Feitiço (2020)

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Feitiço
Original:Spell
Ano:2020•País:EUA, África do Sul
Direção:Mark Tonderai
Roteiro:Kurt Wimmer
Produção:Morris Chestnut, Gordon Gray, Brian Wilkins, Kurt Wimmer
Elenco:Omari Hardwick, Loretta Devine, Lorraine Burroughs, Hannah Gonera, Kalifa Burton, John Beasley, Tumisho Masha, Steve Mululu, Peter Butler, Andre Jacobs, Leo Wringer, Tafara Nyatsanza, Doctor Khasu-Nkatlo

Um dos principais problemas de Feitiço (Spell, 2020) é a óbvia necessidade de plantar ideias que posteriormente serão cultivadas pelo roteiro. Há muitos filmes que fazem isso, claro, mas muitos deixam rastros discretos e não pegadas de elefante na neve. Logo nos primeiros momentos do longa de Mark Tonderai (A Última Casa da Rua, 2012), Marquis (Omari Hardwick) brinca com a esposa Veora (Lorraine Burroughs) por ter ficado presa em um quarto, para logo depois mostrar que ele entende de arrombar portas; em outra sequência, no escritório de advocacia onde trabalha, ele diz ao seu chefe, homem branco, que não vê problemas em enfrentar advogados que estejam defendendo pessoas negras. Por fim, toda uma discussão na mesa de jantar para mostrar a união da família, além da obrigatoriedade de retorno à sua terra natal, pelo falecimento repentino do pai, que abusara dele quando criança. Pronto. O esqueleto do roteiro de Kurt Wimmer (da nova versão de Children of the Corn, 2020) já está exposto.

Apresentados os personagens, a família Woods, que ainda inclui os filhos Tydon (Kalifa Burton) e Samsara (Hannah Gonera), embarca em um pequeno avião para a região rural de Appalachia, parando apenas para abastecer em um posto de combustíveis. Ali, mais dois personagens agem como Crazy Ralph, de Sexta-Feira 13, ao alertar sobre os problemas que enfrentarão pelo caminho ao persistir na jornada, seja com a possibilidade de uso de um amuleto protetor ou no receio de um jovem local sobre o destino que os aguarda. Nota-se que o avião usado para a viagem poderia ser simplesmente substituído por um furgão ou carro de família, comum em muitos filmes do gênero, uma vez que o uso dele só serve para mudar o transporte ou camuflar os clichês.

Ao atravessar uma tempestade, o avião sofre um pane – um acidente que dificilmente permite sobreviventes, mas como é filme… Marquis acorda em uma cama no sótão de uma residência rural, sob os cuidados de Eloise (Loretta Devine, que foi a policial fã de Pam Grier em Lenda Urbana, 1998), seu esposo Lewis (Steve Mululu) e o gigante mudo Earl (John Beasley). Sem notícias da família, logo ele percebe que terá problemas como Paul Sheldon (James Caan) em Louca Obsessão (Misery, 1990), e terá que descobrir porque está sendo mantido preso e como irá sair dali. Como o título já adianta, trata-se de mais uma produção que explora feitiços, rituais de cura de origem africana e prolongamento da vida, algo já visto no excelente A Chave Mestra (The Skeleton Key, 2005) e no interessante Corra! (Get Out, 2017).

Assim que se apresenta ao rapaz, Eloise mostra o que seria o seu “boogity“, um boneco voodoo que representa o corpo de Marquis. Não se entende porque ela precisou mostrar isso a ele, e ainda deixá-lo ali próximo, pois, de posse do objeto, suas pretensões seriam mais facilmente realizadas. Com a perna ferida, imaginando que tenha sido fruto do acidente, ele pesca uma informação importante sobre algo que irá acontecer na Lua de Sangue, o que o impulsionará a uma desesperada tentativa de fuga. Embora traga tensão pelo que se propõe, vários furos, tal qual o que Marquis possui no pé, saltam à vista, fragilizando ainda mais o argumento. Para fins de não incomodar o infernauta, irei separá-lo em um parágrafo á parte.

Alerta de Spoilers médios

Além da queda do avião e do boneco que fica próximo do rapaz sem necessidade disso, o roteiro ainda traz sequências improváveis. Assim que descobre o que está causando a ferida em sua perna, ele retira o prego gigante e que atrapalhava sua locomoção – em uma sequência difícil de acompanhar – e simplesmente começa a andar normal, como se nada mais impedisse a dor de colocar o pé no chão e até correr. Posteriormente, quando percebe a aproximação de Eloise, com Earl dispondo de um machado, ele coloca novamente o prego no pé e se deita, sem deixar rastros de sangue pela casa. Em outro momento, depois que ele tenta fugir e é novamente capturado, você imagina que a vilã irá cortar a perna dele fora ou dificultar a fuga, mas não: ela sai de carroça com todo mundo, deixando o local vazio e as portas abertas! Além de todos esses furos evidentes, Feitiço ainda reserva uma sequência final que parece o confronto do Mickey em O Aprendiz de Feiticeiro (1940). Aquele rapaz que até então renegava suas origens e não acreditava em magia, torna-se apto para uma briga de bruxos.

Fim dos spoilers médios

Ainda que tenha todas essas falhas, o longa pelo menos garante a diversão. É bem realizado, com um bom elenco, e construção narrativa. Transmite ideias de superação, de resgate de sua natureza, de união familiar e crenças, do embate contra seus fantasmas do passado e a aceitação de sua resistência. Se o infernauta conseguir ignorar seus percalços, a falta de originalidade e os clichês. pode ser que se divirta em um exemplar claustrofóbico e repleto de tensão.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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