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Poucas franquias de horror compreenderam com tanta precisão que a tecnologia não é mero acessório narrativo, mas uma protagonista silenciosa que dita ritmo do suspense e evolução do terror. Pânico (1996), ao abrir com Drew Barrymore presa ao telefone fixo (e que baita ironia: um telefone fixo, mas sem fio) enquanto o assassino a manipula psicologicamente, estabeleceu a premissa que a franquia perseguiria por três décadas: cada avanço tecnológico não liberta as vítimas, mas oferece ao Ghostface novas formas de caçar. O que começou como esse aparelho branco na cozinha de Casey Becker, evoluiu para smartphones que rastreiam localização em tempo real, aplicativos de mensagem que permitem personificação digital, e sistemas de segurança doméstica que se voltam contra proprietários. A franquia, sob essa ótica, funciona como uma crônica involuntária da ansiedade tecnológica contemporânea, documentando como ferramentas projetadas para conectar e proteger podem ser pervertidas em instrumentos de vigilância e violência.

Em 1996, o telefone fixo representava aprisionamento literal. Casey Becker não podia fugir enquanto conversava com o assassino porque a base do aparelho a amarrava àquele espaço. A mobilidade do cordless oferecia uma ilusão de liberdade (ela circulava pela casa), mas permanecia fundamentalmente limitada pelo alcance do sinal. Wes Craven compreendia que o suspense não derivava apenas de quem ligava, mas de onde a vítima podia estar ao atender. O filme original construiu uma geografia do terror: personagens precisavam permanecer em locais específicos para manter a comunicação. Quando Billy Loomis deixa cair seu celular “tijolão” do bolso, o momento funciona como revelação quase cômica. Em 1996, um adolescente possuir telefone celular era tão incomum que o aparelho imediatamente o marcava como suspeito principal. A tecnologia ainda não havia se democratizado suficientemente para ser invisível. O celular de Billy era um posicionamento: ele tinha recursos, planejava com antecedência, pensava além dos limites impostos pela infraestrutura doméstica fixa.

A franquia acompanhou a transição tecnológica com precisão documental. À medida que celulares se tornaram ubíquos, Pânico precisou reinventar como o telefone funcionaria como arma psicológica. Pânico 4 (2011) apresenta a entidade Ghostface que não apenas liga, mas envia mensagens de texto, usa aplicativos de rastreamento, e até clona números para se passar por pessoas específicas. O filme reconhece que smartphones eliminaram a necessidade de permanecer imóvel, mas introduziram uma nova vulnerabilidade: estar sempre disponível, sempre localizável. Pânico 5 (2022) eleva essa paranoia ao mostrar Ghostface digitando em tempo real no WhatsApp antes mesmo da primeira chamada. A vítima vê reticências pulsantes indicando que alguém está escrevendo. O suspense migrou do toque do telefone para a antecipação do que está sendo composto. A tecnologia transformou o terror em coisa que acontece na tela antes de se materializar em ameaça física.

Mas Pânico 5 também subverte essa dependência tecnológica de forma reveladora. Na cena final, Sidney Prescott simplesmente desliga seu smartphone e parte para confronto físico. O gesto funciona como declaração: uma geração que cresceu sem celulares entende que algumas batalhas exigem desconexão. É Sidney quem precisa ensinar aos personagens mais jovens que tecnologia não é solução para tudo, às vezes é o problema. Quando Chad tenta usar o touchscreen com as mãos cobertas de sangue e não consegue chamar ajuda, o filme cristaliza uma ironia cruel: a tecnologia que prometia acesso instantâneo à segurança falha no momento de maior necessidade precisamente porque foi projetada para dedos limpos e secos. A interface que funciona perfeitamente em condições ideais torna-se inútil quando a vida está em jogo.

A relação de Pânico com mídia física revela outra camada de nostalgia tecnológica. A tela azul da TV que aparecia antes de fitas VHS começarem, funcionava como sinal pavloviano: o show está prestes a começar. Wes Craven utilizou essa convenção visual dos anos 1990 como gatilho psicológico para a audiência. Quando personagens no Pânico original assistem a Halloween em VHS, aquele azul precede tanto o filme de John Carpenter quanto, metaforicamente, a violência que está prestes a irromper na narrativa de Craven. É uma mise-en-abîme tecnológica: mídia dentro da mídia, o sinal analógico anunciando o horror digital que virá.

Pânico 4 e Pânico 5 homenageiam essa tecnologia obsoleta enquanto reconhecem sua extinção. Personagens que ainda valorizam o VHS são apresentados como guardiões de uma tradição em um mundo que migrou para o streaming e o YouTube. A franquia fictícia Stab (Apunhalada), que existe dentro do universo de Pânico como adaptação cinematográfica dos massacres reais, reflete essa transição. Os primeiros filmes Stab eram assistidos em VHS durante maratonas onde adolescentes bebiam e gritavam. Em Pânico 5, os comentários sobre a franquia Stab acontecem através de vídeos do YouTube e threads de Reddit, com usuários anônimos discutindo como a série se tornou cartunesca e perdeu sua substância original. A tecnologia de consumo de mídia mudou, e com ela a forma como a violência é processada e discutida.

O modulador de voz do Ghostface talvez seja a tecnologia mais icônica da franquia, e sua evolução espelha ansiedades sobre identidade digital. No filme original, o dispositivo era simples: distorcia a voz para torná-la irreconhecível. Funcionava como uma máscara auditiva equivalente ao visual da fantasia branca. Mas em Pânico 3 (2000), a tecnologia já havia avançado para um modulador capaz de mimetizar vozes específicas. Ghostface podia soar como qualquer personagem, permitindo que o assassino se passasse por aliados das vítimas. Na época, essa “tecnologia mágica” foi criticada por sua falta de realismo. A audiência dos anos 2000 não conseguia acreditar que um dispositivo portátil pudesse replicar o timbre vocal humano com precisão suficiente para enganar pessoas que conheciam o original.

 

Vinte e cinco anos depois, essa mesma tecnologia que parecia ficção científica tornou-se realidade cotidiana através de deepfakes e síntese de voz por inteligência artificial. Pânico 3 não previu apenas a possibilidade técnica, mas a implicação psicológica: quando não podemos confiar que a voz ao telefone pertence à pessoa que afirma ser, a comunicação torna-se um campo minado de paranoia. A franquia antecipou a ansiedade contemporânea sobre autenticidade digital décadas antes de deepfakes se tornarem ameaça reconhecida. O modulador de voz é uma tecnologia de roubo de identidade avant la lettre, um comentário sobre como ferramentas de comunicação podem ser pervertidas para destruir a confiança que torna a comunicação possível em primeiro lugar.

A evolução de segurança doméstica na franquia oferece também uma ironia particularmente mordaz. No filme original, Sidney tenta usar um fax modem para contatar a polícia quando linhas telefônicas são cortadas. A cena data o filme precisamente: era 1996, e a tecnologia de comunicação redundante significava um equipamento analógico conectado à mesma infraestrutura vulnerável. Corte para Pânico 5, onde casas inteligentes possuem fechaduras eletrônicas controladas por aplicativos, câmeras de segurança com streaming em tempo real, e assistentes virtuais ativados por voz. A promessa é segurança total: você pode trancar as portas de qualquer lugar, monitorar a casa remotamente, até chamar polícia através de comando de voz para Alexa.

Mas Pânico 5 demonstra que cada camada de segurança digital é também um potencial vetor de ataque. Ghostface hackeia sistema de fechaduras, transformando proteção em prisão. A vítima não consegue sair da própria casa porque a tecnologia que deveria mantê-la segura agora a aprisiona. É a reversão brutal da premissa original: onde Casey Becker estava presa porque a tecnologia era primitiva, vítimas contemporâneas estão presas porque a tecnologia é sofisticada demais. A tranca manual que Sidney usava em 1996 não podia ser hackeada remotamente. A fechadura eletrônica de 2022, com toda sua conveniência, introduz uma vulnerabilidade que não existia quando a segurança era puramente mecânica. O filme sugere que regresso a cadeados analógicos pode ser mais seguro que confiar em sistemas “inteligentes” que podem ser subvertidos por qualquer um com conhecimento técnico suficiente.

A documentação da violência é onde Pânico mais explicitamente confronta a obsessão contemporânea com a espetacularização. No filme original, Gale Weathers representava a mídia tradicional: câmera profissional, equipe de TV, reportagem filtrada através de instituições estabelecidas. Ela transformava tragédia em commodity, mas ainda operava dentro de uma estrutura que impunha alguma mediação entre violência bruta e consumo público. Pânico 4 explode essa mediação completamente.

Charlie e Jill, os assassinos desse título, usam spy cams acopladas às máscaras de Ghostface para filmar os assassinatos diretamente do ponto de vista do assassino. A intenção é criar um found footage autêntico e postá-lo online, transformando homicídios em conteúdo viral. Charlie literalmente afirma que fazer upload dos crimes seria “a próxima inovação slasher“. O filme, lançado em 2011 quando o YouTube estava consolidado, mas o TikTok ainda não existia, previu com precisão assustadora a geração de influencers que documentaria cada aspecto de suas vidas para consumo público. Jill não quer apenas sobreviver aos assassinatos, quer ser famosa por sobreviver. Ela entende que em cultura de mídia social, trauma é moeda. Quanto mais brutal a experiência, maior o valor de atenção.

A motivação de Jill (ciúme da fama que Sidney recebeu por sobreviver) ressoa de forma perturbadora com a cultura contemporânea de shooters que buscam notoriedade. O filme foi lançado em 2011, mas sua crítica a pessoas que cometem violência especificamente para ganhar infamy tornou-se apenas mais relevante. A câmera na máscara não é apenas uma ferramenta narrativa, é um comentário sobre uma geração que não acredita que experiência é real a menos que seja documentada e compartilhada. Charlie e Jill precisam filmar os assassinatos porque, para eles, violência que não é registrada digitalmente pode não ter acontecido. Seria o que eu chamaria de “um solipsismo tecnológico” levado a uma conclusão lógica e horrível: matar não basta, é necessário produzir conteúdo.

A presença de Robbie com sua câmera de livestreaming constante em Pânico 4 adiciona outra camada. Ele transmite sua vida 24 horas por dia, narrando experiências em tempo real para uma audiência invisível. Quando Ghostface o mata, a ironia é que sua morte é capturada e transmitida ao vivo, realizando de forma grotesca sua fantasia de relevância digital. Ele queria documentar tudo, e conseguiu; mas a documentação final é seu próprio assassinato. O filme questiona: em uma cultura onde até morrer ao vivo pode gerar views, que limites éticos ainda existem?

As comunidades digitais e o fandom tóxico representam a evolução final da ameaça tecnológica em Pânico (até então). A quinta entrada da franquia apresenta assassinos que se conectaram através de fóruns online dedicados à franquia Stab. Amber e Richie são fãs tóxicos que nunca teriam se conhecido sem Reddit ou plataformas similares. A motivação deles é “corrigir” os rumos da franquia Stab que consideram ter sido arruinada por sequências recentes. Eles planejam um “requel” (reboot-sequel) da vida real para provar que a franquia deveria retornar às raízes. É fandom transformado em fundamentalismo violento. A tecnologia permitiu que pessoas com obsessões perigosas se encontrassem e se validassem mutuamente, criando câmaras de eco onde senso de propriedade sobre propriedade intelectual escala até justificar o homicídio. O filme não é sutil nessa crítica: mostra literalmente mensagens de fóruns onde usuários debatem desde qual filme Stab arruinou a franquia, até quem deveria morrer para “salvar” a série.

É um metacomentário vertiginoso: Pânico 5 critica o fandom tóxico da franquia fictícia Stab enquanto sabe perfeitamente que a franquia Pânico real possui seu próprio fandom com exatamente as mesmas tendências. A tecnologia que permite fãs se conectarem e celebrarem a obra que amam é a mesma que permite a radicalização de indivíduos que decidem que sua interpretação é a única válida. O filme sugere que a internet não criou essas patologias, apenas as amplificou e deu-lhes uma plataforma para metastizar.

Há ainda um aspecto adicional que a franquia Pânico explora com consistência notável: a democratização da vigilância. Onde no original apenas Gale tinha câmeras profissionais, em Pânico 4 e Pânico 5 todo mundo está filmando tudo o tempo todo. Câmeras de segurança domésticas, doorbell cams, dashcams, smartphones sempre prontos para capturar o momento. A promessa era uma segurança através da documentação onipresente: se tudo é filmado, o crime se torna impossível porque sempre há evidência. Mas a franquia demonstra que essa vigilância total não previne violência, apenas garante que ela será registrada. E registro não salva vítimas, apenas cria arquivo digital de seu sofrimento para ser consumido posteriormente.

A cena em Pânico 5 onde Ghostface usa um app de rastreamento de localização para caçar Chad cristaliza essa ironia. Chad instalou o aplicativo para encontrar sua namorada, uma ferramenta de conveniência social. Ghostface usa a mesma tecnologia para localizá-lo e matá-lo. O app que deveria conectar pessoas que se importam transforma-se em mecanismo de caça. E quando Chad tenta usar o touchscreen para chamar ajuda, mas não consegue porque a tela não responde a dedos ensanguentados, o filme entrega sua declaração mais clara: a tecnologia foi projetada para momentos de paz e conforto. Quando a violência real irrompe, quando as apostas são literalmente vida ou morte, interfaces elegantes e intuitivas falham porque foram calibradas para condições ideais que raramente existem em emergências reais.

Ao longo de três décadas e seis filmes, Pânico documentou a transformação tecnológica da sociedade não como observador neutro, mas como crítico afiado de promessas não cumpridas. Cada inovação que supostamente tornaria vidas mais seguras, mais conectadas, mais documentadas, foi subvertida pela franquia para demonstrar vulnerabilidades inerentes. O telefone que conecta também aprisiona. A câmera que documenta também espetaculariza. O sistema de segurança inteligente que protege também pode ser hackeado. A comunidade online que une também radicaliza. A tecnologia de síntese de voz que diverte também permite roubo de identidade.

O que torna Pânico notável dentro desse prisma, não é um pessimismo tecnológico simplista, mas o reconhecimento de que ferramentas são neutras até serem empunhadas por mãos humanas. Ghostface não inventa tecnologias, apenas as utiliza para propósitos para os quais não foram projetadas, mas para os quais são perfeitamente adequadas. A franquia nos força a confrontar uma verdade desconfortável: quase toda tecnologia de comunicação e segurança pode ser revertida em arma de vigilância e terror se houver vontade suficiente de pervertê-la. E numa era onde carregamos dispositivos de rastreamento voluntariamente, onde documentamos vidas em tempo real para consumo de estranhos, onde confiamos em algoritmos para proteger informações mais sensíveis, Pânico permanece relevante porque continua perguntando: quem realmente está observando quando observamos nossas telas?

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