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O Estrangeiro Vampiro
Original:O Estrangeiro Vampiro: Carta a El-Rei D. Carlos I
Ano:1897 / 2026•País:Portugal
Autor:Gomes Leal•Editora: Clepsidra

Portugal passou por momentos sombrios e turbulentos, com a década de 1890 marcada por um cenário de instabilidade política, falência econômica e humilhação nacional, resultado do trauma do Ultimato Britânico. A Grã-Bretanha enviou um ultimato militar que exigia a retirada das tropas portuguesas de suas colônias africanas, e o rei D. Carlos I prontamente cedeu à pressão, sem argumentar ou lutar, o que fez com que a população visse isso como uma traição da coroa, uma humilhação imperdoável.  Além disso, o país dependia economicamente do capital estrangeiro, em especial inglês. Enquanto elite e o governo corrupto usufruíam dos maiores luxos, a população estava afundada em pobreza extrema, decadência e censura. A insatisfação e ressentimento contra a monarquia foi crescendo e, em 1897, atingiu seu ápice, gerando uma revolta que alimentou o ideal republicano – com a República sendo implantada em 1910. O clima de pessimismo intelectual em 1897 era galopante, com os escritores sentindo apenas desesperança e revolta, e foi nesse cenário de desespero e vergonha nacional que Gomes Leal usou a estética gótica e sombria e a figura do vampiro para escrever um poema endereçado ao rei D. Carlos I, como se fosse uma carta-denúncia aberta de tudo que estava entalado em sua garganta sobre a submissão de Portugal perante as forças inglesas.

No poema, Gomes Leal alerta o rei D. Carlos I sobre os perigos que rondam o país, sobre homens corruptos que cercavam a Coroa, afirmando que foi imbuído dessa missão por uma voz misteriosa, se autoproclamando “Poeta dos Vencidos“, um porta-voz do sofrimento da população miserável e explorada, acusando a elite e os governantes de se fazerem de cegos para o que se passa no país.

Logo em seguida, o autor cria uma atmosfera de mau agouro, como se algo extremamente perigoso estivesse à espreita, pronto para devorar o povo sofredor que está à mercê dos endinheirados que nada fazem. Avisando que a ganância e negligência cobrou um alto preço, o horizonte começa a ganhar vislumbres sombrios e apocalípticos e uma figura misteriosa surge da penumbra. Um fidalgo avista uma bela dama de branco, melancólica, que apenas encontra felicidade quando o homem lhe mostra suas riquezas, exigindo sempre mais, até deixá-lo completamente em ruínas.

A criatura, à primeira vista, apresenta-se como uma dama de aparência e vestes impecáveis, porém, quando ataca, revela sua verdadeira forma: mão com garras que rasgam a carne de suas vítimas, boca vermelha de sangue com dentes afiados. Apesar da aparência claramente repulsiva, ela se apresenta com trajes recatados e cheia de virtudes, e é isso que seduz a elite (aqui representada pelo fidalgo Raul), que deixa as portas abertas para que a criatura entre e se banqueteie como quiser. Alguém com boa aparência que vai ganhando a confiança dos demais, até enfim mostrar suas verdadeiras intenções e sugar tudo que pode. O horror está logo ali, à vista, mas alguns preferem permanecer cegos para a ameaça por causa de meia dúzia de palavras bonitas que prometem maravilhas, mesmo que isso seja um risco à soberania de uma nação.

No poema, a figura vampírica imperialista tem a intenção de sugar todo o sangue e preciosidades daquela terra até, por fim, definharem. Isso é uma clara alusão à Grã-Bretanha, que fincou suas garras em Portugal para extorquir até a última gota de riqueza, recursos e força de vontade do povo. Gomes Leal critica a submissão da monarquia, que nada fazem enquanto veem sua terra ser humilhada. Se o rei e os governantes não se mexerem para deter essa implacável assombração, em breve Portugal cairá no esquecimento graças à própria covardia de expulsá-la enquanto ainda é possível. O povo, em um torpor desesperançado, há de despertar quando estiverem diante de uma situação extrema e excruciante, ainda pior do que a atual, e uma revolução surgirá, mas eles nunca esquecerão da passividade da monarquia que os colocou nessa situação, que cairá junto da criatura estrangeira que pisou em suas terras e acabou com suas vidas.

O poema de Gomes Leal foi recebido como um panfleto político expressivo pela imprensa Republicana, elogiando a coragem do poeta, usando-o para inflamar o sentimento antibritânico que vinha surgindo das classes operárias. Por outro lado, a imprensa conservadora aliada à monarquia tentou censurar e marginalizar a obra. Houve ainda um terceiro lado, que tentou analisar a obra sem um viés político. Para eles, o poema não fazia sentido já que, por mais que monstros e vampiros estivessem em alta na literatura europeia, juntar horror sobrenatural como metáfora e sátira política era algo simplesmente incompreensível e, no final das contas, foi considerado subversivo demais. Poucos exemplares circularam, tornando-se um item raro que passava de mão em mão pelos intelectuais.

Enquanto o poema de Gomes Leal mostra a figura vampírica como a invasora imperialista britânica, outra obra publicada no mesmo ano também usava a figura do vampiro. Drácula, de Bram Stoker, também foi publicado em 1897, onde descreve uma Londres com medo de ser invadida e contaminada por um monstro vindo do Leste Europeu. Curioso pensar que, enquanto em uma das obras um lado acusava exatamente a Grã-Bretanha vitoriana de ser invasora, o lado inglês estava com medo de uma invasão estrangeira, e ambas usando o vampiro como metáfora.

Gomes Leal fundiu o terror gótico com uma ferrenha crítica à monarquia da época, sendo um marco na literatura portuguesa e, além de sua importância política, também é uma grande contribuição de Portugal às obras vampíricas. A alusão do imperialismo britânico como uma vampira que se banqueteia com o sangue, riqueza e recursos até extingui-los completamente e as consequências para a monarquia caso continuasse a ser submissa com isso se mostrou profética, já que, historicamente, a Coroa foi incapaz de resolver essa crise, levando a uma revolta popular extrema que resultou no assassinato do rei D. Carlos I em 1908 e à queda definitiva da monarquia em Portugal, com a Proclamação da República em 1910.

O Estrangeiro Vampiro faz parte de um projeto da editora Clepsidra que visa publicar clássicos esquecidos, e a obra é a primeira publicação de uma nova série da editora, na qual tanto obscuridades quanto clássicos vampíricos de extensão média terão guarida. A edição conta com um belo trabalho de prefácio e notas explicativas de Cid Vale Ferreira, além de ilustrações de Ana Milani e posfácio de Leonardo de Atayde Pereira.

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