3.9
(61)

Hellraiser
Original:Hellraiser
Ano:2022•País:EUA, Sérvia
Direção:David Bruckner
Roteiro:Ben Collins, Luke Piotrowski, David S. Goyer
Produção:Clive Barker, David S. Goyer, Keith Levine
Elenco:Odessa A’zion, Jamie Clayton, Adam Faison, Drew Starkey, Brandon Flynn, Aoife Hinds, Jason Liles, Yinka Olorunnife, Selina Lo, Zachary Hing, Kit Clarke, Goran Visnjic, Hiam Abbass

Decifrar a Configuração de Lemarchand tem sido mais fácil do que acompanhar o Inferno das continuações da obra máxima de Clive Barker. Desde o lançamento em 1987, os cenobitas tiveram poucas representações aceitáveis, entre passeios por dimensões, registros em câmeras amadoras, encontros com o passado e o futuro, tendo na figura imponente de Pinhead, com sua aparência associada a Doug Bradley, uma das entidades mais aterrorizantes e loquazes do cinema de horror. Prazer e dor se encontraram de diversas maneiras ao longo das décadas, com disposições tão próximas e ao mesmo tempo distintas, popularizando o universo maldito do criador e sugerindo crossovers com outros monstros contemporâneos, como Michael Myers. Hellraiser se estabeleceu como uma franquia absoluta, aparentemente intocável e altamente questionável, sem permitir que você dê o menor voto de confiança às pretensões do cineasta David Bruckner.

Com seu primeiro trabalho como diretor em 2007, com o violento O Sinal, depois Bruckner trabalhou em segmentos das antologias V/H/S, Southbound e da série Creepshow, até realizar seu segundo longa em 2020, A Casa Sombria. Ali já se percebia sua intimidade com a construção de ambientes assombrosos, sabendo lidar com a mistura de elementos ao mesmo tempo em que estabelecia uma fotografia envolta em uma atmosfera aterrorizante. Quando escrevi sobre o filme, comentei sobre a intenção de Bruckner de desenvolver um reboot que fosse mais próximo do trabalho original de Clive Barker e terminei meu texto com uma reflexão sobre como seriam os cenobitas sob a composição do cineasta. Ao finalmente conferir o novo Hellraiser, já é possível dar a sentença: o filme não chegou nem à ponta de qualquer prego introduzido na cabeça de Bradley, impossibilitando qualquer comparação direta, mas é uma produção acima da média e deve se enaltecer a proposta e sua concepção.

Seria realmente improvável que o novo filme pudesse bater de frente com o clássico. Com uma fotografia suja e um roteiro que expelia sangue e entranhas, o longa de Clive Barker é embebido em pessimismo, funcionando como uma tortura psicológica no espectador, apavorado por aquelas criaturas deformadas que residiam nos meandros dos ambientes mais escuros. Foi lançado em uma época em que o gênero abraçava o terrir, ou terror engraçadinho, com um Freddy Krueger falastrão, Jason Voorhees formando smiles em troncos de árvores, e o gênero se desenvolvendo em produções com adolescentes e crianças como protagonistas, como A Hora do Espanto, Os Garotos Perdidos, Deu a Louca nos Monstros, Gremlins… Nessas tendências que iam contra o horror realista e violento dos anos 70, Hellraiser basicamente se desenvolveu como uma maçã podre na horta do gênero. Clive Barker se apresentava como o “futuro do horror“, nas palavras intensas de Stephen King, servindo mais do que um chamariz para o VHS da produção, mas também uma previsão que não se concluiu.

Pinhead se popularizaria nas continuações, muitas delas ruins, nos quadrinhos, jogos, fanfics e na imaginação dos fãs do gênero. Anjo ou demônio – ou Engenheiro, como na obra literária – uma entidade que vagava por uma dimensão paralela habitada por criaturas perversas espalhadas por longos corredores de um labirinto sem fim. Se Stephan Smith Collins já não teve a aprovação dos fãs de horror em Hellraiser Revelações, na tentativa de um outro ator assumir o personagem, o que se poderia esperar de Jamie Clayton como a líder dos cenobitas? Será que ela conseguiria trazer toda a representatividade desse ser icônico, permitindo os mesmos arrepios que a voz modificada de Bradley fora capaz? É o que pretendo colocar à mesa de discussão.

O reboot começa com a advogada Serena Menaker (Hiam Abbass) em Belgrado, na Sérvia, adquirindo a terrível caixa de um tal Lorenz (Predrag Bjelac) a pedido de seu chefe, o bilionário e colecionador de arte Roland Voight (Goran Visnjic). Em sua mansão em Berkshires, Massachusetts, Voight induz o garoto de programa Joey (Kit Clarke) a tentar decifrar o quebra-cabeça, em uma de suas configurações finais, e este é ferido por uma lâmina do artefato, deixando-o em um estado de torpor, até que correntes surgem para dilacerar seu corpo. Seis anos depois, o ex-viciado Trevor (Drew Starkey) convence sua namorada Riley (Odessa A’zion) a invadirem um armazém abandonado de propriedade de um homem rico. Ali, em um cofre, eles encontram a tal caixa, sem conhecimento sobre o que ela é capaz de fazer.

Depois que Riley se envolve novamente com bebidas e drogas, ela é expulsa de casa pelo seu irmão Matt (Brandon Flynn), que mora com a amiga Nora (Aoife Hinds) e namora Colin (Adam Faison). Ao tentar decifrar a caixa, Riley é ferida assim como Joey, e passa a ver criaturas estranhas, os tais cenobitas, que dizem que ela deve trazer outras pessoas para a dimensão, através do artefato. O primeiro a desaparecer é Matt, o que leva a garota a buscar informações sobre os proprietários do armazém, com ligação ao nome de Serena, que está internada em um hospital em observação. Logo, ela será conduzida à mansão do também desaparecido Voight e precisará encontrar uma forma de se livrar das entidades peculiares e principalmente de uma, com diversos pregos presos à cabeça.

Como se percebe, trata-se de uma história original, escrita por David S. Goyer, Ben Collins e Luke Piotrowski. E as diferenças são bastante evidentes, ainda que permitam comparações. A reconstrução física de Frank Cotton na obra original foi substituída pela psicológica de Riley. Destruída pelos vícios, sem mesmo entender seus próprios sentimentos, ela é a própria Configuração dos Lamentos, algo a ser decifrado. Assim, não se pode traçar um paralelo com a heroína Kirsty, mas algo mais próximo de Julia, que seduzia homens para alimentar o “renascido do inferno” na obra original. Desta vez, a entrega não é tão intencional, mas ocasional; e sua reconstrução se nota pela tortura à qual ela passa a ser submetida na narrativa.

Se os cenobitas originais apareciam simplesmente para torturar aqueles que mexessem com a caixa, aqui eles são seres mais físicos, que atravessam o portal e podem ser vistos por qualquer um. Eles circundam a mansão, configurada pelos estudos de Voight, e aguardam pacientemente uma oportunidade de atingir seus objetos de prazer. Desse modo, ainda que seus alcances sejam feitos pelas mudanças na estrutura do local onde a convocação é feita, uma vez atravessado o portal, os serem passam a ser mais tangíveis que os vistos no clássico. Ali, havia uma sensação incômoda de um poderio sobrenatural, de aparições quando você menos espera. Uma vez expostos, eles já não se escondem mais na escuridão dos ambientes.

Também são diferentes as próprias concepções dos cenobitas, incluindo Pinhead. Sem roupas pretas, sem o couro, que fazia associação ao sadomasoquismo, as entidades são mais visualmente claras, ainda que repugnantes, com peles esticadas, exposição de órgãos. Também são falantes, não deixando a expressão apenas à líder deles, ampliando o pesadelo de suas vozes macabras. Já a Pinhead de Jamie Clayton desperta arrepios pela sua perversidade expressa. Não tem as mesmas falas contundentes do personagem original, mas cria um vínculo interessante com a dimensão demoníaca. Deve ser vista como um ser único, poderoso e absoluto, aberto a negociações, permitindo diálogos, atendendo solicitações e trocas.

A tal Configuração de Lemarchand também merece um parágrafo à parte. Não é simplesmente uma caixa ou um cubo mágico, com pequenas movimentações em sua estrutura. A cada estágio da Configuração ela alcança formações diferenciadas, com extremidades e conexões, como um jogo em vários níveis. Voight buscava o estágio final, o contato com entidades ainda mais poderosas, algo além de suas conquistas materiais, a satisfação superando limites. E, assim como a concepção original, ela é sedutora, um enigma atraente e ameaçador.

Definitivamente, o novo Hellraiser é um dos bons filmes de horror de 2022. Um reboot grandioso que deve ser enaltecido pela ótima produção, mas sem o mesmo impacto do original. Pode até ser o pontapé de uma nova visão para a franquia, sem o sangue em profusão, mas com o grafismo, além da sexualidade mais contida. Aqui o prazer é substituído pelo poder, enquanto a dor não deixa transparecer uma eternidade de tortura e violência, mas algo findável. Se Bruckner tivesse se apegado ao grotesco para despertar seus cenobitas e fizesse uma produção com uma duração um pouco menor – duas horas de filme é um exagero para a proposta -, o resultado seria mais aprazível. Ainda assim, merece sua disposição como um spinoff do universo de Barker.

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Média da classificação 3.9 / 5. Número de votos: 61

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27 Comentários

  1. O filme mais parece uma viagem espacial com Cenobitas espaciais rasgados de couro esperando pela próxima festa do peão boiadeiro . Não tem nem de long e o mínimo aceitável do terror do original.

  2. Revendo esse reboot, ainda considero um acerto. Atualizou a mitologia para novas gerações e é ótimo assistir Hellraiser numa produção mega. Os novos visuais dos Cenobitas, a nova Caixa e suas regras. Tudo foi muito bem feito e pra mim, o maior destaque ainda é a Pinhead da Jamie Clayton.

  3. O original tinha uma atmosfera bem pervertida e gore que tornava o filme interessante, porém esse conseguiu ser gore apenas, filme okay.

  4. Assisti o reboot ontem sem expectativas e gostei muito. Sem favor nenhum, o melhor filme da franquia, desde Hellraiser 4 – A Herança Maldita. Foca no universo dos Cenobitas e expande a mitologia. Soa familiar com a quadrilogia original e é um refresco depois que a série foi acanalhada com tantas continuações desnecessárias (6 filmes com roteiros adaptados!!!), que mais pareciam episódios aleatórios de uma série de TV. A mudança de gênero de Pinhead foi um acerto, pq nenhum outro ator escaparia de comparações com o inesquecível Doug Bradley. Sobre militância, não vi nada, o filme foca no universo distorcido de Barker e faz jus a sua mitologia original. Em tempo: como fã, fico aliviado da série ter saído das mãos da cretina da Dimension Films. Pra ficar perfeito, só falta a versão do diretor Kevin Yagher para o injustiçado Hellraiser 4.

  5. Até então a saga Hellraiser tinha apenas dois bons filmes: os dois primeiros. Do 3º filme em diante só foi ladeira abaixo. Esse novo Hellraiser traz a mitologia dos dois primeiros filmes (sem a trama insistente dos demais em envolver detetives / policiais). Aqui, como nos dois primeiros filmes, existe ação e consequencia. A nova Pinhead é muito boa: cruel, inexpressiva (no bom sentido), com movimentos lentos e precisos, sem ser espalhafatosa. Apenas achei os cenobitas muito “limpos”; eles poderiam estar mais sangrentos. Ansioso pela continuação.

    1. o que não gostei durante um período do filme a mocinha sempre escapa na cagada de ser cortada pela caixa, no final os cenobitas são presos pelas grades da casa por serem seres demoníacos não achei que legal, a nova pinhed gostei só precisava dar mais ação a ela.

  6. Ansioso para ver, mas até agora nada em nenhuma plataforma oficial e sou leso para links piratas kkkk Até onde sei, é um reboot, uma reimaginação do universo original de Barker. Além da extração do melhor que houve nos 4 primeiros e essenciais filmes da franquia. Lógico, tudo “atualizado” para gerar comunicação com novas gerações, assim como os reboots de Candyman e Evil Dead. Gosto da ideia e prefiro reboot que remake.

  7. Eu gostei bastante do filme, mas tem um aspecto da história que me incomodou.

    Em determinado momento é apresentado que tudo era plano do bilionário, mas da forma que a história é apresentada, não me passa a impressão que as decisões da protagonista foram direcionadas. Me parece que o plano do bilionário funcionou (até certo ponto) mais por sorte do que por qualquer outra coisa. Me parece que Riley agia sempre expontaneamente de maneira conveninente para o enredo funcionar.

  8. 3 estrelas? Injusto com certeza. No mínimo 4 pela originalidade do Reboot, cuidado em trazer algo diferente para os antigos e novo público da Saga. O filme constrói o necessário em seu tempo, para não ficar algo corrido e apenas focado no gore. Melhor produção de 2022 dentro do gênero com certeza.

    1. Eu amei esse reboot, ele pegou o que há de destaque nos filmes antigos e trouxe uma nova visão. Me senti vendo uma trama similar a Hellraiser II, só que num tom mais ameaçador, e amei o novo visual dos cenobitas, a Pinhead é perfeita.

    2. É a opinião dele,não é injusto colega,cada um tem uma experiência e percepções diferentes,eu por exemplo acho que foi bem generoso pois pra mim o filme é sem sal com muitos furos no roteiro e tem uma atmosfera muito PS4 na concepção dos cenobitas,sem contar a protagonista que é mal escrita e a atriz está péssima

    3. Originalidade? O cara pega tudo já criado e muda algumas coisas, e ainda dá uma de feministo descaracterizando o personagem (que sempre foi masculino), e você acha que é digno de aplauso? Ah, faça-me o favor! É como se eu criasse um novo Mortal Kombat e começasse a colocar o Scorpion como mulher, a Sonya como homem, etc…

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        Patrícia, a personagem é feminina no livro. Sem preguiça, vai, lê o material original e evita de passar vergonha na internet.

        1. Estamos falando de filmes, não de livros, fica você aí passando pano pra gente sem criatividade (que só sabe pegar o que já foi criar e “tentar fazer melhor”… e feministos enrustidos. Ah, pega o seu livro e limpe o que quiser com ele… Haha

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            Bom, querida, se o conceito de “nova adaptação do material original” não te é familiar, não vou ser eu a pessoa que vai pegar sua mãozinha pra explicar. No mais, essa grosseria toda não vai te levar a lugar nenhum e o filme vai continuar existindo do jeitinho que está hoje. Um beijo!

  9. Achei o filme original e fantástico! Totalmente diferente das produções deste ano! Estávamos precisando desse frescor referente a esta franquia! Apenas um adendo: Em sua explicação você diz que Riley se machuca assim como Joey (passando a ver criaturas estranhas). Negativo! Riley apenas abre a caixa, não se corta igual o Joey e por isso Pinhead lhe diz “traga nos outros” dando assim a oportunidade dela levar 6 almas e realizar um desejo.

    1. Amigo, chamar remake de original é não saber nem o que é um remake e mem o é original. É um direito seu ter gostado e isso eu respeito.

        1. Eu não gostei do enredo… sei que é injusto comparar ao original mas independente disso, achei fraca a história… outra coisa intrínseca a quase tudo que Hollywood faz hoje em dia é o apelo do tal gênero e de colocar em alguma medida isso nos filmes… seria excelente que ficassem em boa história e deixassem de lado a militância, dw qualquer aspecto… carecemos de abordagem de assuntos mais profundos ou, no caso de filmes, somente o que se propõem sem ter que ser remetidos à pautas, sejam elas conservadoras ou progressistas…

          1. Não é lacração. O próprio autor (gay) curtiu a mudança, além disso, a franquia é sobre prazer, taras, uma mudança de gênero cai perfeitamente nisso. Aliás, é um dos poucos casos onde a mudança de gênero (aliás, talvez nem ter um gênero, mas ser fluído) é perfeita.

          2. O problema com hollywood é o conservadorismo, pois o primeiro filme era visceral, rebelde, ia mais fundo no tema. Não vi esse, mas acho que dificilmente o pessoal vai embarcar em uma história mais forte, onde mostre formas de prazer que a maioria das pessoas ficariam enojadas. Eu lembro do visual do dr. no segundo filme, onde um pênis era o apoio dele. Duvido muito que nos anos conservadores de hoje isso seria permitido. Mudança de gênero é perfeita na série, o problema é outro: as pessoas têm coragem de abordar taras em filmes? Ou têm medo de que isso faça o filme cair em um nicho e não render dinheiro? Ou colocar uma personagem feminina, como pinhead, em um filme que mostraria muito sobre taras (+18) poderia enfurecer uma galera progressista e acabar com o filme? Hellraiser é filme para ousar. O fã devia ficar contente em ser colocado contra a parede com mudanças, porque isso é o prazer desse tipo de tema. O fã tem que ficar atento porque se depender dele mesmo, tudo sempre será “mais do mesmo”.

          3. Avatar photo

            Alex, o filme é uma nova adaptação inspirada no que o Barker escreveu. No livro dele, Pinhead era uma figura feminina, ok? Se dói tanto ver isso, fica lá com os filmes anteriores que tá tudo certo, cara.

          4. Concordo, essa militância toda está arruinando Hollywood e os jogos. Os estúdios estão parando de querer contar boas histórias e agora só querem enfiar essas pautas progressistas dos infernos.

        2. Não interessa se é remake ou reboot, nutellinha! O fato é que não há nada de original em dar nova roupagem àquilo que já foi criado por outros. Fazer melhor, melhorar isso ou aquilo… não é criar. O mérito fica para o primeiro filme, ponto!

      1. A atriz que faz o novo Sacerdote é ótima e o Cenobita está realmente bem sinistro,é um reboot uma nova abordagem tempos diferentes,isso eu entendo e concordo, pra mim o que não funciona é o roteiro meio furado e com muita barriga,previsível também, as atuações são bem meia sola e acabei não me conectando,sem contar a estética dos cenobitas,ficou parecendo um novo jogo de Silent Hill,a criatura correndo igual zumbi do Snyder me pareceu meio tosco,me tirou da imersão. É acima da média em comparação com as continuações medíocres de antes,mas não chega nem perto clássico de 87

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