5
(9)
O Exorcista: Segredos e Devoção
Original:The Exorcist: BFI Film Classics
Ano:2023•País:UK
Autor:Mark Kermode•Editora: DarkSide Books

Lançado um dia após o Natal, em 26 de dezembro de 1973, a estreia de O Exorcista causou uma enorme comoção em todos os cinemas dos Estados Unidos e do mundo. Pessoas passaram mal e ficaram histéricas, mulheres abortaram, os funcionários do cinema tiveram que lidar com vômitos e desmaios durante as sessões… e, mesmo com toda a polêmica e diversos protestos dizendo que o filme era a personificação do mal – coisa que se intensificou com os boatos de tragédias no set -, ficou um ano ininterrupto em cartaz, sendo até mesmo indicado ao Oscar. Assim nasce um dos maiores e mais influentes clássicos do terror, apesar de essa nunca ter sido a intenção do diretor.

Para comemorar o aniversário de 50 anos do filme, considerado até os dias de hoje como um dos maiores e melhores do gênero, a Darkside Books traz a obra O Exorcista: Segredos e Devoção, que faz parte da série Clássicos do Cinema BFI (British Film Institute), onde promove uma discussão sobre o histórico de produção do filme, sua recepção, comentários acerca de sua importância técnica e estética, comentários do diretor e mais, defendendo o status de clássico.

Como muitos sabem, O Exorcista é baseado no livro homônimo escrito por William Peter Blatty e, apesar de algumas diferenças entre os dois, seguem a mesma história. Chris MacNeil é uma atriz e mãe solo e tenta fazer o possível para conciliar os dois mundos. Ela e sua filha, Regan, se mudam para Georgetown enquanto Chris filma uma produção. A pré-adolescente de apenas 12 anos é solitária e acaba conversando com um “amigo imaginário” chamado Capitão Howdy, que tem um nome estranhamente parecido com o de seu pai, que costuma ser um tanto ausente. Logo após começar a conversar com esse “amigo”, aos poucos Regan começa a sofrer mudanças de comportamento, ficando irritadiça e proferindo palavrões que não são de seu feitio. A mãe, preocupada, recorre a diversos médicos que, após uma série de exames invasivos, alegam não ter nada de errado com a garota. Logo, as mudanças ficam cada vez mais drásticas e fenômenos paranormais começam a acontecer na casa, deixando Chris tão desesperada que ela resolve recorrer a um exorcismo e entra em contato com o padre Karras, que, além do sacerdócio, também é psiquiatra e pode avaliar Regan melhor. Karras decide pedir a permissão da igreja, pois há sinais de possessão, e pede ajuda do experiente padre Merrin, que já realizou diversos exorcismos. O demônio que se apossa de Regan é agressivo e manipulador, ferindo fisicamente todos ao seu redor, em especial a jovem, que apresenta escoriações por todo o corpo e, principalmente, no rosto. Entre horrores e tragédias durante a possessão, Karras e Merrin entram no famoso combate do bem contra o mal para tentar salvar a vida de Regan antes que seja tarde demais.

Algo que nem todos sabem é que Blatty se inspirou em um caso real para escrever o livro. Ainda em 1949, como calouro da universidade, leu um artigo do Washington Post que falava sobre um exorcismo realizado em um menino de apenas 14 anos, que era atormentado por fenômenos sobrenaturais, e afirmava que ele fora liberto de uma possessão demoníaca graças a um padre católico. O futuro autor de O Exorcista, um religioso devoto, viu aquilo como uma prova definitiva da existência de Deus e imaginou que um documentário sobre o caso seria inspirador. William Peter Blatty entrou em contato com o exorcista envolvido no caso, porém, não conseguiu a autorização da família para escrever o estudo de uma possessão real. Seu objetivo principal foi frustrado, porém, Blatty não desistiu e ainda se sentia muito inspirado pelo caso, e decidiu escrever uma ficção baseada nisso, mas que não tivesse relação direta óbvia para não desrespeitar a família e o próprio garoto. Assim, deu vida à obra O Exorcista, sem intenção alguma de ser um clássico do horror, e sim um lembrete ao público da importância da fé, seus mistérios e ideais. Do mesmo modo, o diretor do filme, William Friedkin, concorda e diz que nunca foi sua intenção dar sustos ou fazer algo aterrorizante, dizendo inclusive que imaginou que o filme seria visto pelo público com tons de comicidade. Ambos ficaram surpresos com o impacto que a produção teve e o status de “um dos filmes mais assustadores de todos os tempos” que O Exorcista alcançou.

Em Segredos e Devoção (fiquem tranquilos, não tem absolutamente nada a ver com o mais recente filme Exorcista: O Devoto) é abordado tanto o caso que serviu de inspiração para Blatty, sua jornada de publicação e seu sucesso quanto a demorada escolha de um diretor que fizesse jus à obra original e as inúmeras discussões sobre a importância de algumas cenas. O autor e crítico de cinema, Mark Kermode, é fã declarado tanto do filme – que é seu favorito – quanto do livro e carrega uma grande bagagem de conhecimento acerca do assunto. Além de já ter apresentado um documentário no aniversário de 25 anos do filme, também publicou um ensaio a convite do Instituto Britânico de Cinema sobre o mesmo, que virou uma grande referência. Posteriormente, o ensaio foi ampliado e incluiu estudos e detalhes das cenas inseridas na versão ampliada do filme O Exorcista: A Versão que Você Nunca Viu, e é esse material atualizado que temos em mãos.

As cenas da produção cinematográfica são analisadas uma a uma, com riqueza de detalhes e comentários pertinentes, sobre a ambientação, qual a intenção por trás de cada cena e das ações de seus personagens em determinados momentos. Também mostra as opiniões dissonantes de autor e diretor ao longo da produção, deixando claro que, mesmo que fossem amigos, as divergências eram muitas. Blatty teve que ceder em muitos momentos para que o filme pudesse acontecer, enquanto em outros bateu o pé e exigiu que determinados elementos eram indispensáveis. Anos depois, Friedkin e Blatty tiveram uma franca conversa – também presente no livro – e decidiram resgatar cenas anteriormente descartadas para fazer a nova versão estendida, versão essa que deixou o autor, enfim, satisfeito.

As polêmicas sobre as tragédias durante as filmagens também não passam despercebidas e, inclusive, desmistificam muito do que as pessoas pensam sobre o filme ser amaldiçoado e ter a presença do mal rondando. Até mesmo Linda Blair, que viveu a possuída Regan, afirma não ter acontecido nada de tão estranho assim durante as filmagens.

Kermode aborda até mesmo as dificuldades de filmar algumas cenas, como a violenta cena de Regan sendo jogada para frente e para trás na cama machucou de fato Blair, como a famosa cena do vômito foi feita, como a assustadora cena de Regan descendo as escadas quase não aconteceu, toda a controvérsia envolvendo dublês e nomes não creditados, como os efeitos especiais foram feitos e como pareceram tão críveis para a época, fotografias ao longo da obra, sua repercussão e importância e muito mais. O autor apresenta um trabalho de pesquisa muito sério e completo, repleto de análises e curiosidades sobre O Exorcista e sua repercussão mundo afora, o que faz de Segredos e Devoção um material indispensável na estante. Cada linha escrita deixa claro o motivo desse eterno clássico (seja do horror ou simplesmente do cinema) ser lembrado, enaltecido e considerado provavelmente o melhor filme sobre possessão até os dias de hoje.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 5 / 5. Número de votos: 9

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *