Round 6 (2021)

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Round 6
Original:Squid Game
Ano:2021•País:Coreia do Sul
Direção:Hwang Dong-hyuk
Roteiro:Hwang Dong-hyuk
Produção:Hwang Dong-hyuk
Elenco:Lee Jung-jae, Park Hae-soo, Wi Ha-Joon, Jung Hoyeon, Oh Yeong-su, Heo Sung-tae, Anupam Tripathi, Kim Joo-Ryung, Lee Byung-hun, Kim Dong-Won, Kwak Ja-hyoung, Gong Yoo, Greg Chun

O maior sucesso da Netflix de todos os tempos, assumindo o topo da lista que já inclui La Casa de Papel e Stranger Things, Round 6 ou Squid Game superou as expectativas de seu próprio criador, Hwang Dong-Hyuk, que realmente não imaginava que iria tão longe e nem que poderia assustadoramente se tornar popular entre as crianças. Enquanto sobrevivia às custas de uma situação financeira delicada, Hwang rabiscou o roteiro de uma história inspirada em mangás como Battle Royale, Liar Game e Gambling Apocalypse: Kaiji, como uma alegoria de uma sociedade capitalista, disposta a participar de um jogo mortal para conquistar valores que possam lhe trazer um futuro tranquilo e sem dívidas. Esse grupo de perdedores, com um passado de frustrações e problemas familiares, teria como desafio seis jogos infantis, simbolizando a época em que a ingenuidade predominava sobre os interesses.

Bom, na verdade, a metáfora foi notada apenas em seu desenvolvimento, uma vez que o próprio autor disse ter optado por brincadeiras de criança apenas porque as regras eram mais fáceis. A partir dessas escolhas, desenvolveu o divertido episódio piloto, empolgando produtores pelo desenvolvimento de uma série em nove capítulos. Nele, somos apresentados ao protagonista, Seong Gi-hun (Lee Jung-jae), um rapaz viciado em jogos de azar, embora não tenha muito sucesso com eles, e que passou a ser ameaçado por agiotas, além da perspectiva pouco animadora de perder a filha, prestes a se mudar para os EUA. As porradas da vida são ainda mais intensas pelo avanço da doença da mãe e pela perda dos ganhos conquistados em uma aposta no contato com uma trombadinha.

Enquanto aguarda o trem para retornar para casa, é contatado por um estranho que o desafia em um literal jogo de cartas, o popular ddakji, com a possibilidade de adquirir uma quantia de dinheiro ou ser esbofeteado. Recebe, então, um cartão com três símbolos geométricos e a identificação de um número de telefone. É o primeiro passo que o conduz a uma ilha, com outras 455 pessoas para participar de um jogo dividido em seis etapas, e que permitirá ao vencedor conquistar uma quantia milionária. O que ele logo irá descobrir através do primeiro round, o jogo que por aqui é conhecido como Batatinha Frita 1, 2, 3 (nos EUA e em outros países de língua inglesa é chamado de Red Light, Green Light), é que cada competidor estará apostando com a vida. Em um pátio, os participantes terão que atravessar uma linha para se aproximar de uma imensa boneca, sem que ela note qualquer movimento com seus sensores ativados para evitar que sejam metralhados.

Ainda neste primeiro episódio, Seong conhece outros jogadores que terão grande influência em sua jornada como o idoso 001 (O Yeong-su), o paquistanês que salva sua vida, 199 (Anupam Tripathi) e um velho amigo de infância que estudou na Universidade de Seoul, 218 (Park Hae-soo). Com o tempo, outros rostos passarão a rodear as partidas como o da trombadinha 067 (Jung Ho-yeon), o agressivo gangster 101 (Heo Sung-tae) e a falante e reclamona 212 (Kim Joo-ryoung). Assim que notam as regras do desafio, os jogadores votam pela desistência, o que permite que o retorno à rotina se mostre miserável e problemática, como um incentivo para que participem das próximas rodadas para conquistar o grande prêmio.

À medida em que os episódios avançam, com jogos cada vez mais eliminatórios, a ganância e a luta pela vida a qualquer custo passam a se sobressair. Enquanto alguns revelam suas verdadeiras faces, pouco se importando com os outros, o próprio protagonista passa por uma transformação reflexiva, entendendo que a natureza humana pode ser bastante desagradável. Em um combate entre suas várias versões, Seong precisará enfrentar a si mesmo se quiser atravessar cada uma das provas, seja com inteligência ou força física, mas principalmente com sorte. Mas quem são os organizadores desse jogo e como ele funciona?

Muitas dessas respostas irão vir pelas ações do detetive Hwang Jun-ho (Wi Ha-joon), que consegue se infiltrar entre os organizadores para descobrir o paradeiro do irmão. Vestidos com roupas vermelhas e máscaras negras que escondem o rosto com símbolos geométricos (triângulo, quadrado ou círculo) e que impõem a hierarquia interna, os soldados armados que estruturam o jogo dividem suas tarefas entre manter o controle, alimentar e guiar os participantes, além de assassinar os perdedores, recolhidos em caixões com o aspecto de caixas de presentes. Entre eles, destaca-se o líder, o único que veste uma máscara com feições humanas e que decide as principais ações, como a de jamais mostrar o rosto e quais jogos infantis serão jogados, enquanto aguarda a chegada dos convidados VIPs. E há também uma desnecessária subtrama envolvendo tráfico de órgãos, com o apoio de um médico (Yoo Sung-joo) que ajuda na retirada do que será vendido em troca de informações sobre os jogos.

É claro que os seis jogos são os principais atrativos da série, o que chega a incomodar o quanto os episódios se arrastam até que eles aconteçam. Embora muitos spoilers tenham sido lançados nas últimas semanas – a própria boneca passou a ser vista em lugares diversos em São Paulo e outras capitais pelo mundo -, e basta estar próximo de crianças para saber quais são pela febre que a série proporcionou, é preferível que o infernauta os descubra pelos episódios. Há algumas pistas que podem ser notadas nas paredes dos dormitórios dos jogadores, que apresentam desenhos com a representação deles, caso você seja um observador atento. E cada um deles traz uma boa dose de tensão, daquelas de roer as unhas, e divertem até pela ideia de haver adultos jogando-os com uma seriedade absoluta.

Round 6 é puro entretenimento. Não tem seus méritos pela criatividade, até porque jogos que condicionam participantes a uma luta pela vida já estiveram em muitas obras por aí, como Battle Royale e até Jogos Vorazes, e também é envolto em clichês e obviedade, sendo possível até adivinhar quem serão os sobreviventes até a última rodada. Há momentos em que a série se arrasta desnecessariamente, e isso inclui muitas das cenas que envolvem o policial e que acabam quebrando o ritmo da narrativa, e outros exagerados dramas que poderiam ter ficados na sala de edição. Contudo, é um programa divertido e com altas doses de violência gráfica, com a exposição de corpos e órgãos, justificando a opinião assustada de Hwang Dong-Hyuk sobre crianças estarem vendo.

Com todo o sucesso conquistado – e que irá espelhar fantasias de Halloween e de Carnaval, podem apostar -, já se fala sobre a realização de uma segunda temporada, com novos desafios e uma proposta ainda mais ousada e curiosa. Imagina-se alguns caminhos que poderão conduzir a série, a partir do que foi mostrado no episódio final, e que possivelmente irão responder a muitas perguntas. De qualquer modo, é sempre muito bom resgatar as saudosas brincadeiras de infância, quando a nossa única preocupação era atravessar a amarelinha ou correr de um perseguidor no Barra-Manteiga.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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