Brahms: Boneco do Mal II (2020)

Brahms: Boneco do Mal II
Original:Brahms: The Boy II
Ano:2020•País:EUA, China, Canadá, Austrália
Direção:William Brent Bell
Roteiro:Stacey Menear
Produção:Matt Berenson, Roy Lee, Gary Lucchesi, Eric Reid, Tom Rosenberg, Jim Wedaa, Richard S. Wright
Elenco:Katie Holmes, Owain Yeoman, Christopher Convery, Katie Holmes, Owain Yeoman, Christopher Convery, Daphne Hoskins, Keoni Rebeiro, Joely Collins, Oliver Rice, Anjali Jay, Natalie Moon

Brahms teve sérias dificuldades para se inscrever no sindicato dos bonecos de terror. Sua apresentação para o cinema, no longa Boneco do Mal (2016), mostrou-se complicada pelo plot twist do roteiro de Stacey Menear, que, por sinal, deu um nó nas intenções da distribuidora brasileira, por ter optado por um título mais convencional (lê-se “popular“) em vez da tradução literal de “The Boy“. Muitas pessoas não compraram a mudança narrativa, considerando-a como uma propaganda enganosa, uma fake news, pois imaginavam que veriam em cena um rival de Annabelle ou Chucky, já sócios do clube do subgênero. Ainda assim, o longa, que custou U$10 milhões de dólares, revelou-se lucrativo, arrecadando pouco mais de U$35 nas bilheterias, impulsionando uma continuação. Contudo, seria possível surpreender o infernauta novamente, sem se deixar levar pelas fórmulas dos slashers? Sim, dos slashers.

No original, a americana Greta Evans (Lauren Cohan, de The Walking Dead) aceita um trabalho inusitado como babá na mansão da família Heelshire. Ela simplesmente precisa tomar conta de Brahms, um boneco de porcelana que representa uma criança que morreu prematuramente. Parece o emprego dos sonhos, desde que você saiba respeitar determinadas regras, não se incomode com o sumiço e mudança de objetos, nem os sons e quedas de móveis, e aceite que o brinquedo possa ter vida própria. Mas, não tem. A grande sacada do filme de William Brent Bell (Stay Alive: Jogo Mortal, Filha do Mal e Sinistro: A Maldição do Lobisomem) é apresentar um vilão humano, no caso, um adulto Brahms (interpretado por James Russell), que, na verdade, não morreu e vive escondido nas paredes de uma casa que permite o acesso a todos os ambientes. Não é tão original assim, se você se lembrar de Natal Negro e The Toybox Murders, longas do subgênero “slasher“, mas surpreende por não ter envolvimento sobrenatural, com o brinquedo possuído ou correndo pelos cômodos com uma faquinha. Ao final, com o inimigo aparentemente morto, é visto o boneco sendo reconstruído, deixando a entender que Brahms possa ainda estar vivo.

Em 2018, foi anunciada uma continuação, com o envolvimento do diretor e roteirista, e o protagonismo de Katie Holmes (de Não Tenha Medo do Escuro), com o mesmo valor de investimento. Imagens interessantes da ambientação e do elenco se uniram a um trailer, que deixava o público com uma sensação de que pudesse vir algo diferente do anterior. Como o primeiro também havia dado uma impressão do que seria, era possível que novamente o enredo pudesse tentar surpreender o público, mas desde que honrasse o que fora visto no primeiro. E Brahms: Boneco do Mal II veio com essa proposta mesmo, mas esqueceu das honrarias: trata-se de uma produção que parece entregar o que os reclamões esperavam ter visto no primeiro, como um pedido de desculpas, e a incitação a uma tagline: esqueça tudo o que viu em Boneco do Mal!

O enredo começa com uma invasão domiciliar, consequentemente ferindo Lisa (Katie Holmes) e traumatizando seu filho Jude (Christopher Convery), que passa a não falar mais. Seguindo os conselhos de uma especialista, com o aval do marido Sean (Owain Yeoman), eles se mudam para a propriedade dos Heelshire, mas não exatamente para a mansão. Logo na chegada, sussurros levam o garoto a encontrar nas proximidades o boneco enterrado, e seus pais imaginam que a interação com ele possa contribuir para a sua recuperação. Depois de reconstituído, Brahms passa a acompanhá-lo por todos os lugares, alterando aos poucos seu comportamento. Descobre-se o nome do boneco e suas regras, enquanto coisas estranhas começam a acontecer, o que leva a família a pesquisar o passado do brinquedo maldito.

Se no primeiro o enredo parecia apenas envolver um boneco manipulado pelo adulto Brahms, neste as coisas se mostram mais fora do comum. A própria história que envolve o boneco é bem maior do que a apresentada no original, evidenciando algo como uma mistura de mau agouro (a la Annabelle) com possessão, e uma relação curiosa com o caseiro Joseph (Ralph Ineson). Alterando seu modo de vestir e agir, Jude começa a sucumbir a essa influência, até o ponto de começar a ferir quem quiser desfazer essa aliança macabra, mesmo que seja alguém da família.

Alerta de Spoiler Nível Médio

Como se percebe, a nova proposta é realmente desconstruir – para alguns, inovar – o que fora apresentado no primeiro filme. Na verdade, o boneco já vem afetando famílias há décadas através de sua influência negativa no desenvolvimento de pessoas perturbadas, assassinos e suicidas. O tal “Brahms” do primeiro é somente mais um influenciado – ele é que era manipulado pelo boneco -, mas que vivia à margem da sociedade, escondido no casarão enquanto servia ao brinquedo; e Jude estava caminhado para o mesmo processo, simbolizado pelo uso das vestimentas, da frieza e da máscara. Logo, o tal “boneco do mal” é realmente “do mal“, uma entidade que controla personalidades para a realização de seus intentos.

Fim do Spoiler

Aquele tom gótico do primeiro filme, concentrado na grandiosidade da residência dos Heelshire e seus quartos e corredores escuros, silenciosos, é deixado de lado pelo terror básico dos jumpscares. E boa parte deles já é mostrada no trailer, que basicamente resume as principais cenas do filme, como a da virada da mesa, dos insetos que saltam da boca do boneco e o incidente que fere um jovem. Sem surpresas e com aspectos técnicos razoáveis (os efeitos especiais da sequência final são capazes de fazer sangrar sua alma), Brahms: Boneco do Mal II tenta ampliar em conteúdo, com mais profundidade às origens do boneco, mas sem sucesso, exatamente por ignorar o que havia de melhor no primeiro.

Ao final, apesar do bom elenco – Katie Holmes assume bem o papel de mãe protetora, embora sua reação ao acidente do garoto não pareça muito eficiente -, pode-se dizer que o filme traz aquilo que prometia desde o trailer do primeiro e que permitia a torcida de nariz pela deficiência em contar novamente a mesma história. Com isso, Brahms: Boneco do Mal II assume sua função dentro do subgênero que se imaginava desde a primeira imagem de divulgação do boneco, permitindo que Brahms finalmente possa fazer parte do clube dos brinquedos malditos, mesmo que o filme não faça jus a ele.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

Um comentário em “Brahms: Boneco do Mal II (2020)

  • 20/05/2020 em 16:25
    Permalink

    [COMENTÁRIO COM SPOILERS]

    A cena final com o boneco e a boca em forma de ânus foi de matar mesmo.

    Resposta

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