A Babá – O Chamado das Sombras (2020)

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A Babá - O Chamado das Sombras
Original:Yaga. Koshmar tyomnogo lesa / Baba Yaga: Terror of the Dark Forest
Ano:2020•País:Rússia
Direção:Svyatoslav Podgaevskiy
Roteiro:Natalya Dubovaya, Ivan Kapitonov, Svyatoslav Podgaevskiy
Produção:Natalya Dubovaya, Ivan Kapitonov, Inna Lepetikova, Sergey Melkumov, Rafael Minasbekyan, Svyatoslav Podgaevskiy, Alexander Rodnyansky, Vadim Vereshchagin
Elenco:Oleg Chugunov, Glafira Golubeva, Artyom Zhigulin, Svetlana Ustinova, Aleksey Rozin , Maryana Spivak

Diz a lenda que Baba Yaga era uma entidade vil que sorrateiramente caminhava entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ela ordenava que os seus lacaios, criaturas cruéis e sobrenaturais, sequestrassem crianças e as trouxessem até o seu covil, onde suas almas seriam devoradas. Estas crianças eram esquecidas pelos pais e por todos, como se nunca tivessem existido. Passado muito tempo, enganam-se aqueles que pensam que estas histórias são apenas contos de fada.

Nos dias atuais, Egor está perdido e angustiado diante a sua nova realidade: além de superar a morte da mãe, o adolescente tem que se adaptar ao convívio da atual companheira do pai e da irmã recém-nascida. Outras preocupações são mais comuns à idade, como tornar-se amigo da bela vizinha ou escapar do grupo de valentões do bairro. Em casa, os pais resolveram contratar uma babá para educar e cuidar do bebê. Entretanto, ele suspeita do comportamento incomum e sedutor da mulher, que rapidamente ganha a confiança de todos. Algum tempo depois, ao retornar da escola, o garoto não encontra sequer vestígios da babá e da irmã mais nova – o pai e a madrasta parecem distantes e nem se lembram que um dia tiveram uma filha pequena. Para recuperar a irmã desaparecida, Egor contará com Dasha, sua vizinha, e com Anton, um desafeto disposto a ajudá-lo. Juntos, eles vão enfrentar toda a cólera de uma entidade demoníaca ancestral, conhecida como Baba Yaga.

Um comentário inicial e inevitável: o título adotado em português, A Babá – O Chamado das Sombras, induz a uma interpretação não muito correta do enredo. Sim, temos uma babá no filme, contudo a babá em si ou sua profissão não são o eixo central da trama. Melhor seria uma tradução literal do título escolhido para distribuição internacional (Baba Yaga: Terror of the Dark Forest), Baba Yaga: O Terror da Floresta Negra. Talvez haja alguma intenção marota de associar esta produção russa à série de filmes dirigidos por McG para a plataforma Netflix, A Babá (The Babysitter, 2019) e A Babá – Rainha da Morte (The Babysitter: Killer Queen, 2020). Um artifício um tanto desnecessário, pois o longa em questão tem algumas qualidades que podem lhe dar uma boa sobrevida.

O jovem cineasta russo Svyatoslav Podgaevskiy reforça com A Babá – O Chamado das Sombras (Yaga. Koshmar tyomnogo lesa) sua produtiva carreira dedicada ao gênero fantástico. Em apenas seis anos, foram lançadas seis longas dirigidos por Svyatoslav: A Sereia: Lago dos Mortos (2018, disponível no Amazon Prime Video na data de publicação deste texto), A Noiva (2017, em exibição na Netflix), A Dama do Espelho: O Ritual das Trevas (2015, em cartaz no Prime Video e curiosamente refilmado em solo americano em 2021) e A Torre do Mal (2014, também no catálogo do Prime Vídeo). Independente da irregularidade destas produções, é notável a dedicação do diretor, principalmente considerando seu país natal que, apesar de ter influenciado o cinema em suas origens com obras seminais como O Encouraçado de Potemkin (entre outros da era Eisenstein), hoje apresenta uma produção cinematográfica sem maior expressão.

Dado que Svyatoslav também assina o roteiro de A Babá (junto a Natalya Dubovaya e Ivan Kapitonov), em um primeiro momento, precisamos separar o trabalho do diretor e do roteirista. Referente à direção, o resultado é muito efetivo, pra não dizer até mesmo surpreendente. Na verdade, todas as características técnicas são impecáveis, desde o cenário moderno e cheio de detalhes, a fotografia em tons vivos e os efeitos sonoros marcantes. É significativo como o condomínio onde vive o protagonista é apresentado ao espectador: são tomadas externas abertas em alta definição que nos oferece uma nova visão sobre o espaço urbano coletivo russo, com prédios modernos substituindo as construções antigas e acabadas que o cinema costuma nos mostrar. Ou seja, o longa dirigido por Svyatoslav impressiona pela técnica e pelo visual, inclusive superando boa parte das produções americanas do gênero lançadas atualmente. Aliás, não fosse o idioma, seria difícil identificar a origem do filme.

Já considerando o roteiro, a premissa é interessante e original: reinventar uma história do antigo folclore eslavo, acrescentando personagens com alguma profundidade psicológica e desenvolvimento dramático, especialmente relativo às questões familiares. Porém, ao expandir o conceito de duas realidades distintas, o enredo se torna carente de coesão em diversos momentos; ainda que ao final, todas as peças possam ser conectadas e restem poucas incertezas. O roteiro ainda fracassa ao priorizar soluções fáceis e óbvias para os conflitos que cria, inclusive durante o grande embate final.

Mas afinal, como seria a “verdadeira” Baba Yaga?

Embora sua origem esteja ligada a tradição oral, a personagem folclórica teve diferentes representações nos contos populares russos do século XIX. Mas no geral Baba Yaga é descrita como uma mulher muito velha, que mora no interior de uma floresta, em uma casa que liga o dimensão dos vivos à dimensão dos dos mortos. Ela se alimentaria de ossos ou de criancinhas, além de voar em uma vassoura deixando um rastro de fumaça pelo céu. Seu comportamento é mais complexo e ambíguo do que o apresentado no filme, podendo também ajudar as pessoas que encontra. Notem que esta caracterização, principalmente a visual, coincide com o conceito estético da bruxa ocidental que o cinema ajudou a imortalizar, como a famosa Bruxa Má do Oeste, apresentada no clássico O Mágico de Oz, de 1939. No idioma russo, “Baba” significa “mulher sábia” ou “idosa” (e não babá), além de ser um diminutivo utilizado para a expressão “babushka” (avó). Já o termo “Yaga” significa “horror” (em croata) ou “bruxa” (no checo antígo).

Em relação ao elenco, destaca-se o casal de jovens protagonistas: Oleg Chugunov (de Major Grom Contra o Dr. Peste, 2021) vivendo Egor e Glafira Golubeva como Dasha, cujo desempenho é convincente dentro da proposta do filme. Completa o elenco Artyom Zhigulin (como o órfão problemático Anton), Svetlana Ustinova (como a belíssima babá Tatyana), Aleksey Rozin (interpretando o pai), Maryana Spivak (madrasta) e Igor Khripunov (como Mrachnyy, um desconhecido que também procura a filha desaparecida).

Mesmo que não haja sangue em profusão ou cenas de maior violência em A Babá – O Chamado das Sombras, os efeitos visuais apresentados ao final são bem eficazes. É importante ressaltar que, ademais dos protagonistas adolescentes, a opção por criaturas que, apesar de amedrontadoras, possuem uma estética limpa e colorida, ajudam a definir um público alvo menos hardcore, que prefere um terror e suspense fundamentado na fantasia.

Curiosamente há pelo menos duas referências que, por coincidência (ou não), estão relacionadas ao universo cinematográfico de Stephen King. A primeira é o próprio tema central do filme que explora uma entidade que se alimenta de crianças e é enfrentada por um grupo de amigos adolescentes, remetendo diretamente ao plot inicial de It – A Coisa (2017). A segunda, uma sequência em que o pai persegue o filho, revisita/homenageia a famosa cena do Jack Nicholson destruindo a porta do banheiro no Hotel Overlook em O Iluminado (1980).

Para os leitores que ficaram curiosos com a produção russa de horror, seguem outras sugestões: a principal é o clássico filme de bruxas Viy (dirigido por Konstantin Ierchov em 1967, baseado em uma novela de horror escrita pelo ucraniano Nikolai Gogol). Uma opção interessante é a ambiciosa trilogia inacabada sobre bruxas, vampiros e outros seres que estão em guerra, contadas em Guardiões da Noite e Guardiões do Dia (dirigidos em 2004 e 2006, por Dnevnoy dozor, adaptando os livros de Sergei Lukyanenko). Para os fãs de ficção científica e alienígenas, o recente e impecável Estranho Passageiro – Sputnik (2020, de Egor Abramenko) é uma boa pedida.

Em suma, o longa russo A Babá – O Chamado das Sombras, apesar de agradar por sua primazia técnica e visual harmonioso, fracassa no desenvolvimento irregular do roteiro. Em outros termos, o filme de Svyatoslav Podgaevskiy, acertada as expectativas, não deve decepcionar, mas igualmente não vai satisfazer o público mais exigente. Para quem quiser conferir, o filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 02 de dezembro de 2021.

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João Pires Neto

Apenas mais um rapaz latino americano vindo do interior. Ateu não praticante, vegetariano, viciado em Literatura, Rock and Roll e Cinema. Antifascista, antiespecista, feminista e pai de uma menina linda, de 3 cachorros e 1 gata preta. Formado em Letras e Literatura. Colaborador desde 2005.

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