Coração das Trevas (2021)

4.8
(5)
Coração das Trevas
Original:Heart of Darkness
Ano:2021•País:UK
Autor:Joseph Conrad •Editora: DarkSide Books

Considerado um dos maiores nomes da literatura clássica inglesa, Joseph Conrad tem origem polonesa, se naturalizando inglês. Após traumáticas experiências na infância – como seu pai sendo preso pelos ocupantes russos -, ficou sob a tutela de seu tio, começando sua carreira como marinheiro aos 17 anos. Aos 21 aprendera inglês, mais tarde passou no exame para ser capitão de uma embarcação, visitando os mais variados lugares do mundo. Enfim conseguiu sua cidadania britânica e ainda continuou a navegar por mais oito anos até que, em 1894, resolveu abandonar a vida no mar e se dedicar exclusivamente à literatura.  Sua experiência como marinheiro reflete em suas obras, onde também costuma abordar os limites da natureza humana frente a situações extremas, sendo Coração das Trevas, uma de suas obras mais conhecidas, um grande exemplo disso.

Dentro de um navio que flutua pelas águas do rio Tâmisa, o marinheiro Marlow decide contar aos seus companheiros de convés uma história que aconteceu anos antes, quando foi capitão de uma embarcação que tinha como destino o Congo, região ocupada pelos belgas.

Sua principal motivação para a viagem era encontrar um famoso e elogiado comerciante de marfim chamado Kurtz, que desapareceu misteriosamente enquanto explorava a região. Todos tinham algo bom a dizer sobre os discursos de Kurtz, seu jeito, sua maestria natural, como se fosse um homem absolutamente formidável e obstinado.  Marlow conta sua saga para encontrar o tão falado homem, descrevendo suas impressões sobre um local desconhecido e selvagem, e também seu assombro com a brutalidade que os locais eram tratados – como escravos e objetos, não como pessoas -, percebendo a violência desmedida do colonialismo europeu.

Conforme avança, o capitão transmite em sua narrativa os sofrimentos e horrores que passou com o clima local, as absurdas condições de trabalho, a loucura que atinge seus companheiros e a ele próprio devido ao isolamento em uma floresta desconhecida e crueldade que se apresentam ao seu redor.

Joseph Conrad faz contrastes constantes em sua narrativa, expondo a visão europeia sobre o continente africano e, sejamos sinceros, sobre qualquer outro povo que são sejam eles próprios. Na obra brancos são chamados de cultos e civilizados – a clássica mania de grandeza simplesmente por causa da cor da pele -, enquanto os negros são frequentemente retratados como selvagens, primitivos, sombras violentas à espreita dentro de uma densa, escura e sombria floresta, corpos descartáveis e indignos de pena. O Congo acaba virando um local soturno banhado em sangue, sangue de seus próprios nativos.  A brutalidade de suas descrições e a ganância e degradação humanas retratadas são cruas e reais, tão reais que chega a ser desconfortável.

De fato, não é uma leitura fácil ou rápida. Tanto por conta de sua linguagem mais rebuscada e cheia de significados nas entrelinhas, como é costume de obras clássicas, quanto por seu conteúdo. Coração das Trevas possui poucas páginas, porém muitas reflexões. É muito fácil se perder e almejar cada vez mais poder uma vez que o tenha, corrompendo seus valores e alma até que seu coração esteja sombrio, totalmente tomado pelas trevas, a escuridão cegando quem utiliza a crueldade visando apenas o benefício próprio, levando à decadência humana, à loucura. Publicado pela Darkside Books e com tradução de Paulo Raviere, o livro possui uma narrativa intensa, sendo melhor absorvido em pequenas doses, especialmente para recuperar o fôlego após os horrores descritos.

Apesar de publicado em meados de 1900, fica claro o quanto as questões de colonizador e colonizados, escravidão e racismo continuam mais atuais do que nunca. A barbaridade feita com os “selvagens colonizados” era aplaudida e glorificada de pé – e ainda é por algumas pessoas -, estátuas eram erguidas em homenagem aos “colonizadores”, ruas e locais eram nomeados, as atrocidades eram não apenas ignoradas, como ovacionadas e incentivadas, motivo de orgulho…e infelizmente são até hoje.

O premiado filme Apocalypse Now (1979), de Francis Copolla, foi inspirado na obra de Conrad, apesar de alguns pontos serem bem diferentes do original na obra cinematográfica.

Com toques de misticismo e uma surra de realidade, os gritos “O horror! O horror!” dos companheiros de Marlow fazem mais sentido do que nunca.

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Louise Minski

Um experimento de Schrödinger entediado.

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