Atividade Paranormal: Ente Próximo (2021)

4.2
(12)

Atividade Paranormal: Ente Próximo
Original:Paranormal Activity: Next of Kin
Ano:2021•País:EUA
Direção:William Eubank
Roteiro:Christopher Landon
Produção:Jason Blum, Oren Peli
Elenco:Emily Bader, Roland Buck III, Dan Lippert, Henry Ayres-Brown, Tom Nowicki, Jill Andre, Alexa Shae Niziak, Colin Keane

Por mais mudanças que aconteçam no mundo, ele sempre retorna ao mesmo lugar. Essa sentença de filósofo de boteco talvez tenha como melhor exemplo o cinema de horror e suas tendências. Sem me aprofundar em períodos e épocas ou obras que podem ser agrupadas em um mesmo pacote – já fiz isso em outras críticas para abrandar clichês e lugares-comuns -, parto direto para o tema que interessa: a franquia Atividade Paranormal. Ela rivaliza com os infectados de [REC] pela consideração de obra que melhor herdou os found footages. Embora tenha exemplares nos snuff e alguns trechos em Cannibal Holocaust, A Bruxa de Blair trava sua batalha pessoal com a obra Alien Abduction, sem imaginar que ambas estabeleceriam a cartilha do estilo que seria depois explorada em 2007, ano em que o demônio do quarto conflitava com a equipe de bombeiros na Espanha. Um parêntese: é bom deixar claro que o primeiro Atividade Paranormal é de 2007, mas foi lançado comercialmente em 2009.

Independente de qual tenha uma maior relevância, a franquia de Oren Peli deu um passo adiante no que se refere ao custo-benefício. Feita quase anualmente – nos mesmos passos de Jogos Mortais – sem dispor de muitos recursos, as continuações arrastava multidões aos cinemas, sem apresentar muitas diferenças. Ampliavam levemente a mitologia, envolviam o despertar de um demônio, covil de bruxas contemporâneas, o tal Toby, ambientes parecidos e a incrível capacidade de registro em câmera de maneira a construir enredos autoexplicativos. Não importava se a desculpa era frágil para se justificar as câmeras ligadas até mesmo em situação de extremo perigo – quem em sã consciência iria se preocupar em filmar ao sentir o cheiro no cangote de uma criatura, um demônio ou mulheres insanas em busca de sacrifício?

Assim, Atividade Paranormal se desenvolveu em uma grandiosa franquia, que trazia saltos temporais, confusão de acontecimentos e sustos impulsionados por aparições repentinas na lente da câmera. Depois que o primeiro filme alcançou um sucesso inesperado, Atividade Paranormal 2 foi lançado em 2010, mesmo ano do bastardo Atividade Paranormal Tóquio. No ano seguinte, mais portas se fechavam e pessoas eram arrastadas em Atividade Paranormal 3, ambientado em 1988. Depois foi a vez de um adolescente corajosa desafiar o demônio no quarto filme, lançado em 2012. A quinta produção chegou aos cinemas em 2014: trata-se do spinoff Atividade Paranormal: Marcados pelo Mal, e conseguiu estabelecer uma conexão com os demais de maneira interessante, trazendo na direção Christopher Landon, em sua estreia como diretor do gênero. Ainda houve tempo para mais um, com o lançamento daquele que seria o episódio final, o fraco Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma.

Apesar deste último ter o título alternativo de Atividade Paranormal 5, há que o aponte como sexto filme da franquia, tanto que Paranormal Activity: Next of Kin assumiu o título no Brasil (Suécia e Alemanha) de Atividade Paranormal 7. Na verdade, nem precisaria de uma numeração pois o filme é basicamente um found footage que resolveram associar à franquia. Não há relação direta com os acontecimentos dos longas anteriores, nem menção, nem nada que exija que o público passeie pelo passado e saiba quem foi Katie ou Micah. Temos apenas a jovem Margot (Emily Bader), que recebeu o contato de Samuel (Henry Ayres-Brown), irmão que não conhecia por ter sido abandonada pela mãe, e pode trazer informações sobre seus familiares.

Ela então se une ao namorado câmera Chris (Roland Buck III) e ao operador de som Dale (Dan Lippert) para desenvolver um documentário sobre seu passado, e principalmente sobre sua mãe Sarah, e as razões que a levaram a tê-la abandonado. Assim, eles vão a um vilarejo com tradições Amish, em uma zona rural de Nova York, onde conhecem o patriarca Jacob (Tom Nowicki) e tradições religiosas sinistras, como a de realizar rituais às três da manhã e esconder algo em um poço no interior de uma capela isolada. Por mais que saltem à tela sinais de “estamos na merda“, o trio parece disposto a desvendar os mistérios locais, entender as vestimentas puritanas e entrevistar os residentes para encontrar as respostas que procuram.

Se todo o formato se desenha de maneira óbvia com o tradicional “terror crescente” do estilo found footage, é interessante elevar algumas camadas que fazem o percurso valer a pena. É o primeiro dos filmes da franquia a se afastar da cidade grande, para explorar a mitologia proposta no campo, com uma atmosfera escura, de intensa nevasca, onde vultos e sombras são dificilmente identificáveis à distância. A caracterização e ambientação são os pontos fortes, assim como as tochas vermelhas que caminham pela madrugada escura e instigam os personagens – e impressiona a coragem da protagonista de seguir religiosos extremistas e  até adentrar um poço profundo para investigar o que há ali. Se só houver ratos e baratas, o terror já estaria estabelecido para boa parte da população, porém o interior indicam a resposta para o sumiço da mãe de Margot. O pouco que faz o público lembrar de Atividade Paranormal acontece no sótão, na sensação de uma entidade, que senta na cama e aparece no reflexo da janela, além, é claro, da possessão, da pessoa que é jogada para cima e dos rugidos perturbadores, e o demônio que intenciona ações apocalípticas.

As tais câmeras instaladas para captar o sobrenatural são deixadas de lado por uma quantidade imensa de registros, muitos deles sem que você consiga identificar quem está filmando. Tomadas aéreas, filmagens de pessoas entrando por uma porta e sendo captadas por um registro interno, evidenciam que em muitos momentos esqueceram que se trata de um found footage. E continua não se justificando a necessidade dos personagens de registrar ocorridos logo após acordarem no meio da madrugada ou até mesmo na sequência em que Margot desperta em uma noite insone e confronta o horror. Outro problema de Paranormal Activity: Next of Kin está nos jumpscares. Há vários no filme, e alguns poderão fazer o público pular no assento como a da aparição do pequeno Eli no banheiro, porém todos acompanhados por sons que ajudam no susto ao mesmo passo que relembra o público que se trata de um filme convencional de terror.

Sem o DNA da franquia – o formato não é suficiente para abrigá-lo na mesma espécie -, Atividade Paranormal 7 tenta propor sua própria Menina Medeiros, entidade assustadora de Rec. Não chega a tanto, mas diverte pela porralouquice da sequência final, quando as profecias não são atendidas e sugerem um pesadelo que continuará após o término do filme. Uma ousadia que não se sustenta, assim como as pretensões de propor novos filmes, deixando saudades do demônio da morada de Katie. Mas também não é essa porcaria que muitos apontam por aí, cabendo a você se preparar para ver um filme Atividade Paranormal quase sem atividade paranormal.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.2 / 5. Número de votos: 12

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “Atividade Paranormal: Ente Próximo (2021)

  • 21/06/2022 em 22:13
    Permalink

    Fraco, enfadonho, nada assustador. Perdi meu precioso tempo.

    Resposta
  • 30/12/2021 em 19:52
    Permalink

    Eu assisti todos os filmes da franquia “Atividade Paranormal” e achei todos uma merda (por mais merda que seja, consegue me entreter), o único que achei realmente bom foi o “Tóquio”, só a bendita cena da mulher usando gesso andando pela casa me vendeu o filme.
    Devo dizer que adorei esse filme, a história realmente me prendeu e finalmente um filme que acontece alguma coisa além de cadeira balançando ou pessoas voando. Gostei bastante também de mudar o foco da história, após 6 filmes seguindo a história do mesmo fantasma, foi bom ver um ar novo. Engraçado que pra mim, o melhor filme da franquia é justamente o mais diferente.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.