A Vingança de Jennifer: Deja Vu (2019)

2.7
(15)

A Vingança de Jennifer: Deja Vu
Original:I Spit on Your Grave: Deja Vu
Ano:2019•País:EUA
Direção:Meir Zarchi
Roteiro:Meir Zarchi
Produção:Terry Zarchi
Elenco:Camille Keaton, Jamie Bernadette, Maria Olsen, Jim Tavaré, Jonathan Peacy, Jeremy Ferdman, Holgie Forrester, Roy Allen, Alexandra Kenworthy, Terry Zarchi

Mesmo com toda a polêmica em torno de seu filme A Vingança de Jennifer, lançado em 1978, Meir Zarchi dirigiu apenas mais um outro filme, Family and Honor (1985), e passou a realizar outras funções não relacionadas à indústria cinematográfica. Volta e meia participava de fóruns e entrevistas, algumas ao lado da atriz Camille Keaton, respondendo perguntas sobre as ações agressivas da protagonista e até o modo como ela realizara sua vingança: com sedução e oferecimento de seu corpo, antes de assassinar aquele que antes a violentara. Ambos sempre foram defensores da obra, considerada de mau gosto, e fizeram questão de deixar claro que a intenção é servir de alerta para que não existam outras Jennifers por aí.

Também foram questionados sobre uma possível continuação. Não viam razão para fazer a personagem sofrer mais, ser agredida e violentada, mas com o lançamento da refilmagem em 2010, intitulada Doce Vingança, com a produção associativa e executiva de Zarchi, a ideia voltou a ser levada em consideração. Ganhou força com o lançamento de Doce Vingança 3: A Vingança é Minha, que trouxe de volta Jennifer Hills, interpretada por Sarah Butler, mostrando um possível “dia seguinte” para uma vítima de estupro. Assim, Zarchi entrou em contato com Keaton com a proposta de um novo filme, quarenta anos depois, mas que tenha como foco “a vingança da vingança” e que, obviamente, resultaria em outra vingança.

É claro que o próprio conceito se mostra oportunista e desnecessário, valendo apenas como registro pela possibilidade de rever Camille Keaton, não a personagem. Esta merecia sossego, uma vida menos tumultuada, sem ameaças e agressões. Contudo, Zarchi quis fazer desse novo filme quase um novo remake, apresentando uma página 2 do pesadelo de Jennifer Hills. E esqueceu de editar o filme, resultando numa obra de 2h25, com múltiplos diálogos inúteis, sequências longas demais com personagens irritantes e uma obra preconceituosa, que retrata pessoas do campo e de cidades pequenas do interior como desequilibradas, num sentido ainda pior do que os filmes da franquia Wrong Turn.

Começa com recortes do filme original, com a narração de Jennifer Hills (Keaton) numa entrevista a um programa de rádio, sendo observada com desprezo por aqueles que irão promover uma vingança, como Becky Stillman (Maria Olsen), esposa do estuprador Johnny, que fora castrado em 1978; o deficiente intelectual Herman Duncan (Jim Tavare), que é pai do também deficiente do filme anterior Matthew, enforcado; Scotty Chirensky (Jeremy Ferdman), primo de Andy, e Kevin Woods (Jonathan Peacy), irmão de Stanley, ambos mortos no rio, com o motor da lancha e machadada.

Para criar uma conexão com o anterior, na casa dos personagens é possível ver retratos dos agressores, mas em fotos da época de suas mortes, o que já evidencia a fraqueza do roteiro. E falha também pela passagem de tempo, uma vez que, 40 anos depois, os personagens deveriam ser muito mais velhos. Becky, além de não ser a mesma personagem mostrada no final do filme anterior, não aparenta ter 70 anos. Ainda que os atores tenham escondido suas idades no IMDB, todos ali deviam ser mais velhos, como Jennifer, única realmente condizente com a passagem de tempo. Sua filha no filme, Christy (Jamie Bernadette), depois se revela como fruto dos estupros, o que precisaria de uma atriz quarentona, mas que deve nem ter trinta anos.

Depois de almoçar com a filha, que demonstra interesse em deixar de ser modelo, embora seja retratada como a “mais conhecida do mundo“, Jennifer, autora de um livro intitulado “I Spit on your Graves“, retratando o inferno vivido, é questionada sobre não ter um marido. Christy iria começar a entender a razão disso quando as duas, saindo do local, são abordadas por um veículo contendo os tais parentes dos violentadores do filme original. Elas são levadas pelo bando, com afirmações sobre “pagar pelo que fez“, apesar de Christy estar ali equivocadamente, pois o interesse era apenas se vingar de Jennifer. Por alguma razão, o grupo se dispersa, sendo que três ficam com a escritora e Scotty recebe a missão de levar Christy para Nova Iorque – claro que o objetivo seria o assassinato dela, mas não se entende por que decidiram se separar.

Atenção para spoilers nos próximos parágrafos

Ameaçam enforcar Jennifer e pedem que ela cave sua própria cova – uma falha conceitual, pois depois é visto uma outra cova para ela no cemitério -, permitindo que ela consiga fugir do local. Aproveitando um descuido de Scotty, Chris também conseguirá fugir até mesmo com o veículo, mas algo mais aterrorizante está previsto para as duas. Depois de correr até um cemitério, encontrar as covas dos agressores (com fotos da época do filme pra variar), Jennifer tenta pedir ajuda na igreja, a mesma que em 1978 ela pediu perdão pelo que iria fazer – única exploração de ambiente do anterior vista no filme -, mas o padre, interpretado pelo próprio Zarchi, não atende aos apelos. Ela então é encontrada por Becky, e, por fim, degolada no local. Uma ação ousada do roteiro, mas que desmerece tudo o que a personagem fez e lutou para conquistar no filme original.

Christy irá encontrar o corpo da mãe, numa visão que por si só que já iria garantir suas ações de vingança, e será pega pelo grupo, sofrerá agressões e ainda será estuprada por Kevin. Conseguirá fugir por um momento de arrependimento de Herman para iniciar seu plano de contra-ataque ao estilo Jennifer Hills, sem imaginar que há mais pessoas na cidade que querem sua morte. Se o anterior deixava uma sensação de que só existiam quatro pessoas na cidade, aqui o número cresce um pouco, mas TODOS, SIMPLESMENTE TODOS estão envolvidos na vingança contra Jennifer, incluindo os pais de Johnny, Millie (Holgie Forrester) e o surdo Henry (Henry Roy Allen III), e a avó de Matthew, Beady Eyes Duncan (Alexandra Kenworthy).

Fim dos spoilers

É muito difícil realmente assistir a esta parte 2. Não apenas pela proposta “rape and revenge“, mas pela condução arrastada, sendo necessário o uso de fast foward do controle remoto para ignorar longas cenas em que os personagens conversam bobagens. Parece que o diretor quase não tinha um roteiro, largando os atores no ambiente para que falem qualquer coisa como se fossem seus personagens; e achou tudo produtivo, sem um corte adequado. Se extrair os excessos, A Vingança de Jennifer: Deja Vu teria razoáveis 1h30, mas ainda seria uma continuação desnecessária e apelativa. Além de encher de cortes do filme anterior, Zarchi quis homenagear a obra reproduzindo muitas cenas do longa de 78, como a de Chris sentada numa cadeira de balanço e a morte de Kevin – similar à de Johnny -, mas soaram apenas como referências.

A Vingança de Jennifer: Deja Vu é uma afronta ao longa anterior. O primeiro ainda tinha uma mensagem importante sobre a violência sofrida pelas mulheres, a exploração sexual, o feminicídio. Neste, nada funciona. Poderiam ter mostrado um lado de Jennifer como ativista de apoio a mulheres que sofrem de assédio, sem a necessidade de mostrar uma nova vingança, outro estupro. Mulheres que sofrem abusos e são violentadas ficam marcadas por esse pesadelo, sofrendo pelo resto da vida (isso quando não se matam), o que já seria um bom argumento para uma continuação, deixando entender que o horror vai além do ato consumado, mas das cicatrizes que sempre se abrem.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

3 thoughts on “A Vingança de Jennifer: Deja Vu (2019)

  • 27/02/2024 em 17:27
    Permalink

    “É muito difícil realmente assistir a esta parte 2”
    Marcelo Milici depois de vez esta lixo pela 987985416521321215416554846512416521230231321 vez

    “Porrrrrra!!! Tudo isso??”
    Papacu assustado com a tara que o Marcelo Milici tem por este filme

    “Essa é a última vez que assisto a este filme. Juro!”
    Marcelo Milici fazendo esta promessa pela 874984651321524158465498465132123154165121 vez

    “Nosso melhor cliente”
    Meir e Terry Zarchi sobre Marcelo Milici

    Resposta
  • 10/06/2023 em 11:55
    Permalink

    Este filme A vinganca de Jennifer deja vu é tão bom quanto o primeiro filme. Com muita violência e sexo esta continuação é um excente filme de horror e suspense. Recomendo para todos.

    Resposta
  • 01/09/2022 em 21:26
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    Rapaz… Deve ser thash pra Caraí 😅😂😂😂
    Depois dou uma olhada,nem que seja pra rir😉

    Resposta

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