
![]() Ruídos
Original:Noise / Noijeu
Ano:2024•País:Coreia do Sul Direção:Kim Soo-jin Roteiro:Lee Je-hui Produção:Suh Young-Joo Elenco:Lee Sun-bin, Han Soo-a, Kim Min-Seok, Ryu Kyung-soo, Jeon Ik-ryeong, Lee Hyoung-hoon, Baek Joo-Hee |

Se Ruídos (Noise / Noijeu, Coreia do Sul, 2024) tivesse sido lançado vinte anos atrás, na época da febre do horror oriental, teria se destacado como mais um bom exemplar do período, até provocando uma refilmagem americana. Há assombrações conhecidas por aqui — as barulhentas e as que espreitam cômodos —, além de um fundo social bem interessante, principalmente para quem mora em apartamento e irá se identificar com a proposta. Trata-se de mais uma produção sul-coreana, mas sem contexto aprofundado e religiosidade cultural como O Lamento (The Wailing, 2016) e A Médium (Rang Song, 2021), sem o grafismo de Oldboy (2003) ou o agito desenfreado de Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016), ainda que tenha o mesmo impacto sobrenatural de Gonjiam – Manicômio Assombrado (Gonjiam, 2018). O longa marca a estreia de Kim Soo-jin na direção e teve passagens por diversos festivais importantes como Toronto e Sitges antes de desembarcar nos cinemas brasileiros ano passado, sem o devido barulho.
No enredo, a jovem Ju-hee (Han so-a) está desaparecida. Foi vista no prólogo bastante tensa, incomodada pelos barulhos do vizinho acima, dos sons provocados pela TV em distorção e por uma ameaça que aparenta estar próxima. Sua irmã, Ju-young (Lee Sun-bin), que sofre de deficiência auditiva e precisa de aparelho, trabalha como operária numa fábrica, quando recebe a ligação de um detetive informando sobre o sumiço de Ju-hee. Ela então opta por se afastar do emprego — desligando o aparelho para não ouvir as ladainhas de seu chefe — para morar temporariamente no mesmo apartamento da irmã, enquanto investiga seu paradeiro.

No local, ela descobre que Ju-hee nunca saiu do condomínio e há vizinhos das piores espécies por ali: os que fazem barulho em cima, os que reclamam, os violentos, os exaustos e os que ignoram, preocupados apenas com sua própria vida. Ju-young logo percebe o quão sinistro e perturbador pode ser morar em um ambiente tóxico, refletido no lixo que se acumula no porão numa simbologia relacionada à podridão que os moradores optam por esconder, ignorando desaparecimentos, acidentes estranhos e suicídios. É a caricatura de qualquer condomínio, com seus problemas de convivência, com o zelador que se mostra alheio às crises, uma síndica agressiva contra aqueles que tentam abandonar o silêncio e com idosos fofoqueiros, que conhecem bem o passado.
Como outras produções com temáticas relacionadas a sensações (Hush, O Homem nas Trevas, Bird Box…), este explora bem a questão sonora, a partir da protagonista, habituada a um mundo onde pode optar por ouvir ou não, mas que entende a importância do som. Desde o primeiro momento em cena, trabalhando numa fábrica de barulho extremo, o roteiro, a cargo de Lee Je-hui, detalha o mundo particular de Ju-young, desde o acidente que lhe trouxe a deficiência, colocando o infernauta alheio à agitação ao redor dela. Ao mesmo tempo em que se beneficia de momentos em que não precisa se incomodar com os sons, ela não consegue identificar seus próprios ruídos e muito menos notar aproximações humanas ou fantasmagóricas. E as ameaças circundam o condomínio a todo momento, espreitando no fim do corredor, na porta da frente ou nos porões, sem que tanto ela quanto o espectador consiga identificá-las.

Se por um lado a construção narrativa se mostra efetiva, ela também carece de um maior controle sobre suas subtramas. Como todo condomínio, há muitas histórias entrelaçadas ali, deixando evidências de que há mais espaços vazios do que moradores, e esses excessos podem incomodar se você não estiver atento a tudo o que está acontecendo. Há também ideias bobas espalhadas entre simbologias como o momento “vilão justificando suas ações“, entre outros clichês de produções com temática sobrenatural, como pesadelos explicativos e a tentativa de surpreender o que já se mostrava bastante óbvio. Até mesmo o estilo “found footage” é lembrado quando a protagonista encontra a câmera da irmã com uma filmagem importante feita por ela, e incompreensivelmente mantida intacta.

Mesmo sem sustos, Ruídos, ainda assim, merece seu conhecimento. Um conto fantasmagórico, bem dirigido e com uma protagonista carismática, que talvez explique alguns dos sons que você ouve em sua casa e atribui ao vizinho chato do andar de cima.

