar a mesma cena oito vezes, para semanas depois telefonar e dizer “Ainda não está como eu quero. Precisamos fazer de novo“.

Em The Last of Us somos apresentados a um mundo pós-apocalíptico. No controle de Joel, tentamos sobreviver duas décadas após uma pandemia criada por um fungo dizimar uma gigantesca parte da população e transformar outra em monstros irracionais chamados “estaladores“. O clima do que sobrou de civilização é terrível, com um governo paramilitar controlando a vida da população, que sofre de fome, falta de recursos e o perigo iminente de ser o próximo contaminado, já que não há uma vacina ou tratamento. Junto com sua parceira Tess, Joel trabalha como contrabandista, até que os dois são contratados pelo grupo terrorista Vagalumes para levar uma carga bastante preciosa para o centro do grupo do outro lado do país, uma garota chamada Ellie, que pode ser finalmente a chave para desvendar o segredo de derrotar o fungo.

E é com a montagem desse pequeno grupo que se inicia uma gigantesca jornada de ação e emoções em que somos simplesmente incapazes de atravessar sem nos emocionarmos.

Se o início do jogo com Tess é um pouco mais devagar para entendermos de fato como aquele novo mundo mergulhado em pandemia funciona, o ritmo passa a ser outro com a chegada de Ellie. Com o jogo em terceira pessoa, é fato que hoje The Last of Us apresenta uma jogabilidade um tanto quanto travada. As lutas corporais são incríveis, variadas em golpes e com o uso inesperado do ambiente ao seu redor dependendo do posicionamento. Os estrangulamentos são até assustadores de tão reais. E até o detalhe de balançar o controle para acabar com o mal contato da lanterna é envolvente. Mas toda a parte de armas é um tanto quanto cansativa. Mirar e se movimentar ao mesmo tempo não é exatamente um primor. E como balas e recursos para armadilhas e itens de cura são raros, cada tiro desperdiçado dá uma baita frustração, ainda que notavelmente essa seja a intenção. Afinal, estamos vivendo no fim da civilização, dar valor ao que você tem e que funciona é realmente presente aqui.

Mas são as batalhas com os estaladores que realmente foram o destaque do game e completamente diferente de tudo que havia sido apresentado até então. Guiados pelo som, o stealth é quase sempre opcional e funcional para fugir dos monstros, mas um único deslize pode fazer com que todo o cenário se torne uma batalha extremamente desesperadora e angustiante. Todos esses fatores criam ainda momentos em especial que são memoráveis, quando Joel fica pendurado de cabeça para baixo ou quando a missão pela sobrevivência se torna empurrar um carro para que ele pegue no tranco.

O trabalho do vencedor do Oscar, Gustavo Santaolalla, na trilha sonora também foi um acontecimento à parte. Intimista e marcante, a trilha se encaixa muito bem em todas as situações e conduz as emoções do jogo de uma forma muito particular. Foi a primeira vez que Santaolalla trabalhou em um game e talvez esse tenha sido um elemento crucial para o resultado, colaborando tanto com a ideia de um jogo-filme.

Até mesmo os objetos colecionáveis se tornam um elemento a parte de destaque. Num certo momento, somos apresentados a uma série de cartas espalhadas por um mapa subterrâneo que conta a história de Ishi junto com um grupo de sobreviventes e expande o universo do jogo de forma tocante e cruel. E é interessante como esse momento em especial deu uma valorização na história dos objetos colecionáveis em jogos com campanha.

Mas mais uma vez, é em sua narrativa que vem toda revolução de The Last of Us para os games. E não estamos falando da história em si que nem é tão original. Afinal, enredos pós-apocalípticas existem aos montes. O próprio fungo do jogo é baseado em algo que existe no mundo real e afeta insetos, além de inspirações que vieram do momento histórico da Gripe Espanhola e o clima brutal de violência do jogo também tem suas referências como os livros A Estrada e Onde os Fracos Não Tem Vez. O diferencial de The Last of Us vem de saber como contar sua história, focada principalmente no relacionamento entre Joel e Ellie.

A complexidade da mentalidade destroçada de Joel é apresentada de forma clara no início do jogo decorrente de um grande trauma que vivemos junto com ele. Mas é a inserção de Ellie em sua vida que faz com que achemos que tudo isso finalmente será superado. De fato, a garota e sua personalidade marcante vão aos poucos conquistando Joel e nos conquistando. E mesmo durante eventos poderosos como a despedida de Tess e o desfecho do encontro com dois irmãos, todo esse relacionamento é colocado de vez a prova em seu maior teste na única batalha de chefe do jogo contra um ser humano, onde no controle de Ellie é difícil para um jogador segurar ali todas as emoções que são expostas e jogadas violentamente sobre nossos olhos e controle.

Numa ótica de 2020, quando escrevo esse texto, é difícil não pensar neste jogo hoje e não se assustar com a ideia de uma pandemia global e suas consequências quando estamos justamente vivendo uma. Um mundo devastado e irrecuperável que nos colocaria sempre na situação do extremo é um verdadeiro pesadelo. E viver essas emoções dentro de um jogo tem seu peso.

Principalmente, porque passar por todas as emoções de Joel e Ellie em The Last of Us não é o suficiente e só ao final do game precisamos aceitar de forma drástica aquilo que nos foi apresentado aos poucos – mas de forma mais leve – que a mente de Joel está destroçada e incapaz de recuperação.

Atitudes são tomadas pelo personagem, ao jogador cabe apenas viabilizá-las para então sermos confrontados com a dualidade de um final absurdamente avassalador, impensável até então, com cenas chocantes e um questionamento que vai te carregar pela vida junto a uma mentira que deve destruir uma relação que nem mesmo o toque de uma girafa fará superar.

The Last of Us não entrou para a história dos games à toa.

O jogo está disponível para PlayStation 3 e PlayStation 4.

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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