Cidade Invisível – 1ª temporada (2021)

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Cidade Invisível - 1ª Temporada
Original:
Ano:2021•País:Brasil
Direção:Júlia Pacheco Jordão, Luis Carone
Roteiro:Mirna Nogueira, Ludmila Naves, Antonio Arruda, Rodrigo Batista, Marco Borges, Chloe de Sordi, Raphael Draccon, Carolina Munhóz, Regina Negrini, Felipe Sant'Angelo
Produção:Marco Anton, Francesco Civita, Raphael Draccon, Beto Gauss, Bruno Giro, Renata Grynszpan, Marcelo Maximo, Carolina Munhóz, Caito Ortiz, Maresa Pullman, Renato Rondon, Carlos Saldanha, Juliana Tuacek
Elenco:Marco Pigossi, Alessandra Negrini, Fábio Lago, Jessica Córes, Jimmy London, Wesley Guimarães, Áurea Maranhão, Victor Sparapane, Manu Dieguez, José Dumont, Julia Konrad, Tainá Medina

Cada vez mais as produções brasileiras vêm mostrando sua excelência. Após o sucesso de Bom Dia, Verônica, que rendeu elogios ao redor do mundo, chegou a vez da Netflix resgatar o misticismo do folclore brasileiro – por vezes esquecido ou até mesmo preterido em comparação a lendas estrangeiras – e trazê-lo para os dias atuais. Com uma atmosfera instigante, Cidade Invisível chega para mostrar que a mitologia nacional tem muito a oferecer.

Durante uma celebração de festa junina em uma comunidade ribeirinha, um estranho incêndio começa causando pânico e confusão entre os presentes. Gabriela (Julia Konrad) percebe que sua filha desapareceu, e sai em busca dela floresta adentro, foco da queimada.

Momentos depois, Eric (Marco Pigossi), detetive da polícia ambiental, é chamado até o local e descobre que não foi chamado até lá para investigar o ocorrido, e sim para identificar o corpo de sua mulher, vítima da tragédia. Desamparado e sentindo-se culpado por não estar presente para protegê-la, Eric fica obcecado por descobrir o que realmente aconteceu, convencido de que foi um ato criminoso. Infelizmente, o caso foi arquivado pelo delegado, e o detetive resolve investigar por conta própria, partindo da comunidade de pescadores onde tudo aconteceu, Vila Toré.

Conforme Eric avança, começa a se enroscar numa rede de segredos, e figuras um tanto peculiares começam a aparecer em seu caminho, desafiando suas crenças e fazendo-o questionar a própria sanidade. Coisas misteriosas começam a acontecer, indo desde um boto morto na praia do Rio de Janeiro até corpos desaparecendo do necrotério sem explicação aparente. Um novo mundo começa a se revelar, e isso é só o começo.

O enredo de Cidade Invisível é envolvente, dosando na medida certa suspense, fantasia e até mesmo uma breve presença de elementos de terror, além de ótimos efeitos especiais, sem que a narrativa fique entediante. A cada episódio uma nova entidade, como são chamados, dá as caras, e algumas são imediatamente reconhecíveis, tamanho é o brilhantismo de suas atuações. Iara (Jéssica Corés), por exemplo, é facilmente identificável desde o primeiro momento que aparece com seu olhar penetrante. Saci (Wesley Guimarães), uma das figuras mais famosas do folclore brasileiro, também é rapidamente notado. Outras despertam curiosidade por não serem tão populares assim, como é o caso de Tutu (Jimmy London), devotado à misteriosa Inês.

Algo que causou curiosidade nos espectadores foi a personagem de Alessandra Negrini. Por causa de Sítio do Pica Pau Amarelo, nossa ideia de “Cuca” é a de um jacaré, porém, em Cidade Invisível, a aparente líder tem sua forma um pouco diferente da contada por Monteiro Lobato. É de consenso geral que a Cuca é uma bruxa e, na lenda original brasileira, é retratada como uma idosa magra e de pele enrugada que consegue se transformar em qualquer animal. Em algumas histórias, diz-se que, para entrar sorrateiramente no quarto de crianças malcriadas, ela se transforma em borboleta, forma utilizada na série. Negrini retrata com perfeição uma autoridade imponente e poderosa que protege os seus a todo custo, sendo o grande destaque da produção. Todos os personagens possuem um carisma único, com um nível de entrosamento entre si tão fluido que deixa tudo mais crível, convencendo até o espectador mais cético – como o próprio Eric – que a fantasia pode estar mais perto do que se imagina.

Carlos Saldanha, criador da série, não só revive e dá destaque à riqueza do folclore nacional, como também faz uma crítica ao avanço industrial e tecnológico destruindo bens naturais e esquecendo suas raízes, levando à desvalorização cultural. Isso fica claro tanto no nicho da Vila Toré, com seus moradores se recusando a sair dali e vender suas propriedades para um empresário, quanto no modo como as entidades são retratadas. Estão marginalizadas, escondidas do mundo, se misturando para sobreviver enquanto seu mundo lentamente entra em colapso e leva os seus.

A investigação restrita à delegacia acaba ficando um pouco em segundo plano, e de modo algum isso é ruim, já que é algo que não possui nada muito inovador. A magia envolvida é o que traz um diferencial à trama, e ambos estão fortemente conectados, deixando a história de Eric muitíssimo interessante.

Apesar de tantos elogios e pontos positivos, Cidade Invisível peca em dois quesitos: lendas brasileiras estão sendo retratadas e muito é falado sobre a importância de nossas origens, mas não há a inclusão de indígenas. Outro ponto é a distorção de algumas lendas – Iara, mãe d’agua, é tradicionalmente de água doce, não do mar -, apesar de isso ser atribuído à liberdade criativa.

A produção ficou no top 10 de mais assistidas em mais de 40 países, dando uma boa visibilidade ao nosso folclore e mostrando que nossas lendas e histórias são tão ricas e quanto qualquer outra, e ainda há muito para ser explorado.

A segunda temporada de Cidade Invisível já foi confirmada pela Netflix e deve estrear no primeiro trimestre de 2022.

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Louise Minski

Um experimento de Schrödinger entediado.

2 thoughts on “Cidade Invisível – 1ª temporada (2021)

  • 01/08/2021 em 13:45
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    Essa foi uma série que não me atraiu inicialmente e não tive vontade de ver logo que foi lançada, mas devido ao forte apelo de comentários, resenhas, etc., acabei por querer conferir por mim, mesmo sem entusiasmo. E fui surpreendida positivamente, realmente não esperava. Gostei da caracterização das entidades e da representação da vida marginalizada, com o abandono da cultura e destruição da natureza. Mesmo assim, existem vários problemas na trama, como o local onde se desenvolve, alheio à origem das lendas, a morte da esposa do protagonista como irritante motivação para ele (de novo isso?), também achei que um bom personagem, que poderia ser melhor explorado, foi descartado muito rapidamente próximo do fim da temporada, além de aquela menina dormir o tempo todo, hehehe.
    Não sei se vou querer assistir a uma nova temporada, nem sei o que exatamente esperar, mas, entre erros e acertos, no geral achei interessante e foi uma surpresa boa em relação ao que eu imaginava que seria.

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