Emanuelle and the Last Cannibals (1977)

3.5
(4)

Emanuelle and the Last Cannibals
Original:Emanuelle e gli ultimi cannibali
Ano:1977•País:Itália
Direção:Joe D'Amato
Roteiro:Joe D'Amato, Romano Scandariato
Produção:Gianfranco Couyoumdjian
Elenco:Laura Gemser, Gabriele Tinti, Nieves Navarro, Donald O'Brien, Percy Hogan, Mónica Zanchi, Annamaria Clementi, Geoffrey Copleston, Dirce Funari, Pierluigi Cervetti, Bona Bono, Maria Gabriella Mezzett

Quando Umberto Lenzi realizou Mundo Canibal (Man from Deep River aka Deep River Savages, entre outros títulos), em 1972, não imaginava que o subgênero fosse tão longe. Mas foi o suficiente para estabelecer um curioso debate com Ruggero Deodato sobre o precursionismo dos filmes de canibais – ele acreditava que seu filme, O Último Mundo dos Canibais (1977), tinha sido a real inspiração para o estilo – e ainda promover algumas misturas curiosas, como a que aconteceria no crossover com o pornô softcore (gênero que traz cenas de sexo não tão explícitas). E só podia ser Joe D’Amato o idealizador dessa mistura que teve poucos méritos, valendo pela curiosidade e conhecimento do período, e poucas novidades à cartilha já estabelecida.

Foi o quarto filme de D’Amato para a franquia Black Emanuelle, que trazia a belíssima Laura Gemser como uma jornalista e fotógrafa investigativa chamada Mae Jordan, conhecida pelos leitores como Emanuelle. Como era de costume nos filmes de canibais do período trazer cenas de nudez e carnificina, a conexão com o universo de Emanuelle foi até natural, apesar dos exageros eróticos. Assim, o longa tem basicamente uma cena de sexo a cada cinco minutos, desde masturbação feminina a sexo oral e corpos nus se entrelaçando em lugares diversos, independente se momentos antes os personagens tenham testemunhado um cadáver em deterioração ou visto um documentário de canibais com direito a castração.

Todo exagero também se nota nas cenas de violência canibal, com efeitos de sangue extremamente vermelho, passível de se notar as falhas até nas mutilações explícitas, e a contribuição de um elenco canastrão para tornar a experiência do espectador ainda mais divertida. O longa sobreviveu aos cortes da censura em 1977, conseguindo um lançamento na Itália no mesmo ano, para depois alcançar o VHS, sendo lançado com diversos títulos como Emanuelle’s Amazon Adventure e Trap Them and Kill Them, mas preservando o original Emanuelle e gli ultimi cannibali. Com boas e más criticas, até mesmo dos fãs da Black Emanuelle mas não tão íntimos do horror canibal, o longa foi definido acertadamente por Cavett Binion, do AllMovie, como “muito sangrento para os fãs do softcore e muito chato para quem curte gorehound.

Após algumas tomadas aéreas de Nova York, destacando-se as tradicionais Torres Gêmeas como referência, o filme começa em um hospital psiquiátrico onde uma situação estranha acabara de acontecer: uma paciente encontrada no Mato Grosso mordeu um dos seios de uma enfermeira – apontada como lésbica por um outro psiquiatra, interpretado pelo próprio Joe D’Amato, – aparecendo nua gritando pelos corredores e atraindo a atenção de todos, incluindo Emanuelle, que havia se internado para realizar uma matéria no local com o uso de um ursinho-câmera. Sozinha com a paciente voraz, Emanuelle masturba a garota antes de fotografá-la com o órgão genital à mostra.

Assim que apresenta o conteúdo ao seu editor-chefe, ele sugere que a jovem procure o professor Mark Lester (Gabrielle Tinti), que trabalha como curador do Museu Americano de História Natural, para saber mais sobre a tribo Apiaca, localizada na Amazônia e considerada extinta há anos. Depois de ter relações com o namorado, a jornalista encontra o rapaz, com quem já flerta, e após um jantar e um passeio à casa dele, ela assiste a um documentário sobre a tribo, antes de rolar na cama com o dito, em uma longa cena que será vista durante a ida de táxi dos dois ao aeroporto. Emanuelle e Mark logo embarcam para a Amazônia – embora os letreiros finais indiquem as filmagens em Tapurucuara, Brasil, na verdade foram feitas em Roma, com tomadas da Amazônia oriundas do filme As Noites Pornôs no Mundo (1977).

Estabelecidos, a dupla transa mais uma vez, e vão em expedição a um local mais próximo do avistamento da tribo com a jovem Isabelle Wilkes (Monica Zanchi) e a freira Angela (Annamaria Clementi), que pretende procurar o padre Manolo, com quem perdeu o contato. Assim que atravessam o rio, Emanuelle é atacada por uma cobra e é salva pelo caçador Donald McKenzie (Donald O’Brien), unindo-se ao grupo com o apoio da esposa Maggie (Nieves Navarro) e seu guia Salvatore (Percy Hogan). Estes estão em busca de um avião que teria caído na região com diamantes, mas são apenas desculpas para que Maggie faça sexo com Salvatore, sendo testemunhada pelo marido, e depois tente tocar nas partes íntimas de Isabelle.

Ah sim, os tais canibais. Com a câmera subjetiva evidenciando o olhar de atores filipinos na mata (muitos “contratados” no aeroporto, brancos com os corpos pintados), alguns do grupo começam a desaparecer até realmente o filme mostrar a que veio com os ataques aos personagens principais. Seios mutilados, corpo varado por facas, cortado ao meio e estupro coletivo dão o tom violento da produção que, como era comum nos filmes da época, ainda traz uma cena de areia movediça e os famosos rituais canibais, sendo o da fertilidade mostrado em sua quase integridade. Logo os sobreviventes terão que encontrar uma forma de salvar uma mulher sequestrada em meio a um grupo enorme de canibais, com suas lanças afiadas e gritos constantes.

Além dos efeitos especiais não tão bons, o longa também peca pelo roteiro, a cargo de Romano Scandariato (depois faria Zombie Holocaust, 1980), a partir de um argumento do próprio D’Amato. Com um ritmo arrastado, com mais cenas de sexo do que canibalismo, ainda há momentos risíveis como as tomadas do andar de Emanuelle e Mark por Nova York com os cidadãos aparecendo na cena, olhando para a câmera, sem entender o que acontece, e uma sequência no último ato com dois personagens assistindo ao ritual dos canibais e a morte de duas pessoas antes de resolverem fazer algo para ajudar. Já que não pretendiam agir, por que simplesmente não foram embora, correndo o risco de serem também pegos pelos canibais?

Não é um filme ruim, mas tem pouco a oferecer. Quem já viu outros filmes de canibais da época não irá se surpreender com o envolvimento de Emanuelle e suas cenas de sexo, nem com a violência, com desmembramentos ou carnes vermelhas sendo devoradas pelos indígenas. Vale pela curiosidade e pela oportunidade de conhecer esse subgênero que contribuiu para a história do horror no cinema.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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