A Marca do Vampiro (1935)

4.3
(4)

A Marca do Vampiro
Original:Mark of the Vampire
Ano:1935•País:EUA
Direção:Tod Browning
Roteiro:Guy Endore, Bernard Schubert, John L. Balderston, Tod Browning, H.S. Kraft, Samuel Ornitz
Produção:Tod Browning, E.J. Mannix
Elenco:Lionel Barrymore, Elizabeth Allan, Bela Lugosi, Lionel Atwill, Jean Hersholt, Henry Wadsworth, Donald Meek, Jessie Ralph

“Não há inimigo mais sujo ou implacável do homem no mundo oculto do que essa criatura morta-viva vomitada da sepultura.” (Prof. Zelin)

A relação de Bela Lugosi com o vampirismo não foi de amor recíproco. Embora tenha feito o papel do Conde Drácula na Broadway, em 1927, o que tornou absoluto seu convite para atuar em Drácula, de 1931, Lugosi temia que pudesse ser eternamente associado ao personagem do livro de Bram Stoker, tanto que nem imaginava a possibilidade de voltar a usar a longa capa preta. Ainda assim, envolvido em papéis diversos de filmes de horror, atuando como Ygor, em Filho de Frankenstein, entre outros personagens de produções B – praticamente todo o cinema do gênero já não era visto com bons olhos -, a imagem de Lugosi sempre terá associação com o mais famoso vampiro e seu sotaque húngaro. Uma espécie de maldição, pode-se dizer.

Assim, você pode estranhar por que Bela Lugosi aceitou, quatro anos depois, atuar como um Conde vampiro no longa A Marca do Vampiro (Mark of the Vampire, 1935). Talvez por não ser propriamente o Drácula? Mas o visual é praticamente o mesmo, assim como a ambientação e os morcegos que circundam o longa de Tod Browning, que – pasmem! – dirigiu o tal filme de Drácula pela Universal Pictures! Talvez essa ojeriza possa não ser com o personagem, nem com vampirismo, mas com o estúdio, com os recursos disponibilizados, você poderia pensar a respeito. Especulações à parte, a resposta também não virá após conferir o filme A Marca do Vampiro.

As primeiras exibições apontavam um filme de 80 minutos, mas a MGM cortou muitas cenas antes de sua estreia oficial, e a versão integral é considerada perdida. Com isso, temos um média-metragem – exatos 60 minutos – onde as coisas acontecem de maneira “atropelada“, com personagens desaparecendo em cena, conversas sobre situações que não foram mostradas, e momentos que não fazem o menor sentido. E qualquer coerência se perde ainda mais com um certo plot twist no último ato, algo que nem mesmo o elenco sabia que iria acontecer, o que resultou em complicações que o roteiro de Guy Endore e Bernard Schubert não soube explicar. Tanto Lugosi quanto a atriz que faz sua filha Luna, Carroll Borland (que trabalhou com o ator na peça de teatro), disseram em entrevistas na época que acharam a reviravolta absurda.

Sobre esse fiapo de enredo, A Marca do Vampiro começa com o assassinato de Sir Karell Borotyn (Holmes Herbert), encontrado com duas perfurações no pescoço e sem sangue. O Inspetor de Polícia de Praga, Neumann (Lionel Atwill), é chamado para investigar a morte, e não acredita nos relatos do médico Dr. Doskil (Donald Meek) e do amigo da vítima, o Barão Otto von Zinden (Jean Hersholt), sobre se tratar de uma ameaça sobrenatural, pendendo acusações para o Conde Mora (Lugosi) e sua filha Luna (Borland), residentes em um castelo.

Eles realmente são vistos em diversas situações, andando por cemitérios e visitando a residência da família, assim como morcegos, culminando com o ataque a filha de Karell, Irena (Elizabeth Allan) e seu noivo Fedor (Henry Wadsworth), o que traz para a investigação o especialista em ocultismo e vampiros, professor Zelen (Lionel Barrymore, de A Felicidade Não se Compra, 1946), que sugere uma visita às ruínas do castelo para exterminar os vampiros, e depois uma sessão de hipnotismo, o que leva à tal revelação na reconstrução do crime.

A descoberta final provavelmente deve ter decepcionado o público da época. Além de toda a expectativa desenvolvida com a presença imponente de Bela Lugosi, em mais uma ótima performance, o fato do filme ter um enredo similar ao clássico mudo London After Midnight (1927), sem ser oficialmente uma refilmagem, deve ter contribuído para uma sensação de decepção. Os cortes do estúdio ajudaram nisso, mesmo com algumas declarações de que as cenas retiradas eram as cômicas, incluindo as que envolviam a personagem Maria (Leila Bennett). Alguns relatos sugerem que havia sequências ali que deixavam a entender um relacionamento incestuoso entre o Conde e sua filha.

A despeito dessa bagunça narrativa, o filme tem seus momentos. Até mesmo as cenas feitas em estúdio, recriando cemitérios e os voos constantes de morcegos, além do castelo, sua longa escadaria, as teias de aranha e o passeio de Luna, dão um tom de horror gótico à fotografia em preto e branco, associado à atmosfera noir de investigação policial. A Marca do Vampiro poderia figurar com destaque na galeria de atuações marcantes de Bela Lugosi, e como um “pedido de desculpas” de Browning por ter feito o polêmico Monstros (Freaks, 1932), mas não vai além de seu registro, sem muita importância aos envolvidos.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.3 / 5. Número de votos: 4

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Avatar photo

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *