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por Matheus Santos Rangel

Eu nunca fui muito fã dos jogos da franquia Five Nights at Freddy’s.

Não tinha paciência para o estilo de gameplay e achava a história muito confusa (na real, acho até hoje). Meus amigos eram fissurados no assunto, e um colega em específico adorava passar longaaaaaasssss horas falando sobre a mais nova teoria sobre o Purple Guy, ou seja lá quem fosse. Assim, fui aprendendo sobre FNAF por osmose, enquanto aguardava ansiosamente pelo dia em que aquela modinha passasse e todos pudéssemos voltar juntos à moda anterior: ignorar a aula de matemática e emular Pokémon FireRed no celular.

Acontece que, por alguma razão que eu não consigo explicar, Five Nights at Freddy’s nunca morre. Quando criança, presenciei o ápice e — o que tolamente imaginava ser — o declínio daquele império. Contudo, conforme os anos se passavam, Freddy, Bonnie, Chica, Foxy e a turma jamais desapareceram da cultura pop; pelo contrário: tornaram‑se cada vez mais presentes. Agora, não era só uma série de jogos. Havia quadrinhos e livros, conteúdos criados por fãs e infinitos vídeos no YouTube. O fenômeno animatrônico conquistou uma nova geração de crianças, renovando seu público e quintuplicando seu impacto. Não demorou muito até surgir o interesse por uma adaptação para o cinema, e em 2023 estreou o primeiro longa.

Assisti ao primeiro Five Nights at Freddy’s da maneira mais cinéfila possível: bêbado, numa casa de praia, lutando contra o sono depois de encher a barriga com muita carne de churrasco. Era fim de ano, e a família da minha namorada havia alugado um local para passarmos todos juntos. Fazia um calor insuportável, o lugar estava repleto de pernilongos e, diante do terror constante dos roncos — mais altos que as explosões sonoras dos jumpscares da Blumhouse — durante a hora de dormir, o medo do filme rapidamente se apequenou. Ainda assim, achei a experiência divertida e lembro de ter dito, entre uma lata ou outra: “Pô, eu veria uma segunda aventura de Freddy Fazbear e seus amigos”.

Corta para alguns anos no futuro, e aqui estamos.

Aquela namorada é agora minha esposa, temos um gato de estimação e desenvolvi uma habilidade impressionante para esmagar pernilongos. A vida tem seus problemas — e, na maioria das vezes, eles parecem insuperáveis — mas tudo acaba dando certo no final. Odeio meu trabalho CLT, mas meu desempenho me rende um bônus que não é a tão sonhada participação nos lucros da empresa, porém é melhor do que um bis derretido: um ingresso para assistir a um filme de graça no cinema. A folga chega, o atendente pergunta qual vai ser o filme da vez, e então faço a escolha mais fácil de toda a minha existência…

Five Nights at Freddy’s 2.

Dessa vez, na tela grande e numa sala cercada pelo que há de mais horripilante neste planeta: adolescentes.

Antes de tudo, preciso dizer que o objetivo deste texto não é analisar roteiro, diálogos, direção ou blá blá blá. São aspectos quase sempre medianos em casos como esse — e aqui não é diferente. Claro, não é a melhor escrita do mundo, mas quem diabos vai assistir Josh Hutcherson lutando contra robôs malignos em forma de animais esperando Shakespeare?

O filme entrega exatamente aquilo que você imagina: alguns sustinhos aqui e ali, uma cena um pouco mais inventiva de vez em quando, mas, no geral, é o típico “terror de shopping” — aquele que você esquece assim que entra na praça de alimentação e parcela um sushi em três vezes porque gastou demais na virada do ano. É assim que o produto foi pensado, produzido e vendido, então não vejo muito sentido em dedicar parágrafos a zombarias.

O mais interessante de toda a experiência envolvendo Five Nights at Freddy’s 2, pelo menos na minha opinião — e o que me fez escrever tudo isso enquanto voltava, empaçocado, num trem lotado — é justamente o público.

Na sessão em que estive, os fãs estavam amando cada segundo. Fileiras e mais fileiras de meninos e meninas rindo, gritando e batendo palmas. Eu não entendi nada e confesso que houve momentos em que a vergonha alheia beirou o insuportável. Mas é exatamente aí que mora a beleza da coisa. Num presente em que até minha vó, se bobear, vai ser substituída por IA, e em que jovens — e velhos também, sejamos honestos — parecem incapazes de tirar os olhos do celular por mais de dois segundos, foi mágico fazer parte daquilo. Mesmo sendo um apático sem coração, do tipo que chuta velhinhas na rua, me comovi com a energia daquele pessoal e até fui capaz de abrir um sorriso.

Era algo orgânico, verdadeiro. As pessoas que estavam comigo naquela sala, assistindo a uma briga generalizada de robôs‑animais multicoloridos, queriam estar ali — e estavam aproveitando aquele momento. O filme pode ter sido medíocre para mim, mas isso, no fim das contas, não é assim tão importante.

No fim do dia, Five Nights at Freddy’s 2 foi facilmente um dos melhores filmes que vi no cinema, simplesmente porque, pela primeira vez em muito, mas muito tempo mesmo, eu verdadeiramente me senti em um.

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