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Ed & Lorraine Warren: Luz nas Trevas
Original:The Devil in Connecticut
Ano:2023•País:EUA
Autor:Gerald Brittle•Editora: Darkside Books

Em 1981, durante um julgamento de homicídio, aconteceu algo inédito para o juiz, jurados e todos ali presentes. O réu, Arne Cheyenne Johnson, declarou-se inocente – o que não é incomum em um tribunal – e foi mais além: declarou que não se lembra de ter matado alguém, pois estava sendo controlado por forças demoníacas naquele momento. Foi a primeira vez que alguém alegou possessão como argumento de defesa em um tribunal dos Estados Unidos. Os já conhecidos investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren acompanharam de perto o caso, que é muito mais profundo e complexo do que o que chegou aos tribunais. Em 2021 o filme Invocação do Mal: A Ordem do Demônio foi inspirado neste caso, passando rapidamente por um exorcismo na casa de uma família e logo focando na possessão de Arne e no assassinato cometido em Connecticut por intermédio de um demônio.

Na verdade, a possessão que levou ao crime não foi o primeiro contato com o mal de Johnson; ele já estava enfrentando essa situação havia meses. Porém, o possuído era o irmão mais novo de sua esposa, sendo uma das situações mais desafiadoras que não apenas aquela família precisou enfrentar, mas também os padres e os próprios Ed e Lorraine, cuja experiência e dedicação foram indispensáveis. No quarto livro sobre os investigadores publicado pela Darkside Books, a história real e completa de “O Diabo me fez fazer” – como ficou conhecido o caso de Arne Cheyenne Johnson – é revelada, com direito a fotos de alguns momentos de possessão e tentativas de exorcismo.

Em Luz nas Trevas, conhecemos uma tradicional família, os Glatzel. Debbie, a mais velha dos filhos do casal Carl e Judy Glatzel, pretende se mudar com seu marido, Arne Cheyenne Johnson. Conseguiram um bom negócio, e a família inteira vai ajudar na mudança. A casa não está exatamente como esperavam, muitas reformas serão necessárias e alguns móveis da inquilina anterior ainda estão ali, o que deixa Debbie com raiva e agindo de forma hostil desnecessariamente assim que adentra a residência, o primeiro sinal de algo estranho. Em outro quarto, o jovem David também não tem a melhor das impressões do lugar, e é empurrado para o colchão d’água por alguma coisa. Achando que foi um dos irmãos, olha em volta e se descobre sozinho e com um medo crescente de algo que não consegue ver, mas não por muito tempo. Uma forma se materializa em sua frente e avisa a criança para ter cuidado.

David, assustado, sai correndo e não quer ficar naquela casa por nem mais um minuto, deixando sua mãe e irmã confusas, já que sempre foi uma criança alegre e tranquila. Debbie e Arne decidem que não vão dormir na casa naquela noite e todos voltam para a residência dos Glatzel. O inferno estava prestes a começar.

O comportamento do jovem Glatzel muda drasticamente, ele começa a ter visões com a entidade que viu e até mesmo ouve o que ela diz. Não demora para que as agressões comecem, o que deixa toda a família apavorada com o que estão vivenciando e acabam acreditando que algo sobrenatural está atrás de David, que afirma ser lembrado disso todos os dias pela criatura. O ser fala através da criança, apavora-o, tortura, atormenta os demais familiares, soca, chuta e joga o pobre menino, atira coisas na sua mãe, ameaça matar a irmã e Arne… a vida daquela família vira puro pavor. Tentam recorrer a psicólogos, que dizem que o menino não sofre de nenhum distúrbio, e logo vão à igreja local, sem muito sucesso, até que ficam sabendo do casal experiente em demonologia e muito respeitado por religiosos e outras autoridades. Ed e Lorraine Warren enfim entram em cena, e Lorraine imediatamente sente que tem algo demoníaco ali. Os investigadores fazem de tudo para ajudar os Glatzel, são longos meses de sofrimento e horror para todos, os padres locais fazendo o que podem, sem terem a devida ajuda da igreja, até enfim receberem a autorização para um exorcismo. Durante uma das sessões, Arne implora pela vida de David – já muito debilitado e à beira da morte –, oferecendo sua vida em troca. O demônio não vai esquecer dessa oferta, mesmo que demore.

O autor Gerald Brittle apresenta o caso de forma séria e detalhada, usando como base arquivos dos Warren, testemunhos dos envolvidos, fotos (incluídas no final da obra, deixando tudo mais palpável e assustador) e gravações feitas durante todo o período em que os seres demoníacos atormentavam David tentando possuí-lo, conseguindo criar um relato impactante. É quase como se estivéssemos lá, presenciando cada passo da possessão e todo o horror e opressão sofridos por aquela família. Nota-se que Brittle teve um trabalho extenso para catalogar todos os casos investigados pelos Warren – organizados ao longo de outras três obras além dessa –, junto com longas entrevistas que fez com ambos, e nessa obra o cuidado com a veracidade dos acontecimentos é impressionante. Quem acompanha ou se interessa por casos/atividades e estudos paranormais vai encontrar aqui um relato bem completo e intenso do ocorrido que ficou famoso após o julgamento.

Mesmo com a riqueza de detalhes sobre os macabros eventos, os capítulos não ficam enfadonhos e vão direto ao que interessa, sem se aterem a pormenores irrelevantes que poderiam deixar a leitura cansativa. Pelo contrário, é uma leitura instigante, seja por todo o terror passado, que deixa aquela sensação de querer saber o desfecho, seja pela atmosfera criada pelo autor, que não passa a impressão de estarmos lendo um documento cheio de tecnicalidades, e sim de uma verdadeira história de horror – o que, de fato, é – que mostra como o mal pode ser incansável.

O descaso da igreja, mesmo com inúmeras tentativas tanto dos Glatzel quanto dos Warren e até dos padres locais é revoltante. Trataram como se não fosse nada demais, apesar das diversas evidências que mostravam o que estava acontecendo naquela casa, até ser tarde demais. Após a tragédia envolvendo Johnson, o clero ficou em silêncio, fingindo que nada tinham a ver com aquilo, que o caso de possessão do demônio de Connecticut já estava resolvido e não tinha relação alguma com o homicídio. Justamente quando mais precisaram, foram abandonados. Se não fosse por Lorraine, em especial, e Ed, as coisas seriam ainda piores, talvez mais tragédias teriam acontecido. O casal foi uma verdadeira luz na vida daquela família envolta em trevas, fazendo o impossível para ajudá-los, mesmo durante o julgamento de Arne.

Com um desfecho de certo modo amargo, ficamos com um sentimento de impotência por tantas injustiças passadas pelos Glatzel. Tanto sofrimento e pânico, tantas provas relatadas durante momentos de verdadeiro pavor, e não foi o suficiente, simplesmente cruzaram os braços e fecharam os olhos para o que estava realmente acontecendo. Histórias reais nem sempre têm finais felizes, afinal. Após essa leitura, se tudo isso realmente aconteceu ou é apenas uma ficção bem elaborada fica ao seu cargo, querido infernauta, julgar. O júri já fez sua escolha.

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