Ravenloft e o surgimento do terror em jogos de RPG

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No fim de semana dos dias 18 e 19 de junho, São Paulo recebeu o evento Diversão Offline, a maior feira de jogos de tabuleiro e RPG do Brasil. O evento foi um prato cheio que agradou tanto aos amantes de jogos analógicos, quanto aos aficionados por histórias de fantasia, os fãs de quadrinhos e aqueles que, assim como nós, sentem uma genuína afinidade pelo oculto.

O Boca marcou presença na palestra “Ravenloft: terror no RPG desde o início”, ministrada pelo jornalista, editor e roteirista Rogério Saladino, que além de ser co-autor do sistema de RPG Tormenta – que bateu todos os recordes de financiamento coletivo no país –, também é um assíduo colecionador de terror.

Para os menos habituados, RPG é a sigla em inglês para “Role Playing Game”, um jogo em que os indivíduos assumem papéis de personagens em narrativas que giram em torno de um enredo. Roteiro este desenvolvido por um dos jogadores intitulado “mestre do jogo”, responsável por criar a ambientação, mas não os erros e acertos: esses são determinados por fortuitas jogadas de dados.

Ravenloft é um cenário de campanha para o famoso sistema de RPG Dungeons & Dragons (D&D). Uma campanha é uma série de aventuras individuais de um jogo; um cenário de campanha é o mundo em que essas aventuras se desenvolvem; e o sistema nada mais é que do que um conjunto de mecânicas que determinam o resultado das ações dos personagens.

Feitas essas breves introduções, podemos ir ao que interessa. Como o próprio nome “Masmorras e Dragões” já diz, D&D foi criado como um sistema de fantasia medieval e, nas próprias palavras de Saladino, pode ser descrito como “uma aventura épica de heróis fabulosos”. Um livro que em seus primórdios baseava-se na seguinte premissa: heróis que se embrenham em masmorras – que iam desde florestas, pântanos, cavernas ou castelos – para derrotar monstros e obter tesouros ou itens mágicos. Porém, contudo, todavia, em 1983, tudo mudou!

Em uma noite de Halloween, o casal Tracy e Laura Hickman, inspirados pelo livro Drácula, do autor irlandês Bram Stoker, tiveram a brilhante ideia de levar os filmes de terror para os sistemas de RPG, distanciando as campanhas de epopeias épicas contra dragões e indo para uma história de vampiros. O horror, até então somente representado quando os aventureiros eram emboscados por grupos de esqueletos ou zumbis, passou a ser o plano de fundo de uma ideia totalmente nova! Focando na história do vilão, foi a primeira tentativa bem-sucedida do D&D de sair do medieval, partindo para nada mais nada menos que o terror gótico.

Na palestra, Rogério descreve muito bem que a aleatoriedade criada para determinar os acontecimentos da narrativa foi pioneira para jogos do gênero, criando opções para o Mestre e Personagem Jogador (PJ), tornando esta uma história rejogável. Somado a isso, outro diferencial é o equilíbrio entre o realismo e a fantasia, em que são usados elementos do passado para descobrir os pontos fracos do déspota Strahd. Há vários passos para se vencer o monstro final. Conhecendo a história, os personagens e a malignidade do vilão, os players são estimulados a querer derrotá-lo e salvar as pessoas que vivem em um mundo dominado pelo mal.

Não é só vencer os desafios com força bruta: “O livro trabalha com a quebra de expectativas com uma história envolvente, é a aventura do inimigo com uma história. Não só ir matar o monstro na masmorra e ganhar um item. Ravenloft foi pensado como um filme de terror: você é fabuloso, mais coisas ruins podem te acontecer! Mesmo sendo um super-herói, suas ações têm consequências e, se não for cauteloso, alguém pode morrer por sua causa”, ele alerta.

Rogério Saladino encerra sua palestra exemplificando como, criando possibilidades dentro do D&D, Ravenloft abriu as portas para novas aventuras fora dos estereótipos. Se hoje os RPGistas encontram opções fora do que era comumente engessado na fantasia medieval no RPG e não estranham até mesmo elementos de ficção cientifica, é por causa desse sistema aqui e do nosso bom e velho horror.

Não é à toa que Ravenloft é o cenário de maior sucesso comercial para Dungeons & Dragons. Adaptado para 4 das 5 edições de D&D nos títulos Ravenloft, House of Strahd, Expedition to Castle Ravenloft, o boardgame Dungeons & Dragons: Castle Ravenloft e o mais recente Curse of Strahd,“Esse sistema mudou o cenário de game design, que passou a evoluir ao longo dos tempos, pois somente um bom game desing garante isso:  conseguir se manter durante tanto tempo quase sem alterações”.

Se você, caro infernauta, não dispensa uma boa história sombria com vampiros clássicos em um mundo governado pelo medo e horror, Ravenloft com certeza é o cenário perfeito para você. Neste link você ainda pode conferir uma lista especial que já publiquei aqui no Boca para quem quiser conhecer 5 sistemas de RPG obscuros e se jogar de vez nesse mundo onde é possível sentir quase na pele os dissabores das tramas ardilosas dos seus filmes de horror favoritos.

Roteiro

“Seja bem-vindo à Terra das Brumas. Seja bem-vindo à tentação e provação dos virtuosos e à ruína dos amaldiçoados. Seja bem-vindo aos Domínios de Medo. Seja bem-vindo a Ravenloft”.

A história envolve um grupo de personagens de jogadores que viajam para a vila de Barovia, seja por puro azar de se perderem nas brumas ou como consequência de atos de extrema maldade. Esta porção de terra que flutua no plano etéreo é governada pelo tirano mestre do Castelo Ravenloft, o conde vampiro Strahd von Zarovich, um ser amaldiçoado que mantém a população subjugada pelo medo.

Dentre os acontecimentos iniciais, o mestre deve conduzir os jogadores a um misterioso acampamento do povo cigano denominado Vistanis. Lendo a sorte no baralho de cartas, o mestre sorteia aleatoriamente cinco cartas que serão os elementos-chave da história, como diários, itens mágicos, pontos fracos que deverão ser encontrados pelos aventureiros para derrotar (ou não) a vilania de Strahd e, assim, serem capazes de escapar deste mundo conspurcado.

Vampiros. Lordes Negros. Seres abissais. Diabos e demônios. Metamorfos. Licantropos. Bruxas. Múmias. Carniçais antigos. Espectros do que um dia já foi humano. Tudo isso te aguarda nesse cenário não recomendado para menores de 16 anos.

Não se engane: Strahd saberá que você estará vindo e ele saberá por que vocês vieram. O mestre do Castelo Ravenloft está recebendo visitas para o jantar – e você está convidado.

Se um mundo precisa de heróis, esse mundo é Ravenloft!

Em sua 2° edição, o livro ainda encerra com essa super lista de filmes recomendados para quem quiser entrar ainda mais no clima da história. Aproveita e já dá aquela conferida nas críticas disponíveis aqui no site.

Filmes Recomendados

Um Lobisomem Americano em Londres (1981)

Blade (1998)

A Bruxa de Blair (1999)

Drácula de Bram Stoker (1992)

A Noiva de Frankenstein (1935)

Sangue de Pantera (1942)

A Companhia dos Lobos (1984)

A Maldição de Frankenstein (1957)

A Maldição do Demônio (1957)

A Maldição do Lobisomem (1961)

Drácula (1931)

O Exorcista (1973)

A Dança dos Vampiros (1967)

Frankenstein (1931)

Freaks (1932)

Os Espíritos (1996)

Desafio ao Além (1963)

O Vampiro da Noite (1958)

Grito de Horror (1981)

A Morta-Viva (1943)

O Feitiço de Áquila (1985)

A Múmia (As versões de 1932 e 1999)

O Nome da Rosa (1986)

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

Nosferatu (1922)

O Iluminado (1980)

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999)

O Lobisomem (1941)

Quer ver mais conteúdo sobre RPG aqui no Boca do Inferno? Conta pra gente nos comentários! 😉

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Bianca Bezerra

Fotógrafa, escritora e estudante de produção audiovisual que precisa de doses diárias de cinema e Heavy Metal para manter a sanidade. Não dispensa uma história sinistra, sobretudo se for em uma boa e velha campanha de RPG! É apenas um ser humano qualquer, feito de carne e ócio.

2 thoughts on “Ravenloft e o surgimento do terror em jogos de RPG

  • 26/06/2022 em 14:15
    Permalink

    Muito bom o artigo, Bianca!
    Fazia tempo que não lia nada relacionado o horror com o RPG. Depois de algumas entrelinhas do mercado nacional eu parei de seguir artigos ou ler algo sobre o mercado. Interessante saber que o Saladino é colecionador de horror também! Me lembro com certa vergonha – mas nem tanto, rs.. – que fiquei indignado com uma chamada, um pouco apelativa, justamente do Ravenloft na DB:

    “Em um verdadeiro jogo de terror, você é um vampiro, você FOGE deles…”

    Claramente uma pequena e boba cutucada no Vampire: The Masquerade, responsável por grande parte da popularização do RPG na época. Isso para o bom e para o ruim da fama do mesmo. Entendo hoje que foi apenas uma decisão editorial desleixada mas que servia para chamar a atenção a esse magnifico título de Ravenloft. Ainda hoje eu passo em frente a uma comicshop daqui da cidade e tem lá no display uma lida edição em formato de caixão do Curse of Strahd: Revamped Premium Edition e me dá uma vontade comprar… Mas o tempo de dedicação é semelhante ao da parternidade, rs.

    Vou seguir as indicações suas e de seu artigo anterior!
    Quem sabe com a nova geração aí teremos um bom revival !

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  • 25/06/2022 em 19:09
    Permalink

    Tormenta inclusive tem um cenário chamado Reino dos Pesadelos, bastante inspirado nas obras do Gigger e Lovecraft. Infelizmente nunca tive acesso a Ravenloft porque os produtos de Dungeons & Dragons na época aqui eram uma fortuna e eu era apenas um adolescente liso. 😂

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