Giovanni Lombardo Radice, ator de Cannibal Apocalypse e do remake de A Profecia

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Lombardo Radice

por Matheus Ferraz

Um homem tem a cabeça atravessada por uma furadeira de uma têmpora à outra. Um traficante de drogas tem o topo do crânio aberto com uma machete e os seus miolos servem de banquete a um grupo de canibais famintos. Um soldado tem o estômago atravessado por tiros de escopeta, e suas entranhas voam no chão. O que estes três momentos escatológicos, dignos de figurar em qualquer lista de mortes clássicas do cinema do horror, têm em comum? Além do fato de se tratarem de cenas dirigidas por grandes mestres do horror italiano, em todas as três a vítima é interpretada por Giovanni Lombardo Radice, ator também conhecido pelo pseudônimo John Morghen.

Lombardo Radice é um daqueles rostos marcantes que você já deve ter visto uma meia dúzia de vezes, principalmente se horror spaghetti for a sua praia. Já no seu ano de estreia, ele participou de três filmes do gênero (Cannibal Apocalypse, Pavor na Cidade dos Zumbis e House on the Edge of the Park), e manteve o ritmo nos anos seguintes. Entre gialli (Un delitto poco comune), 1988) slashers (O Pássaro Sangrento, 1987) e filmes de canibais (Cannibal Ferox, 1981 único filme de sua carreira que ele renega), Lombardo Radice sempre deixava sua marca por interpretar personagens excêntricos e/ou psicóticos, que não raro morriam de forma brutal. Teve pequenas participações também em blockbusters americanos como Gangues de Nova York (2002) e uma carreira bem-sucedida no teatro, e continua atuando no nosso gênero preferido, aparecendo no remake de A Profecia (2006) e tendo sido recentemente anunciado no elenco da sequência para House on the Edge of the Park. O original lançou sua carreira no início dos anos 80, e ele promete voltar ao papel com toda a sua intensidade. O Boca do Inferno bateu um papo com o ator, que fala sobre seus filmes clássicos e projetos futuros. Confiram!

Boca do Inferno: É fato conhecido que você não é fã de horror. Apesar disso, você criou uma carreira invejável no gênero, desde os seus primeiros filmes, e ganhou notoriedade por interpretar personagens que morrem de forma violenta. Como você vê isso, ou, em outros termos, se fosse recomeçar sua carreira, seguiria caminhos diferentes?

Lombardo Radice: Nada, em termos dos filmes em si. Eles me foram ofertados e eu disse sim, e eu também diria sim se pudesse repensar, com exceção de Cannibal Ferox, mas ainda assim teria de ser num passado diferente que me oferecesse o dinheiro que me faltava na época. Se eu tivesse uma varinha mágica eu com certeza faria com que Fellini me chamasse ou que Antonioni fizesse o filme que ele me ofertou mas não conseguiu realizar, mas no geral eu não reclamo. Os filmes de horror me ensinaram muito em termos de atuar e dirigir a mim mesmo quando lidando com diálogos impossíveis ou plots absurdos. E alguns deles me ofereceram grandes personagens.

Boca do Inferno: No seu site, você diz que Giovanni Lombardo Radice (seu nome de batismo) e John Morghen (seu pseudônimo cinematográfico) são pessoas diferentes. O que isso quer dizer?

Lombardo Radice: Quer dizer que eu tive uma vida dupla em aspectos mais profundos do que no show business… Mas quanto minha carreira, Giovanni Lombardo Radice era um homem do palco, com uma reputação intelectual e uma família proeminente nos ombros (literalmente às vezes…). John Morghen era um jovial ator de horror/thrillers, viajando muito e lidando com assassinato e sangue. Dr. Jekyll e Sr. Hyde? Acho que sim.

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Boca do Inferno: A sua carreira é cheia de papeis difíceis. Um dos seus personagens mais complexos foi Charlie Bukowski, no filme Cannibal Apocalypse, um veterano do Vietnã traumatizado pela guerra e faminto por carne humana. O que você acha deste filme hoje em dia?

Lombardo Radice: A princípio lendo o roteiro eu achei que a história era absurda e que o personagem era muito bom. Então eu me concentrei em Charlie Bukowski e Margheriti me apoiou em todas as maneiras possíveis. Grande diretor e um verdadeiro gentleman. Na verdade entre os filmes de horror este é o meu preferido e eu mudei de ideia quanto a esnobar o plot. Vendo pelas perspectivas atuais ele foi de certa forma profético. A tragédia da AIDS estava batendo na nossa porta, e mesmo a ideia de que a violência da guerra leva a uma violência mais pessoal e chocante é muito interessante.

Boca do Inferno: Você tem boas memórias de Lucio Fulci, com quem trabalhou em Pavor na Cidade dos Zumbis?

Lombardo Radice: Sim, com certeza. Um homem triste e infeliz que era um grande diretor visual e uma boa pessoa em conversas pessoais sobre arte, teatro, filmes. Muito vivido. Ele tinha uma reputação de gritar e maltratar pessoas, mas sempre foi muito gentil comigo.

Boca do Inferno: Você e Michelle Soavi fizeram 3 filmes juntos, O Pássaro Sangrento, A Catedral e La Setta. Fale um pouco sobre como foi trabalhar nestes filmes.

Lombardo Radice: Foi como estar sendo dirigido por Puck de “Sonho de uma noite de verão” de Shakespeare, ou por Marc Chagall. Muita fantasia, um gênio visual e nenhuma lógica em momento algum. Mas ele tinha uma paixão verdadeira e pura pelo que fazia, não só pelo dinheiro como muitos outros. E ele era um amigo próximo. Tivemos uma relação muito especial tanto pessoal como profissionalmente, e eu tenho muito orgulho de quem ele se tornou.

Boca do Inferno: Informações sobre a sequência de House on the Edge of the Park estão pipocando por toda a internet. Pode dizer alguma coisa a respeito deste projeto? Que caminho esta sequência seguiria?

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Lombardo Radice: Não posso dizer muito, porque ainda estamos trabalhando no financiamento e Deodato me mandou ficar de boca fechada. É um ótimo projeto, que envolve Andrew Jones tanto como roteirista quanto como produtor, e temos cartas muito boas na mesa, na minha opinião. Um conceito forte, inventado por Deodato e por mim mesmo, que Jones desenvolveu maravilhosamente. Só posso dizer que depois de 30 anos Ricky saiu da cadeia, e…

Boca do Inferno: Como está sendo retornar ao papel de Ricky depois de 30 anos?

Lombardo Radice: Mal posso esperar. Ricky está no meu sangue, porque na minha performance eu usei muito aspectos da minha própria fragilidade e adolescência difícil. Então, de certa forma, ele cresceu comigo, mudando em muitas formas, mas ainda é bom e mau ao mesmo tempo. Eu quero emagrecer para o papel e já comecei uma dieta. Graças a Deus eu estou bem musculoso e em forma hoje em dia, mas eu quero parecer menos saudável.

Boca do Inferno: Cannibal Ferox é um filme extremamente controverso, e você já deu declarações de que se arrepende de tê-lo feito. Você teve algum problema em assinar para Mondo Holocausto! (ainda em fase de pré-produção), que parece ser um projeto muito semelhante?

Lombardo Radice: Mondo Holocausto! é só um projeto e eu ainda não assinei para nada. Eu só permiti que usassem meu nome na pré-produção. De qualquer forma está a quilômetros de distância de Ferox, porque é quase uma paródia e além disso meu personagem está envolvido em uma subtrama em Nova York. Então, nada de selvas nem canibais…

Boca do Inferno: A razão pela qual você renega Cannibal Ferox são as cenas de morte reais de animais?

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Lombardo Radice: Não apenas isso, mas também pelo racismo disfarçado e a morbidez geral, mascarada como “realismo“. Tem até um cena pedófila em que Zora Kerowa e eu provocamos sexualmente dois jovens índios. Revoltante.

Boca do Inferno: Mondo Holocausto! seria, então, um retorno ao ciclo dos filmes de canibais italianos?

Lombardo Radice: Não acho que vai ser o retorno de nada, porque eu não tenho certeza de que verá a luz do dia. Não é fácil produzir um filme nestas locações. Como eu disse, é propositalmente engraçado. Tem piadas sobre canibalismo, dá para imaginar?

Boca do Inferno: Outro projeto interessante ao qual seu nome vem sendo associado é Manson Rising de Andrew Jones, sobre a vida de Charles Manson. Qual será a abordagem deste filme sobre o famoso psicopata?

Lombardo Radice: Manson Rising é um roteiro excepcionalmente bem escrito (Jones é MUITO bom). Muito interessante e muito profundo. E muito honesto também. Quase uma abordagem de documentário, sem julgar, só mostrando, o que o faz ainda mais terrível.

Boca do Inferno: Que outros projetos você está desenvolvendo no momento?

Lombardo Radice: Em maio eu estarei na Inglaterra fazendo uma ponta em The Reverend, de outro Jones (Neil dessa vez). É um filme muito bem escrito e de qualquer forma eu não poderia recusar porque o papel é… tatatatan… Deus Todo-Poderoso! Isso, você leu certo. Eu vou apostar com o Diabo em uma alma (como na Bíblia) e isso é só o início da verdadeira história. Considerando que eu já interpretei o Papa (na TV) e Jesus (numa adaptação teatral de Paraíso Perdido) minha carreira religiosa está completa. Depois disso Manson e House on the Edge of the Park 2 devem estar preparados para começar e outros dois filmes estão no ar. Um é a parte dois de The Infliction que eu fiz com o diretor americano Matthan Harris novembro passado e o outro é Beyond Fury do meu querido diretor britânico Darren Ward. E neste último eu vou estar com a Barbara Cupisti, que eu simplesmente adoro. E algum trabalho no palco com certeza. Eu acabei a tradução de Um Estranho no Ninho (a peça) e devo adaptá-la para um elenco menor e às demanda do ator/diretor Alessandro Gassman (atualmente o Número Um na Itália). E vou estar com os ianques no outono na Chiller Convention. Então vamos lá!

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