Uma Noite de Crime: A Fronteira (2021)

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Uma Noite de Crime: A Fronteira
Original:The Forever Purge
Ano:2021•País:EUA, México
Direção:Everardo Gout
Roteiro:James DeMonaco
Produção:Michael Bay, Jason Blum, James DeMonaco, Andrew Form, Brad Fuller, Sébastien K. Lemercier
Elenco:Ana de la Reguera, Tenoch Huerta, Josh Lucas, Leven Rambin, Cassidy Freeman, Alejandro Edda, Will Patton, Will Brittain

Uma Noite de Crime: A Fronteira apresenta sua mensagem mais clara, dentre todas as já exploradas na franquia. Quando se imagina que haverá um dia ao ano em que as pessoas estarão livres para cometer assassinatos, com a data servindo também para vinganças pessoais, é claro que os principais afetados serão as minorias. Essa ideia se tornou evidente desde o primeiro filme quando um rapaz negro buscou refúgio na resistente morada dos Sandin, e depois se ampliou nos demais longas com influências políticas que confirmavam a exclusão. No novo filme, mais um bom roteiro de James DeMonaco, com produção de Jason Blum e Michael Bay, o alvo principal são os imigrantes ilegais. Na verdade, eles já haviam sofrido perseguições nos filmes anteriores e nas duas temporadas da série, mas, desta vez, há uma relevância maior na questão.

O casal mexicano Juan (Tenoch Huerta) e Adela (Ana de la Reguera) adentram os Estados Unidos pela fronteira com o Texas, fugindo de um cartel. Faz oito anos desde a eleição presidencial de Charlene Roan, e o partido Novos Pais Fundadores da América (NFFA) voltou ao poder, restituindo o expurgo anual. Juan conseguiu emprego no rancho da família Tucker, sob os cuidados do patriarca Caleb (Will Patton, de Halloween Kills), e a contragosto aparente de seu filho, Dylan (Josh Lucas), que evidencia um incômodo pela presença de um mexicano no local, ainda que ele tenha bom domínio com cavalos. Já Adela é uma boa funcionária de um restaurante nas proximidades de Austin.

Quando o expurgo finalmente acontece, o casal e outros imigrantes partem de ônibus escolar até um abrigo, protegido por seguranças armados. Um quase incidente acontece com a aproximação de carros de um grupo nacionalista disposto a eliminar estrangeiros, mas a noite termina tranquilamente, e cada qual retorna para seus postos para mais um dia de trabalho. O problema é que rebeldes estão dispostos a instituir o Expurgo Para Sempre, continuando a cometer crimes e causar o terror àqueles que tentarem se opor ao símbolo do movimento. Assim que são atacados pelos mascarados, só resta ao casal e aos sobreviventes da família Tucker chegar ao México, que, ironicamente, abriu suas portas para receber não apenas mexicanos, mas qualquer americano que esteja buscando refúgio, desde que chegue à fronteira até às seis da manhã.

A boa mensagem de DeMonaco se amplia também entre os papéis de heróis e vilões. Quando Caleb e seus familiares são ameaçados por um grupo armado, são exatamente os imigrantes que dão o apoio necessário e impedem que a esposa grávida de Dylan, Cassie (Cassidy Freeman, de Yellowbrickroad), e a irmã Harpe (Leven Rambin) sejam vítimas. Contra seus próprios preconceitos, Dylan logo começa a entender o outro lado, percebendo a natureza das verdadeiras ameaças. Eles utilizam um caminhão para tentar chegar ao local, mas também precisarão atravessar uma região a pé, com a câmera de Everardo Gout fazendo um trabalho muito bem feito de plano-sequência em um dos momentos mais tensos do filme. Ele já havia apresentado um panorama de destruição da cidade, com a câmera superiora, em efeitos de fotografia bem realizados por Luis David Sansans.

Como acontece na franquia, em alguns momentos de fuga, os personagens acabam confrontando gangues e grupos diversos. Os que se intitulam PPF, da família Levay, aparecem para incomodar com a proposta de liberar os Tuckers desde que eles matem os imigrantes, em pleno momento de Lei Marcial imposta na região. O confronto trará a possibilidade de uma vingança mais a frente, obrigando os sobreviventes a encontrar maneiras de se proteger e combater, com o apoio de índios e locais – mais uma metáfora de DeMonaco sendo cuspida no espectador.

Mantendo a tradição das máscaras diferenciadas na franquia – a do coelho é um dos destaques -, mesmo assim parece que a intenção do roteiro foi desmascarar os expurgadores. Provavelmente, trata-se de um resgate da mensagem que envolve a queda de máscaras em momentos de conflito, como se camuflar já não fosse mais necessário com o expurgo para sempre. Com o anúncio de um novo filme a caminho, resta imaginar uma ampliação das evidências de que o preconceito não é apenas uma característica dos falantes de inglês mas uma tendência global.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Uma Noite de Crime: A Fronteira (2021)

  • 03/01/2022 em 15:55
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    Gosto de filmes com premissas que invertem a ordem estabelecida na realidade (foi assim com O Dia Depois de Amanhã, por ex., em que os americanos ‘descem’ a fronteira para se protegerem do frio intenso e o México abre suas portas, em ‘movimento inédito’, como dito nos noticiários retratados no filme). Darei uma chance. Este deve valer a pena, já que parei no primeiro Uma Noite de Crime, que tinha uma premissa também interessante no geral, mas que achei meio perdido e confuso no contexto todo. Questão de gosto.

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