Halloween 6: A Última Vingança (1995)

4.1
(8)

Halloween 6: A Última Vingança
Original:Halloween: The Curse of Michael Myers
Ano:1995•País:EUA
Direção:Joe Chappelle
Roteiro:Daniel Farrands
Produção:Paul Freeman
Elenco: Donald Pleasence, Paul Rudd, Marianne Hagan, Mitchell Ryan, Kim Darby, Bradford English, Keith Bogart, Mariah O'Brien, Leo Geter, J.C. Brandy, Devin Gardner, Susan Swift, George P. Wilbur, Janice Knickrehm

Só não é pior do que Halloween 5 e 6.“. Essa frase ou pensamento não é somente associado ao remake e à continuação dele, realizados por Rob Zombie, como também foi ampliada para o recente Halloween Kills. Aliás, as partes 5 e 6 da franquia original de Halloween são sempre lembradas como comparação a qualquer outro slasher, sendo que o último traz os pregos do caixão do gênero dos anos 90 – e só voltaria a atrair bons olhos com o pontapé da franquia Pânico, em 1996, e depois com o respiro Halloween H20. O que se pode dizer sobre a sentença, constantemente escritas nas redes sociais, é o incorreto apontamento ao longa de David Gordon Green e ao fato que a parte 5, ainda que irregular, ainda é assistível em comparação ao sexto filme. E este ainda torna-se pior para aqueles que não conhecem a “producer´s cut“, que traz diferenças significativas em relação ao que foi lançado nos cinemas.

Depois que Halloween 5, lançado apenas um ano depois da boa quarta parte, teve uma péssima recepção nos box offices, o produtor executivo Moustapha Akkad acreditou que talvez fosse melhor deixar Michael Myers descansar. Alguns anos depois, ele e o produtor do quinto filme, Ramsey Thomas, receberam o roteiro de Daniel Farrands, que, assumido fã da franquia, imaginava como poderia ser uma continuação. Ele havia traçado a timeline da cine-série, com a biografia de cada personagem e configurado a árvore genealógica de Michael Myers, possibilitando uma atmosfera muito parecida com a do original, sem deixar de lado um símbolo rúnico mostrado discretamente como tatuagem no pulso do “assassino de babás“. A proposta empolgou, mas para colocá-la em prática primeiro seria preciso resolver um problema dos bastidores.

A Miramax, através da Dimension Films, havia comprado os direitos pela franquia Halloween, e contratou Phil Rosenberg para escrever o roteiro da sexta parte. Quando o argumento, intitulado Halloween 666: The Origin, chegou às mãos de Akkad, de acordo com o site Dread Central, ele teria nem chegado à metade e atirou-o para longe. Assim, chegou a vez de Quentin Tarantino (!!) pensar em um novo filme, para a direção de Scott Spiegel. Embora não tenha realmente finalizado um roteiro, o diretor de Pulp Fiction imaginava Michael Myers e o Homem de Preto – figura que apareceu no quinto filme – atravessando o país assassinando pessoas, tal qual outro longa da Miramax, Assassinos por Natureza. E houve também uma outra ideia que partiu de John Carpenter sobre Michael Myers atacar em uma estação espacial, um absurdo que só iria se tornar realidade com Jason X. Esses e outros conceitos bizarros fazem parte da série de roteiros desenvolvidos para o sexto Halloween, mas que nunca tiveram uma luz verde.

Uma continuação para a trajetória sangrenta de Michael Myers se transformou em uma piada em Hollywood. Parecia que o único meio da franquia deixar de estimular a criatividade de realizadores e roteiristas seria abraçar uma delas e transformá-la em filme. Em 1994, Farrands foi contratado para finalmente escrever o roteiro de um sexto filme. Ele pensou em estabelecer conexões com toda a série, mas principalmente desenvolver a ideia apresentada no quinto sobre a runa Thorn, tatuada em Michael, e dar um sentido ao Homem de Preto. A runa poderia trazer as respostas sobre o extinto assassino de Michael Myers, assim como sua imortalidade. Farrands aproveitou um diálogo de Halloween II sobre Samhaim e a “época em que o véu entre os vivos e os mortos é mais tênue“, e também uma ideia vista na novelização Halloween, de Curtis Richards, de 1978, que além de já se referir ao druidismo também anteciparia uma informação sobre o tormento das vozes. Akkad pensava que a relação entre o culto druida e a cidade de Haddonfield seria desenvolvida no sétimo filme, mas felizmente Jamie Lee Curtis retornaria à franquia para ignorar completamente as continuações no interessante H20.

Cerca de dez roteiros depois, muitos rascunhos e ideias não desenvolvidas, o amaldiçoado Halloween 6: A Última Vingança ainda enfrentaria outras batalhas. Depois de filmado, foi feita uma exibição teste para um público composto por adolescentes. Com a desaprovação quase absoluta, o longa passou para um processo de refilmagem e acréscimos de cenas, mas não poderia contar com o astro Donald Pleasence, que, já bastante doente durante as gravações, faleceu em 2 de fevereiro de 1995. E para as novas cenas tiveram ainda que substituir o ator que vestiu a máscara branca, George P. Wilbur, por A. Michael Lerner, para que a sua forma física alterada não fosse notada – e acabou sendo pela razão oposta ao mostrar um assassino mais magro em dadas cenas.

Com tantos obstáculos, o longa não tinha como dar certo. Com a estreia em 29 de setembro de 1995, Halloween 6 até que se saiu bem nas bilheterias: conquistou U$15 milhões para um custo de U$5, o que talvez tenha impulsionado o interesse pela produção do H20. Contudo, as críticas agiram como os cidadãos de Haddonfield em Halloween 4, massacrando qualquer perspectiva otimista que poderia vir do retorno de Donald Pleasence. Nem o icônico Dr. Loomis foi capaz de evitar que o filme fosse considerado uma bagunça narrativa, um pseudo-slasher. E isso incluiu até a nova versão da música tema de John Carpenter em uma sonoridade mais eletrônica, com sintetizadores, guitarra, e tambores, agredindo mais do que o psicopata fez em 1963 com sua irmã Judith.

Farrands quis dar sua contribuição à franquia com acréscimos que, ao tentar tapar alguns buracos do roteiro original, não serviram adequadamente, além de soarem pretenciosos. Um deles é a de que o jovem Michael Myers estaria sob os cuidados da Sra. Blankenship na noite fatídica de 1963. Ele teria atravessado a rua com sua roupa de palhaço, pego a faca para fatiar a irmã. A questão era: como uma criança fica sem a disposição de uma babá e sob os cuidados de uma irmã sexualmente ativa na noite de Halloween? Tão desnecessário quanto a ideia de que os Strodes – sim, parentes de Laurie, que sobreviveu ao confronto com Myers -, estão vivendo na casa onde acontecera o crime mais famoso da cidade, sem saber nada sobre o assunto. Se levar em consideração que o local havia sido pichado e vandalizado por crianças durante 26 anos, como familiares diretamente relacionados não tinham noção do passado?

E o conhecedor da franquia quis estabelecer uma conexão com o clássico de John Carpenter com a volta de Tommy Doyle. Como o ator do original, Brian Andrews, não tinha agente e não pode ser contratado, o papel adulto ficou com Paul Rudd, o Homem-Formiga em seu primeiro papel de reconhecimento. Ele faz de seu personagem o esquisitão que reside em frente à casa de Michael Myers, não falando com ninguém, enquanto observa o movimento da rua com seu binóculo. Ele está traumatizado por ter sido colocado em um armário por Laurie em companhia de Lindsey Wallace durante o Halloween de 78. Não chegou a nem sequer ver sangue ou a morte de qualquer pessoa, mas foi suficiente para estabelecer problemas psicológicos que o iriam acompanhar dezessete anos depois.

Talvez, os traumas tenham se desenvolvido nos espectadores quando viram que Jamie Lloyd (J.C. Brandy, nos filmes anteriores vivida por Danielle Harris) estaria dando à luz no prólogo do filme, em 30 de outubro de 1995, pelos interesses de um culto druida. Jamie consegue escapar, quase com a ajuda da parteira e do próprio Michael Myers, que surge para matar todo mundo. Seu arquirrival Dr.Loomis (Donald Pleasence), agora sem a grande cicatriz do quarto filme, recebe o contato do colega Dr. Wynn (Mitchell Ryan), com quem trabalhou no sanatório Smith’s Grove, de onde Michael escapou pedindo para que ele visite o local, ao passo que Jamie consegue pedir a ajuda do psiquiatra através de um programa da rádio (!!!). Felizmente Loomis estava ouvindo em seu retiro, e resolve atender ao pedido de Wynn para retornar à cidade, consciente que Myers estava à solta pelas ruas. Percebe o quanto o roteiro é cheio de coincidências para facilitar o reencontro dos personagens na noite de Halloween?

Se ainda não se convenceu, saiba que será Tommy a pessoa que irá encontrar o filho de Jamie e irá assumir sua proteção. Sim, não foi visto por Michael Myers quando ele matou a garota e nem por qualquer outra pessoa que pudesse passar pelo terminal de ônibus (ainda bem que terminais vivem vazios e ninguém se importaria com o choro de um recém-nascido). Sem encontrar o pequeno, o mascarado parte para sua casa, onde encontrará residentes como o pequeno Danny Strode (Devin Gardner), sua irmã Kara (Marianne Hagan), o irmão Tim (Keith Bogart), além dos pais, Debra (Kim Darby) e o falastrão John (Bradford English) – nomes em referências a John Carpenter e Debra Hill. Aliás, há várias outras no decorrer do filme como a presença da ex-babá Sra. Blankenship (Janice Knickrehm), nome outrora disposto em Halloween III. Precisaria avisar ao Farrands que mostrar que viu os filmes anteriores não significa muito se o enredo não ajuda.

Embora esquisitão, Tommy estudou bastante sobre a influência druida e a runa Thorn. Ele conta que, de acordo com a mitologia, uma criança deve ser escolhida para matar um parente no dia de Samhaim, como fizera Michael Myers em 78. E agora ele busca a criança descendente para finalmente encerrar o ciclo familiar. Junte isso à informação sobre a babá de Michael ter notado que o garoto parecia possuído na noite de Halloween; e que agora Danny segue o mesmo caminho, pois está ouvindo vozes que o impulsionam a fazer o mesmo. Essa bagunça narrativa ainda irá se estender com a revelação que o tal Homem de Preto é ninguém menos que o Dr. Wynn. E que este, mesmo com uma grande oportunidade de impedir as ações de Dr. Loomis e Tommy irá apenas desmaiá-los nas chances que tiver, só pensando em ações mais drásticas em outras oportunidades. A sequência que acontece na casa, onde todos se revelam como parte do culto – e isso inclui a Sra. Blankenship – é bem mal dirigida por Joe Chappelle, como outras ao longo do filme.

A partir do momento em que o filme foi lançado e amplamente criticado, veio a informação que a versão teste ainda estaria disponível. Não satisfeitos com a gosma verde que desce da máscara branca e a morte boba do assassino imortal, os fãs do personagem pediram que ela fosse lançada. Assim Halloween 6: A Última Vingança: Corte do Produtor veio a público não comercialmente para mostrar grandes diferenças em relação ao que fora lançado nos cinemas. Ainda que também ruim, ela mostra, pelo menos, um destino mais condizente para o Dr.Loomis e não esconde o Homem de Preto da sequência final, colocando todos diante de um ritual druida para que Danny mate Kara na noite de Samhaim. Michael ainda demonstra interesse pela criança, revelada como fruto de uma relação incestuosa sua com Jamie. Esta não é morta no celeiro como a versão do cinema, mas levada ao hospital em coma para depois encontrar seu destino nas mãos do Dr. Wynn.

Além da versão para os cinemas e do Corte do Produtor existe também a Corte do Diretor, com as edições promovidas pela MPAA. Mesmo com múltiplas versões e edições, Halloween 6: A Última Vingança não conseguiu se salvar da mediocridade. Destas a minha preferida é a do produtor por pelo menos tentar um encerramento mais coerente. Existem inúmeras bobagens ali como a cena em que Tommy usa o poder das runas para afetar as ações de Michael Myers e todo o culto estereotipado, apesar do encurtamento da morte de John eletrocutado no porão. Ali se encerraria a jornada de Michael Myers na franquia original, para depois virem as reinvenções e remakes, apesar de Farrands revelar em entrevistas o que pensava para um sétimo e até oitavo filme.

Por todas as possibilidades vistas, fica apenas o pesar pelo modo como tudo se desenvolveu, os equívocos evidentes e principalmente pelo que o longa proporcionou à memória de Dr. Loomis. O eterno perseguidor de Michael Myers merecia uma trajetória final mais digna.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Halloween 6: A Última Vingança (1995)

  • 06/11/2021 em 04:11
    Permalink

    Eu
    acho o 5 e 6 bem melhores que h20 nesse setimo filme michael so apanha nao mata quase ninguem e as poucas mortes sao bem fracas

    Resposta

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