Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2021)

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Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado
Original:I Know What You Did Last Summer
Ano:2021•País:EUA
Direção:Logan Kibens, Craig William Macneill, Benjamin Semanoff
Roteiro:Lana Cho, Phoebe Fisher, Sara Goodman, Shay Hatten, Chaconne Martin-Berkowicz, Johanna Stokes, Gary Tieche
Produção:
Elenco:Madison Iseman, Bill Heck, Brianne Tju, Ezekiel Goodman, Cassie Beck, Fiona Rene, Ashley Moore, Brooke Bloom, Sonya Balmores

Com o sucesso de Pânico, de Wes Craven, considerado o pontapé de um novo estilo de slasher teen, repleto de referências ao gênero, a presença de um assassino mascarado e atores mais velhos se passando por adolescentes, vieram outras produções do estilo, elevando o nome do roteirista Kevin Williamson a ponto de torná-lo um dos mais cobiçados de Hollywood. É dele também o desenvolvimento de uma adaptação leve de um romance de Lois Duncan, escrito em 1973, intitulado Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, envolvendo jovens que tentam ocultar um acidente fatal, sendo ameaçados por alguém que, como diz o título, sabe o que eles fizeram. A versão de 1997, dirigida por Jim Gillespie, e tendo no elenco Sarah Michelle Gellar, Jennifer Love Hewitt, Freddie Prinze Jr. e Ryan Phillippe, fez bastante sucesso e impulsionou duas continuações: Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (1998) e o péssimo Eu Sempre Vou Saber o que Vocês Fizeram no Verão Passado (2006), transformando o psicopata Ben Willis em uma entidade sobrenatural.

O anúncio de uma versão para a TV do romance despertou a dúvida sobre sua trama principal: iria envolver o mesmo enredo em uma versão alongada, algo mais próximo das páginas do livro original ou teríamos uma nova história, apenas fazendo uso da marca estabelecida pelo título? A resposta veio já no primeiro capítulo, quando acontece o atropelamento e a única vez em que a mensagem-título será vista. A escolha por uma outra trama de mistério e assassinato talvez decepcione os fãs do filme e os que esperavam uma esticada no roteiro original (como a primeira temporada de Um Drink no Inferno), mas pelo menos traria “sangue novo” e poderia proporcionar o interesse para saber a identidade do vilão até o derradeiro capítulo.

Disponível na Amazon Prime a partir de 15 de outubro, com direção de Logan Kibens, Craig William Macneill e Benjamin Semanoff, a série começa com o retorno de Lennon (Madison Iseman, de Annabelle 3 e Medo da Chuva, em papel duplo) para casa, após um ano de afastamento. Ela reencontra o pai Bruce (Bill Heck, da série Locke & Key) e a empregada Courtney (Cassie Beck, que lembra bastante a Dani Calabresa até mesmo no jeito de atuar), até encontrar uma mensagem em seu armário, com a cabeça de um bode e a mensagem “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado“, levando-a a reencontrar os amigos que fizeram parte de um episódio traumático no verão anterior. A narrativa mostra, então, a festa de formatura dela, sua irmã gêmea Alison, e os amigos Margot (Brianne Tju, de Medo Profundo: O Segundo Ataque), Dylan (Ezekiel Goodman), Riley (Ashley Moore) e Johnny (Sebastian Amoruso).

Alison é a versão recatada de Lennon. Sem interesse em festejar e apenas mantendo seu interesse distante por Dylan, ela briga com a irmã ao saber do momento íntimo que teve com o rapaz, enquanto os demais dividem suas preocupações com danças, drogas e bebidas. Ao sair da comemoração, com Alison fingindo ser Lennon, durante uma distração, o grupo atropela Lennon, e desponta a tal sugestão de esconder o corpo em uma caverna próxima, conhecida pela inundação diária e também por ter servido para os cultos e o suicídio de um grupo de religiosos. Com a promessa de não contar a ninguém sobre o ocorrido, a sequência em que o corpo é deixado no local traz a dúvida sobre Lennon estar mesmo morta, além do olhar atento de uma mulher, depois identificada como Clara (Brooke Bloom, de Tudo por Ela).

Enquanto tentam entender quem teria sido a pessoa responsável pela mensagem, ainda no primeiro episódio duas pessoas são violentamente assassinadas. Sem pessoa mascarada ou casaco de barqueiro, a sequência chama a atenção pelo modo sangrento como ocorre, desfigurando uma das vítimas. Mais personagens serão mortos nos episódios seguintes – aliás, há um grande número de vítimas -, além de pistas que irão revelar segredos obscuros da cidade e diversas possibilidades de autoria pelos crimes.

O mistério sobre a identidade do assassino em série perde a força quando boa parte dos personagens parece ter relação com alguma atitude ilegal. Até mesmo o pai da garota esconde uma relação com a policial da cidade, Lyla (Fiona Rene, de Ameaça Profunda), e uma anterior com Clara, o que poderia justificar o desaparecimento da mãe – suicídio, assassinato ou fuga? E não livra a própria protagonista de suas falhas, permitindo que o infernauta desconfie de sua identidade e sanidade o tempo todo, até o ponto de não se importar mais com a sua provável sobrevida.

Embora a trama até consiga prender o público até seu capítulo final, ela possui alguns equívocos, como a própria estrutura narrativa. Incomoda a atuação pesada de Dylan, situações que não acrescentam nada à história (há assassinatos gratuitos e que, depois da descoberta final, não se justificam) e os excessos de flashbacks: a sequência da festa de formatura será vista muitas vezes, sendo que não trará grandes novas, além de repetir o que já fora visto.

Em comparação ao filme da década de 90, há só o argumento básico: festa de formatura, atropelamento (mais pessoas no veículo), o amigo que aparece no local e eles precisam disfarçar a tragédia – aqui é Dale (Spencer Sutherland), que faz o papel do curioso -, a promessa de esconder o corpo (não dura muito pois até a protagonista conta para o pai na mesma noite) e a tal mensagem no espelho. Senti falta da Jennifer Love Hewitt girando o corpo enquanto pergunta “what are you waiting for? Ahn?“, além da presença visual do vilão, ainda que não precise de um gancho no lugar de uma das mãos.

Quem aprecia enredos teens de mistério e assassinato irá se interessar por Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, desde que saiba que se trata de uma nova história, sem relação com o filme de 97 ou com o livro, e que apresenta uma mistura de slasher com elementos religiosos. Com menos episódios e deixando de lado gorduras desnecessárias do enredo, teria um resultado mais eficiente e adequado.

 

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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