Trilogia Pulse

Quando os americanos descobriram os fantasmas de olhos puxados, passaram a imitá-los sem piedade através de refilmagens digitais e inferiores aos originais. Ainda assim, pode-se considerar O Chamado (remake de Ringu) e O Grito (de Ju-On) produções interessantes, que usam o que há de melhor no roteiro original e tentam inovar através de “sustos novos“.

O terceiro material japonês copiado nos EUA foi Pulse, baseado num belíssimo e assustador filme de Kiyoshi Kurosawa, de 2001, intitulado Kairo. Desta vez, os fantasmas não viriam de uma maldição ou de uma fita de vídeo, mas da internet, através de um website que induzia a pessoa a se matar. Nada mais justo numa época em que as pessoas se comunicam mais através do whatsapp do que pessoalmente fazer uso desse vício do mundo moderno numa terrível história de fantasmas.

Na verdade, Kairo já havia tido uma refilmagem americana disfarçada um ano depois do lançamento original, Medopontocom. Uma porcaria monumental, o filme trazia um bom elenco atrás de uma menina com os cabelos claros e uma bola. A falecida série “Buffy” também trouxe um episódio em que um demônio usava o computador para conquistar e possuir uma personagem – algo que foi feito antes de Kairo mesmo, mas nada que possa ser julgado como cópia.

Dirigido por Jim Sonzero (que depois afundou juntamente com a produção) e contando com um roteiro de Wes Craven (!!!), o Pulse americano chegou a estrear nos cinemas brasileiros no dia 6 de novembro de 2006, contando com um elenco de rostos conhecidos como Ian Somerhalder (que depois faria “Lost“) e Brad Dourif (a voz do Chucky) e Kristen Bell (de Deepwater – A Cidade do Medo). Apesar de claramente digital (efeitos evidentes realizados pelo computador), o filme até possuía um certo charme, mesmo sendo anos-luz inferior ao produto original. A ideia do vermelho neutralizador dos fantasmas e algumas cenas como a da assombração sobre o carro até que foram bem feitinhas. Mas, no geral, não dava para alcançar uma boa média que indicasse uma sequência.

Logo, foram anunciadas duas continuações diretas para o vídeo – Pulse 2: Afterlife e Pulse 3: The Invasion. De uma certa forma, mesmo achando o primeiro filme bem fraquinho, fiquei animado com a possibilidade de acompanhar um mundo tomado por fantasmas, vendo as pessoas sendo obrigadas a voltar a uma vida sem tecnologias para reconstruir a vida.

Pulse 2: Afterlife não fez jus às expectativas. Trata-se de um filme muito ruim, dirigido e roteirizado por Joel Soisson (também pelo responsável pelo terceiro). Confuso, o longa deixou de lado o universo do original para desenvolver uma história chulé sobre uma vingança de uma esposa traída através do sobrenatural, usando o mundo pós-Pulse para concretizá-la.

Apenas para fins de alongamento de uma trama frágil, o filme demora quase vinte minutos para deixar claro quem está vivo e quem está morto. Como os fantasmas costumam refazer seus últimos atos depois que morrem, aqui a repetição dos últimos acontecimentos – além da teoria do menino do Sexto Sentido sobre os fantasmas não saberem que estão mortos – vão conduzindo o enredo até que o público perceba que determinado personagem está morto e o outro é que está vivo.

No meio desse triângulo amoroso, está a pequena Justine, uma garotinha de dez anos que tenta fugir daquele mundo fantasmagórico, seguindo as pessoas que se afastam das grandes cidades, mas tendo que confrontar a situação complicada de seus pais, a loucura da mãe, o ciúmes da amante…

Assim, ao mudar o foco dos personagens do primeiro filme, o espectador percebe que está diante de um episódio de uma série e não de uma continuação. E Pulse 2 não avança para o que está sendo proposto no título original, ou seja, não temos o início de uma nova vida, das pessoas tentando se reestruturar, apenas buscando abrigo contra os espíritos.

Há uma cena interessante envolvendo uma casa e um personagem preso num porão, mas nada que justifique uma espiada nessa continuação bagaceira, com efeitos ainda mais fracos do que o do primeiro filme. Aliás, chega a ser irônico um filme sobre fantasmas nos meios de comunicação, principalmente nos computadores, tendo sido feito quase inteiramente digital. Parece que os fantasmas do filme invadiram o CGI dos realizadores…

Pulse 3: The Invasion chegou às locadoras americanas ainda em 2008, ano do lançamento do segundo. Tem início exatamente quando o mal invadiu as cidades, mostrando um rapaz, Adam (Rider Strong), assistindo ao suicídio de sua namorada virtual (curiosamente a garota está no Cairo, Egito. Seria uma homenagem ao título original Kairo? Se for, os japoneses devem estar orgulhosos…). A cena é um pouco longa, mas até que serviu para o público lembrar o que tinha acontecido antes.

Sete anos depois que os fantasmas invadiram as redes, acompanhamos a trajetória de Justine (Brittany Renee Finamore, que está no remake de Natal Sangrento), agora uma adolescente rebelde, que mora com os pais adotivos, e não se conforma em fazer parte de uma comunidade que não usa meios de comunicação e não possuem jovens da idade dela (curiosamente, ela presencia o pai adotivo ser esfaqueado, algo que não fará diferença alguma no roteiro). Depois que encontra um laptop, a jovem consegue facilmente se conectar à rede (!!!) e conhece Adam, o rapaz do início do filme, que diz estar isolado na cidade.

O jovem convence Justine a abandonar sua comunidade e partir rumo ao local proibido para conhecê-lo. Será que Adam está realmente vivo? Será que os fantasmas a estão usando para seus propósitos?

Durante sua viagem, a garota encontra uma fazenda, onde um morador lamenta o suicídio brutal da esposa e pode usar a jovem para se conectar à rede fantasma. São cerca de vinte minutos inúteis do filme, já que não acrescentam nada à história, e ainda incomoda por ser arrastado e mal feito.

Quando Justine chega à cidade, ela conhece um rapaz que tem um plano de acabar com os fantasmas. Embora tente apresentar uma teoria curiosa – e que já havia sido apresentada no filme original – o discurso dele é cansativo e irritante ao extremo. Você sente vontade de jogar o controle remoto na televisão para aliviar o sofrimento dos fantasmas, da Justine, e principalmente o nosso.

Em suma, o filme é muito ruim. Ainda não sei qual é o pior das sequências, mas também não estou interessado em diferenciá-las. O cromaqui (o tal fundo verde) é usado à exaustão, deixando o longa com aspecto de videogame. Para exemplificar a falta de qualidade dos efeitos, notem o momento em que a garota resolve se comunicar com a mãe, conversando através do celular.

Os três produtores responsáveis por essas porcarias são Brian Cox, Michael Leahy e Anant Singh. Eles, somado ao pavoroso Joel Soisson, deveriam ser excluídos do cinema, e ainda nos pagar indenização por danos morais. Filmes assim nos fazem ter vontade de imaginar um mundo sem comunicação, sem internet e sem cinema. Bem que os fantasmas de Pulse poderiam visitá-los para impedir que novas continuações sejam feitas…

Nota do Autor: texto originalmente publicado no blog Mestre Infernauta, em 27 de janeiro de 2009.

Nota do Autor 2: os três produtores, mencionados no último parágrafo, continuam na ativa, lançando produções de gosto duvidoso como Hellraiser Judgement e Colheita Maldita: Fugitivos, ambos de 2018. Leahy, pelo menos, tem a seu favor a realização da trilogia Banquete no Inferno.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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