Superman: O Filme (1978)

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Superman - O Filme
Original:Superman
Ano:1978•País:EUA, UK, Canadá, Suíça, Panamá
Direção:Richard Donner
Roteiro:Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, Tom Mankiewicz, Joe Shuster, Jerry Siegel
Produção:Richard Lester, Pierre Spengler
Elenco:Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Jack O'Halloran, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Phyllis Thaxter, Jeff East, Marc McClure, Susannah York

É um pássaro? Um avião? Não, é o super-homem!” E provavelmente o herói – que migrou dos quadrinhos para o cinema – mais conhecido graças ao carisma de Christopher Reeve (1952-2004), ator desconhecido até estrelar o longa de Richard Donner. E não foi a primeira opção, quando o primeiro filme começou a ser planejado no final de 1973. No acordo entre o produtor mexicano Ilya Salkind e a DC Comics, havia o interesse que algum ator de renome assumisse o papel, elaborando uma lista que continha as opções: Muhammad Ali, Al Pacino, James Caan, Steve McQueen, Clint Eastwood e Dustin Hoffman. Muitos outros passaram pelo crivo, como Robert Redford, Burt Reynolds, James Brolin, Lyle Waggoner, Christopher Walken, Nick Nolte, Jon Voight, Perry King e até Charles Bronson, enquanto também alguns se ofereceram para atuar como Clark Kent, com destaque para Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. Houve também uma seletiva para a escolha do diretor, com a recusa de George Lucas (com pensamentos voltados para o outro lado da força), e as intenções de ver na cadeira de comando Francis Ford Coppola, William Friedkin e Steven Spielberg.

Donner assumiu a direção, graças ao trabalho desenvolvido com o clássico A Profecia (The Omen, 1976). Já estava com a intenção de realizar Damien: A Profecia II, quando veio a proposta irrecusável de dirigir dois filmes, por U$1 milhão de dólares. O diretor acrescentou roteiristas ao projeto, sem o crédito para Tom Mankiewicz, e foi quem decidiu que um ator desconhecido deveria atuar no papel-título. Christopher Reeve não era uma boa escolha por não ter um porte físico de herói, mas foi o que aceitou trabalhar com os valores mais reduzidos, apenas U$250 mil dólares para protagonizar Superman (1978) e Superman II (1980). A título de comparação, Marlon Brando recebeu U$3,7 milhões – e ainda exigiu que não precisasse decorar falas -, enquanto Gene Hackman foi pago com U$2 milhões.

As filmagens tiveram início em 28 de março de 1977 no Pinewood Studios, e duraram dezessete meses por envolver duas produções feitas simultaneamente. Mas o segundo filme só seria lançado, caso o primeiro fizesse bastante sucesso. Com um grandioso marketing pela Warner Bros., o filme chegou aos cinemas em 10 de dezembro de 78, numa estreia que contou com boa parte do elenco, além do diretor. Três dias depois, foi feita também uma exibição no Empire, Leicester Square, em Londres, tendo a presença da Rainha Elizabeth II. Arrecadou mais de U$300 milhões de dólares em seus lançamentos pelo mundo, assumindo a posição de maior sucesso da distribuidora! Superman foi bastante elogiado pela crítica, com aprovação de mais de 94%, e comentários que apontavam o longa como um deleite de diversão, envolto em puro entretenimento.

Criado em 1938, pelo escritor Jerry Siegel com a arte de Joe Shuster, o herói de Krypton apareceu pela primeira na capa da Action Comics #1, em 18 de abril, erguendo um carro, já deixando evidente sua força. O nome “Superman” já havia sido usado pelo autor em 1933 para o personagem Bill Dunn, um morador de rua que é enganado por um cientista louco e consome uma droga experimental. Nos anos seguintes, Clark Kent foi ganhado forma e origem até encontrar em seus estranhos trajes, mesclando azul e vermelho, a aparência mais conhecida. Foi apresentado ao rádio em 1940, e estrelou uma peça em 1966. Depois de algumas versões animadas, entre 1941 e 1943, surgiu o primeiro live action em 1948, com Kirk Alyn interpretando o famoso herói em série. O primeiro longa-metragem, Superman and the Mole Men, de 1951, apresentava George Reeves como defensor da humanidade.

Superman – O Filme é, sem dúvida, a primeira grande adaptação do personagem. Quem cresceu nos anos 80 e 90 deve tê-lo assistido em suas inúmeras exibições na TV, com os múltiplos cortes, a dublagem clássica e a reconhecida trilha de John Williams. Revendo hoje, em uma versão mais completa, o filme continua bem divertido, destacando a incrível performance de Reeve, com sua mudança de postura e imposição de voz, entre as cenas que interpreta o herói e o jornalista atrapalhado Clark Kent. Disponível na plataforma HBO com todas as continuações, é interessante assistir ao filme em sua composição estendida, observando aquilo que olhos ingênuos de crianças e pré-adolescentes talvez não sejam ainda capazes de perceber.

Por exemplo, Christopher Reeve só aparece depois de cinquenta minutos de filme – e o Superman depois de mais de uma hora. Começa em Krypton, com um dos membros do conselho do planeta, Jor-El (Brando), decidindo o destino de três criminosos: General Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas) são condenados à zona fantasma, presos a uma espécie de espelho solto no espaço. Depois, ele avisa aos demais sobre a iminente destruição do planeta, mas é ignorado. Certo do fim que reserva a Krypton, Jor-El prepara uma nave em formato de estrela e coloca seu filho Kal-El rumo ao Planeta Terra, no momento em que o local é devastado pelo seu Sol vermelho.

Durante a trajetória até a Terra, Kal-El recebe vários ensinamentos sobre o universo e principalmente do planeta onde será reconhecido como diferente. A estrela cai nas proximidades de Smallville, Kansas, onde ele é adotado pelo casal Jonathan (Glenn Ford) e Martha Kent (Phyllis Thaxter), que já percebe a força física do garoto na simples troca de pneu, remetendo à cena da capa da revista em quadrinhos original. Já com o nome Clark (Jeff East), o jovem segue as orientações de seu pai de não usar seus poderes para se exibir. Vale destaque a cena em que ele corre ao lado de um trem, sem imaginar que a bordo estaria uma criança chamada Lois Lane.

Com a morte de seu pai adotivo, Clark volta às origens, encontrando um cristal verde no que sobrou de sua nave-estrela. Ele leva ao Ártico e o joga numa distância para a formação de sua Fortaleza da Solidão, um ambiente que lembra seu planeta e permite o contato com seu pai biológico. Doze anos se passam, entre ensinamentos e treinamentos, até que finalmente Superman está preparado para fazer parte da sociedade, com respeito apenas a uma ordem de seu pai: não interferir na História da humanidade.

Clark Kent (Reeve) consegue emprego como repórter no Planeta Diário, em Metrópolis, conhecendo e se sentindo atraído pela colega Lois Lane (Margot Kidder). Seguindo as orientações de seu chefe, Perry White (Jackie Cooper) e destacando também o fotógrafo Jimmy Olsen (Marc McClure), Clark tem a oportunidade de salvar Lois de ser baleada num assalto e também de uma queda do edifício, após uma pane no helicóptero do jornal. A América finalmente conhece Superman, um homem com múltiplos poderes e que está disposto a salvar o planeta, impedindo assaltos e a queda de um avião.

Enquanto a sociedade americana fica intrigada com o herói, a mente criminosa e extremamente inteligente de Lex Luthor (Gene Hackman) entra em ação, com o apoio de seu fiel escudeiro Otis (Ned Beatty) e de Eve Teschmacher (Valerie Perrine). Atrapalhados em suas ações, principalmente por Otis, o trio reprograma mísseis de um teste do Exército americano para atingir a Falha de San Andreas, ao passo que Luthor identifica uma possível fraqueza de Superman pela queda de um meteoro no mesmo dia de sua chegada à Terra, revelada numa entrevista a Lois. Assim, cabe a Superman encontrar meios de impedir terremotos, a destruição de uma barragem, a queda de um ônibus e um acidente de trem.

São muitas as cenas de destaque em Superman – O Filme. Desde o voo de Lois e Superman, passando pela Estátua da Liberdade, como o primeiro encontro entre o herói e o vilão, após atravessar um túnel de ameaças, e a cena de destruição da cidade. Ainda que os efeitos sejam datados – ganhou o Oscar de Efeitos Visuais, embora tenha concorrido em outras três categorias -, eles são divertidos e bem realizados, alternando chroma key com maquetes. A sequência em que Superman invade o subsolo para corrigir o rompimento da Falha de San Andreas é bem feita, assim como a do carro de Lois sendo soterrado.

No entanto, não teria todos os méritos se o herói tivesse outro rosto. Christopher Reeve é quem melhor representou o personagem em todos os tempos, versões e épocas. É impressionante o quanto ele aparenta ser realmente outra pessoa quando está com as roupas sociais de Clark Kent, seus óculos e chapéu. Vale menção a sequência em que ele deixa Lois após o primeiro passeio pela cidade para vinte e cinco segundos depois surgir na porta do apartamento dela, com seus trejeitos, os óculos com armação grossa e a gagueira.

Rever Superman – O Filme, completo sem os cortes da TV aberta, é ainda uma incrível experiência. Um retorno a uma época em que realmente valia a pena acompanhar produções de herói, sem os exageros e easter eggs de hoje. Diverte, é bem humorado e bastante leve, um clássico do cinema fantástico que precisa sempre ser redescoberto para as novas gerações, antes de embarcar nas aventuras atuais em que os efeitos especiais são mais importantes que o enredo e que os próprios atores que representam os personagens.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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