Hotel da Morte (2011)

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Hotel da Morte
Original:The Innkeepers
Ano:2011•País:EUA
Direção:Ti West
Roteiro:Ti West
Produção:Derek Curl, Larry Fessenden, Peter Phok, Ti West
Elenco:Sara Paxton, Pat Healy, Kelly McGillis, Alison Bartlett, Jake Ryan, Lena Dunham, Brenda Cooney, George Riddle, John Speredakos, Sean Reid

A carreira da atriz Sara Paxton como uma promissora scream queen traz alguma similaridade com a de Ti West como diretor do gênero. Em 2009, ela estreou no terror atuando como a nadadora Mari em A Última Casa (Last House on the Left), enquanto West chamava a atenção nesse mesmo ano com o interessante A Casa do Diabo (The House of the Devil), embora também tenha cometido na época o péssimo Cabana do Inferno 2 (Cabin Fever 2: Spring Fever). Pós Hotel da Morte, que marcou o encontro dos dois, Paxton fez Terror na Água 3D (Shark Night 3D), Enter Nowhere (2011) e Static (2012), mas parou aí, atuando depois apenas em comédias, produções biográficas e séries, com destaque apenas para uma participação em Twin Peaks: O Retorno (2017); já Ti West dirigiu dois segmentos – um em V/H/S e outro em O ABC da Morte, ambos de 2012 – e fez o terror O Último Sacramento (2013), comandando a partir de então somente episódios de diversas séries como Wayward Pines, Outcast e O Exorcista. O que será que aconteceu na passagem pelo Hotel da Morte, razão pela qual deixaram de lado o gênero?

É claro que se trata de uma brincadeira. Essa comparação, na verdade, é apenas para mostrar que ambos eram nomes realmente promissores para o gênero, e que, depois de trabalharem juntos, optaram por caminhos diferentes do que se imaginava. Não era intenção de Paxton se tornar um scream queen, assim como Ti West optou por não comandar mais longas de terror, apesar de ter o nome associado no IMDB a um filme intitulado X, atualmente em pós-produção. O encontro dos dois em Hotel da Morte já evidenciava essas possibilidades: enquanto Paxton deixava à mostra sua veia cômica, West deixava de lado os sustos em prol de uma narrativa que se fortalece pela atmosfera proposta, lenta e levemente eficaz.

Com produção de Derek Curl, Larry Fessenden, Ti West e Peter Phok, na assinatura da Dark Sky Films em parceria da Glass Eye Pix, o enredo traz dois funcionários do histórico hotel Yankee Pedlar Inn em seu último fim de semana de atividade. A asmática Claire (Paxton) e seu colega Luke (Pat Healy) dividem o turno na recepção, enquanto planejam o registro das assombrações do local em um website. De posse de equipamento de gravação de sons para buscar o fenômeno EVP, como estudo da psicofonia, a dupla pretende entrar em contato com o fantasma de Madeline O’Malley (Brenda Cooney), que, no século XIX, enforcou-se no local depois de ter sido abandonada no altar, e teve o corpo escondido no porão pelos donos do hotel na época. É incrível como a base sobrenatural é a mesma do mistério do Véu da Noiva, lenda comum em Paranapiacaba!

Enquanto conversam trivialidades, tendo até então como hóspedes apenas uma mulher e uma criança, recebem o check in da atriz Leanne Rease-Jones (Kelly McGillis), que está o local para participar de um fórum nas proximidades. Após quarenta minutos sem nenhum acontecimento assustador – somente a interação da dupla é explorada e a atuação cômica de Paxton – Claire consegue captar com o microfone o som do piano sendo tocado e ainda consegue ver as teclas sendo pressionadas. Apavorada e ao mesmo tempo curiosa, ela descobre que Leanne é uma médium, que utiliza um pêndulo para comunicação com espíritos. E ela revela a presença de três no hotel, e avisa para a garota evitar a qualquer custo o porão.

E é exatamente ali que acontecerá a sequência mais arrepiante do filme, quando Claire e Luke resolvem entrar em contato com a assombração no próprio porão. Também causa um desconforto a chegada de um novo hóspede (George Riddle), com sua voz gutural e expressão triste, pretendendo utilizar um quarto em específico. O tal fantasma irá realmente aparecer em uma caracterização bem interessante, seja em um encontro na cama com Claire ou até mesmo no último ato, com o confronto nos ambientes mais escuros do hotel, mas talvez não precisasse. Muitos fãs de horror passaram a ter raiva de Ti West a partir deste filme, que explora mais a interação dos dois envolvidos do que nos sustos, mas seria muito mais condizente com a proposta se a entidade envolvida somente se manifestasse através do som, das vozes, do sussurro. Porém, o erro do diretor está exatamente em passar uma ideia diferente de seu filme, divulgando a aparência de Madeline em fotos e na capa de Hotel da Morte, tentando vendê-lo a partir de algo que exibe discretamente.

Além disso, o fato do enredo fazer uso do humor na postura e atitudes de Claire, até mesmo em gags bobas como aquela em que ela simplesmente tenta levar o lixo à lixeira, conduz a uma expectativa também diferente. Resumindo e usando outras palavras, a partir do material divulgado, tem-se a impressão de um filme de terror assustador, mas quando você percebe que em quarenta minutos a única reação sua foi a risada, a sensação de estar diante de uma obra enganosa é muito grande. E é provável que até mesmo o filme anterior de Ti West, A Casa do Diabo, tenha transmitido uma ideia equivocada. Você não terá um passeio ao Overlook Hotel, mas estará hospedado no Mon Signor Hotel (da antologia Grande Hotel, 1995).

Assim, distante de sua aparente proposta, Hotel da Morte ainda funciona como uma produção atmosférica, com alguns momentos capazes de despontar calafrios. Vale uma visita, desde que saiba que não se trata de um cinco estrelas.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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