Hardware – O Destruidor do Futuro (1990)

M.A.R.K. 13 – MÁQUINA ASSASSINA OU EMISSÁRIO DIVINO?

O cinema já mostrou todo tipo de máquina assassina, dos robôs indestrutíveis da série O Exterminador do Futuro (e suas imitações) até artefatos mais trash, como o cortador de grama psicopata de Blades – Massacre no Country Club. O que diferencia o robô assassino M.A.R.K.-13 dentro de um universo com centenas, talvez milhares de aparatos mortais? Bem, eu começo dizendo que mesmo sendo uma máquina com a simples função de matar, M.A.R.K.-13 é uma personagem riquíssimo em detalhes e simbolismos, que os mais afoitos – aqueles que adoram ver tudo nas entrelinhas – irão enxergar como uma crítica contundente aos Estados Unidos pré-governo Bush e pós-Guerra do Golfo, até pelo fato do bicho ter a bandeira americana pintada no crânio. Bem, esta versão política não está totalmente errada. Afinal, uma máquina insensível e incansável de extermínio de inocentes não lembra, de certa forma, a intervenção dos Estados Unidos em países como o Iraque???

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M.A.R.K.-13 é uma máquina praticamente indestrutível, capaz de se auto-consertar com qualquer coisa que encontre no ambiente – mesmo que a única parte restante do robô seja a sua cabeça, como acontece em Hardware. O filme também mostra, implicitamente (no roteiro de Richard Stanley ficava mais explícito), que a máquina é viciada em energia, motivo pelo qual vive enfiando as garras metálicas em caixas de fusíveis e fios de luz para drenar eletricidade. A energia elétrica, porém, não é a única fonte de energia do androide: se necessário, M.A.R.K.-13 pode se recarregar com a própria luz solar, como Alvy descobre nos arquivos secretos do robô.

Composto por seis membros primários e três membros auxiliares – “Mais patas que a porra de uma aranha!“, observa Alvy -, o M.A.R.K.-13 tem, à sua disposição, uma infinidade de maneiras de infringir dor ao inimigo, de broca a serra elétrica. Estas armas, por outro lado, são perfeitamente desnecessárias, considerando não só a força descomunal da criatura (que só com as garras poderia esmagar a cabeça do “inimigo“), mas também o fato de M.A.R.K.-13 contar com uma arma secreta: duas seringas contendo Morfato de trifilobim, uma toxina sem antídoto que mata o oponente ao destruir suas células. O detalhe interessante é que o composto é alucinógeno. Os arquivos computadorizados sobre o cyborg ainda destacam: “O Morfato de trifilobim mata o inimigo em segundos, mas faz com que ele até goste da experiência“. Um dos personagens principais de Hardware sente na carne o poder da toxina e morre numa das melhores cenas do filme… Repare, ainda, que as duas seringas estão na parte inferior do crânio do robô, onde seria a “boca“, e parecem as presas de um vampiro – inclusive quando o robô ataca, parece estar “mordendo” igual a um vampiro.

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Em vários momentos do filme, o espectador enxerga pela ótica do próprio M.A.R.K.-13, a tradicional visão computadorizada em infra-vermelho, comum em filmes tipo O Exterminador do Futuro e também Predador. Uma cena muito interessante é aquela em que Jill se esconde na geladeira, tentando desnortear a visão do robô, que detecta o calor corporal. De alguma forma, M.A.R.K.-13 sabe que sua vítima está escondida ali (mesmo que não seja inteligente a ponto de identificar o alvo sem ser pelo calor ou movimento), e por isso fica “brincando” em frente à geladeira esperando por algum sinal que confirme a existência do alvo – ao enxergarmos pela visão da máquina, percebemos que o simples ar expirado pelo nariz de Jill já é o bastante para denunciá-la, tornando-se virtualmente impossível que qualquer um se esconda de M.A.R.K.-13, a não ser que esteja morto!

Outro detalhe curioso é o fato do robô atacar qualquer coisa que emita calor e pareça um ser vivo, desde a cafeteira em ebulição na cozinha até uma aranha que Jill cria como animal de estimação. Por isso, também, que M.A.R.K.-13 não se resume a matar suas vítimas, mas também as mutila: pela visão de infra-vermelho, o robô enxerga o calor do sangue escorrendo do corpo da vítima e acredita que ela ainda está viva, perfurando-a com a broca ou cortando com a serra elétrica até chegar à “fonte” de onde sai o sangue – este detalhe fica bastante explícito no roteiro original. O robô simplesmente não pára de provocar estragos no corpo do morto enquanto o sangue não parar de fluir!

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Finalmente, chegamos aos aspectos mais curiosos acerca da máquina: sua forte simbologia religiosa. Emissário divino ou infernal? Bem, você mesmo é quem vai julgar. O robô não só foi batizado com o nome de uma passagem bíblica (Marcos, Capítulo 13), como ainda tem em sua programação primária a tal citação – “Nenhuma carne será poupada“, ou seja, o extermínio deve ser completo e total, seja de velhos ou de crianças. E quando Alvy pesquisa por informações referentes ao robô nos arquivos do governo, descobre que o código do “projeto M.A.R.K.-13” é BAAL7697. Pode até passar em branco, mas “Baal” é o nome do deus da fertilidade dos antigos povos semitas, que, ironicamente, também está ligado às chuvas e tempestades (“ironicamente” porque o ponto fraco do robô é justamente sua pouca resistência à umidade). No século 9 antes de Cristo, quando Baal passou a representar, para os israelitas, os falsos deuses e a abominação, ganhou uma imagem de sanguinário, que bem se encaixa com M.A.R.K.-13.

Repare, ainda, na cena em que Jill usa o computador de seu apartamento para “entrar” na cabeça do robô: uma animação em 3-D mostra o interior do crânio robótico e o microchip que seria o cérebro do cyborg. Pois este microchip tem o grande desenho de um pentagrama! Todos nós, fãs de horror, sabemos que o pentagrama não representa coisa boa. Esta estrela de cinco pontas sempre esteve associada ao mistério e à magia; hoje, está muito ligada ao satanismo. Mas nem sempre foi assim. Na Mesopotâmia antiga, o pentagrama representava o poder imperial; para os hebreus, foi o símbolo da Verdade. Já o matemático grego Pitágoras e seus seguidores viam a estrela de cinco pontas como um emblema da perfeição. Finalmente, para os primeiros cristãos, o pentagrama estava associado às cinco chagas de Cristo. Qual destes sentidos se encaixaria melhor no caso do pentagrama no “cérebro” de M.A.R.K.-13? Você decide!

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Para finalizar, repare na revelação final, de que M.A.R.K.-13 é a solução encontrada pelo governo do futuro para combater a superpopulação e controlar a natalidade (no caso, exterminando pais e filhos). Seria o robô um emissário divino ou um agente do Apocalipse? Tudo bem que sua função no controle da natalidade é o extremo oposto daquela famosa regrinha divina, a do “Crescei e multiplicai-vos“. Porém, ao mesmo tempo, sua existência parece uma espécie de castigo dos céus pela extrema irresponsabilidade do homem, gerando dezenas de filhos radioativos e aumentando a triste situação da sociedade. Como na conclusão o radialista anuncia que o governo liberou a produção em massa de centenas de M.A.R.K.-13, a mensagem mais forte que fica, quando você pensa nos “sobreviventes“, é: “E sobreviver para quê?“.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

12 comentários em “Hardware – O Destruidor do Futuro (1990)

  • 14/06/2018 em 22:15
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    Ótimo artigo. Só um detalhe, o Richard Stanley é inglês, ele nasceu na África do Sul.

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  • 18/07/2017 em 03:33
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    Muito bom filme.
    Tive a sorte de vê-lo no cinema, em um pequeno cinema da Tijuca (Rio de Janeiro).
    Recomendo muito.

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  • 08/07/2017 em 12:31
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    Já tinha perdido as esperanças de ver esse artigo novamente, e eis que semana passada, eu o revejo por aqui. Valeu, Felipe M Guerra. Você sabe, não é, que amo esse filme? É um dos meus Top 10 do cinema de horror. 😀

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  • 27/10/2016 em 01:02
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    Comprei a edição nacional recentemente lançada .Ótima ficção cientifica.

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  • 26/10/2016 em 20:34
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    Além do mais, essa resenha foi resgatada
    Muito bom

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  • 24/10/2016 em 21:54
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    Eu sou apaixonado com esse filme. Simplesmente Maravilhoso. Todo o clima dark, pessimista, o roteiro inteligente fora dos clichês (mesmo lembrando bastante Alien O Oitavo Passageiro), a fotografia, tudo. Simplesmente Maravilhosos.
    Assisti esse filme na primeira década de 1990 e amei. Na época nem gostava tanto assim, de filme de terror mesmo tendo assistido Alien.
    Eu tinha esse filme em VHS mas infelizmente não tenho mais, porque o video cassete estragou e ninguém conserta, então…
    E a trilha sonora é perfeita
    Eu recomendo para quem gosta de filmes feito dessa maneira.

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    • Rodrigo Ramos
      24/10/2016 em 21:55
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      Saiu em Blu-ray por aqui alguns anos atrás. Ainda é fácil de encontrar pela internet.

      Edição dupla lindíssima!

      Tenho a minha autografada pelo próprio Richard Stanley de quando ele veio para o Fantaspoa.

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      • 26/10/2016 em 20:33
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        Perai, serio?
        Caramba, eu nem sabia velho
        Valeu pela informação
        Onde eu encontro?

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        • Rodrigo Ramos
          28/10/2016 em 03:09
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          Veja no Mercado Livre. Foi onde peguei a minha.

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  • 24/10/2016 em 00:12
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    nunca assistir ! mais parece ser um clássico trash..

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    • 12/07/2017 em 16:39
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      Não, não é trash. Assista e concordará.

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